domingo, 30 de maio de 2021

Já está disponível o acesso gratuito ao acervo digital de Vinicius de Moraes

Fazem parte do acervo, cerca de 11 mil documentos originais do escritor carioca, com poemas, correspondências e outros textos

Um verdadeiro “cidadão do mundo”, mas eminentemente brasileiríssimo, Vinicius é mostrado no acervo onde se registra a amizade com Menininha do Gantois, Orson Welles, Tom Jobim, Pablo Neruda, João Cabral de Melo Neto, Charlie Chaplin, Baden Powell, entre outros. Passa pelo Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Ouro Preto, Montevidéu, Paris, Oxford, Los Angeles e Brasília.

Acervo Digital

A partir do final da década de 80, a família de Vinicius de Moraes (1913-1980) fez uma série de significativas doações que somam mais de 11 mil documentos de seu acervo pessoal ao Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Em 1992, o arquivo ficou disponível para consulta pública na mesma instituição. Considerando a relevância de preservar a memória da cultura brasileira e de garantir acessibilidade a um número ilimitado de pesquisadores, professores, escritores, músicos, artistas e do público em geral, a VM Cultural lança o Acervo Digital Vinicius de Moraes em 27 de maio. Em um site criado para o projeto – http://acervo.viniciusdemoraes.com.br – será possível acessar os milhares de documentos originais digitalizados. Acervo Digital Vinicius de Moraes tem patrocínio do Ministério do Turismo e do Itaú, com realização da VM Cultural.

Com idealização e coordenação de Julia Moraes e coordenação técnica e design de Marcus Moraes, respectivamente neta e sobrinho-neto de Vinicius, o Acervo Digital Vinicius de Moraes surgiu do desejo de preservar digitalmente o arquivo, incentivar a pesquisa e democratizar o acesso à obra do poeta, compositor, dramaturgo, jornalista e diplomata carioca. A trajetória múltipla de Vinicius atravessa os mais diversos ambientes culturais e intelectuais – de Mãe Menininha do Gantois a Orson Welles, de Baden Powell a Pablo Neruda; passando por cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Ouro Preto, Montevidéu, Buenos Aires, Paris, Oxford e Los Angeles.

Antes de ser doado ao Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, o acervo estava na casa da família do poeta, na Gávea, bairro da Zona Sul carioca, onde foi bem cuidado por suas irmãs Lygia e Laetitia de Moraes. São 6 mil registros que contemplam mais de 11 mil documentos originais, entre manuscritos e datiloscritos, totalizando mais de 34 mil imagens digitalizadas. Marcus Moraes destaca a importância do projeto, que segue a tendência dos grandes acervos digitais nacionais e internacionais. “Estamos preservando esse material de qualquer problema físico e dando acesso gratuito à informação.”

Ao percorrer o acervo, particularidades do processo de criação do poeta são reveladas em anotações, correções, trechos refeitos ou cortados. “Vinicius era um grande trabalhador da palavra. Você vê isso com muita clareza, como ele fazia e refazia os seus poemas”, diz Marcus. “Do ponto de vista de quem quer entender os processos literário e criativo, o acervo é muito rico. É um mapa da criação. Não são só acertos, ali estão os erros também. Acredito que isso valorize todos os artistas”, avalia Julia Moraes.

Para Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, não existe inovação sem conservação. “Sem constituirmos a memória do passado, não se estabelecem novas fronteiras, conhecimentos ou saberes”, defende. “Quando não está organizado, catalogado, digitalizado e acessível, o passado realmente se entristece. Na medida em que isso acontece, o acervo deixa de ser apenas passado e se torna algo absolutamente contemporâneo. Por isso, apoiar a constituição dessas memórias com o Arquivo Digital de Vinicius de Moraes é dar um novo significado de contemporaneidade a este valioso material”, completa.

O acervo está dividido em três grandes séries: Correspondências, Produção Intelectual e Documentos Diversos. São poemas, textos em prosa, letras de música, peças, roteiros, discursos, notas e cartas que revelam amplas trocas intelectuais ao longo de quase 50 anos. Os documentos poderão ser consultados por meio de um sistema de buscas on-line. Revisado e atualizado, o inventário completo do acervo estará disponível gratuitamente para download em PDF, permitindo uma busca off-line também.

Destaques do acervo

Na série Correspondências, há cartas, cartões e telegramas de renomados nomes da literatura, da música e do cinema do Brasil e do mundo; além de missivas com políticos, familiares, amigos e editoras. De seus parceiros musicais, há cartas de Baden Powell, Carlos Lyra e Tom Jobim. Entre seus amigos estrangeiros estão presentes Orson Welles, Gabriela Mistral, Pablo Neruda e Waldo Frank. Há uma carta de Charles Chaplin agradecendo o envio da primeira edição da revista Filme, fundada por Vinicius em Los Angeles.

Em uma das cartas enviadas ao poeta Manuel Bandeira, Vinicius solicita uma leitura crítica de seus poemas. Em outra, pede a opinião sobre versos de seu poema Pátria Minha, com receio de ter problemas políticos. O poeta João Cabral de Melo Neto fala do seu trabalho à frente da editora O Livro Inconsútil, selo que publicaria Pátria Minha em 1949, numa edição de cinquenta exemplares.

A série Produção Intelectual traz uma documentação abrangente, mostrando o extenso campo de atividades nas quais Vinicius se dedicou ao longo da vida: poesia, textos em prosa, artigos, peças, letras de música, shows, roteiros de cinema, discursos, entrevistas e traduções.

Há diferentes versões do roteiro de Les Amants de la Mer e detalhes da produção até o roteiro final de Garota de Ipanema. É possível consultar o roteiro decupado do filme Orfeu Negro, dirigido pelo cineasta francês Marcel Camus, além da versão francesa do texto e uma entrevista de Vinicius revelando que adaptou a peça Orfeu da Conceição para o cinema em apenas 15 dias.

Na área musical, são mais de 260 letras. Assim como os poemas, muitas têm mais de uma versão. Destacam-se Insensatez, Chega de Saudade, Canto de Ossanha (quatro versões), Canção do Amanhecer (nove versões), Por Toda a Minha Vida, Tarde em Itapoã, Samba da Bênção e A Minha Namorada. Destaque também para a documentação completa de Brasília: Sinfonia da Alvorada, poema sinfônico de Vinicius e Tom Jobim feito a pedido de Juscelino Kubitschek e Oscar Niemeyer para a inauguração de Brasília.

Na produção teatral, encontram-se o original de Orfeu da Conceição, as versões incompletas do 1º e do 2º ato do espetáculo, as provas tipográficas e o texto impresso sobre a peça na revista Anhembi (1954), além de notas sobre gastos, roteiro de luz e bilhetes de pré-estreia. Há o texto datilografado incompleto de Ópera do Nordeste, tragédia musical com canções de Vinicius e Baden Powell. E ainda Os Três Amores, de 1927, uma imitação de A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas, com uma observação: “Foi feito com a idade de 14 anos. Peço, pois, ao leitor ser bondoso comigo.”

No que diz respeito à poesia, todos os livros de Vinicius de Moraes estão disponíveis para leitura, assim como manuscritos, versões datilografadas, provas tipográficas, emendas, correções e textos com mais de uma versão. Alguns trazem uma apresentação com detalhes de cada publicação, com destaque para O Caminho para a Distância (primeiro livro publicado, em 1933), Poemas, Sonetos e Baladas (com 47 poemas, entre eles Soneto de Fidelidade e Soneto de Separação) e Roteiro Lírico e Sentimental da Cidade do Rio de Janeiro (obra inacabada que é uma declaração de amor ao Rio e foi publicada postumamente). Há os originais de Obra Poética com todos os poemas que compõem a Arca de Noé, sendo possível consultar as versões manuscritas de A Casa, O Pato e O Leão, entre outros.

A maioria dos textos em prosa tem origem na imprensa carioca dos anos 1940 e 1950. Vinicius escrevia crônicas, críticas de cinema e textos sobre música popular em jornais e revistas. Muitos destes textos foram reunidos em dois livros de crônicas cujos originais, além dos diários sobre as obras, estarão disponíveis: Para Viver um Grande Amor (1962) e Para uma Menina com uma Flor (1966).

Em Documentos Diversos, há folhetos, cadernos de anotações, cartões de visita, convites e documentos importantes para o estabelecimento da história do cinema no Brasil. Há um dossiê sobre a criação do Instituto Nacional do Cinema, além de relatórios sobre os festivais internacionais de cinema e atas das reuniões do Primeiro Festival Internacional de Cinema no Brasil.

Podcast e mini-doc

Criados para o projeto, o podcast Caderno de Leituras Vinicius de Moraes e o mini-doc Acervo Digital Vinicius de Moraes estarão disponíveis no site: http://acervo.viniciusdemoraes.com.br.

Publicado em 2009 pela Companhia das Letras, Caderno de Leituras Vinicius de Moraes convida os leitores a adentrarem na poesia de Vinicius, em textos escritos por Eucanaã Ferraz, Noemi Jaffe, Ana Lucia Souto Mayor e Maria do Carmo Campos. Em sua versão podcast, cada capítulo ganhou um episódio com narração da cantora Mariana de Moraes, neta de Vinicius, e do jornalista e pesquisador Pedro Paulo Malta, que também assina a adaptação e o roteiro. Com músicas de Vinicius de Moraes, a trilha sonora foi criada e montada por Mario Adnet.

Dirigido por Julia Moraes, o mini-doc mostra como são guardados e organizados esses documentos raros, como é feito o processo de digitalização do acervo e a história da criação do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, uma iniciativa do escritor Carlos Drummond de Andrade, na década de 1970. “Nossa ideia era explicar um pouco o que é um arquivo pessoal e a importância de se ter um museu de literatura. Tentamos fazer uma conexão com uma imagem de um homem escrevendo, trabalhando a sua palavra, o seu verbo”, diz a diretora.


Ficha Técnica

Realização: VM Cultural
Diretoras VM Cultural: Georgiana de Moraes e Maria Gurjão de Moraes
Idealização: Julia Moraes
Coordenação Geral: Julia Moraes, Mariza Adnet e Marcus Moraes
Coordenação Técnica: Marcus Moraes
Identidade Visual: Marcus Moraes
Produção Executiva: Mariza Adnet
Gestão Administrativa: VM Cultural
Pesquisa: Daniel Gil
Textos: Miguel Jost
Digitalização: Arquivos Organização e Gestão Documental
Coordenação de Digitalização: César Oliveira
Desenvolvimento de Sistema: Marcos Rogozinski/Satara Sistemas
Cotejo e revisão: Natalia Natalino
Assistente de Design: Victória Sacagami
Assessoria Jurídica: Maria Luiza Fernandes
Assistente de Produção: Maria Inês Adnet
Assistente Administrativo: Alexandre Cinelli
Secretaria: Bruno Rosa e Silva
Captação de Recursos: Flor de Manacá
Assessoria de Imprensa: Paula Catunda e Catharina Rocha

Agradecimentos

Companhia das Letras
Eucanãa Ferraz
Alice Sant'Anna

Podcast Caderno de Leituras Vinicius de Moraes publicado pela Companhia das Letras

Coordenação Textos: Eucanãa Ferraz
Autores: Eucanãa Ferraz, Noemi Jaffe, Ana Lucia Souto Mayor e Maria do Carmo Campos
Narração: Mariana de Moraes e Pedro Paulo Malta
Adaptação e Roteiro: Pedro Paulo Malta
Trilha Musical: Mario Adnet
Gravado e mixado por Gabriel Pinheiro nos estúdios da Biscoito Fino
Assistente: Lucas Ariel

Referência: https://plataforma9.com/investigacao/acervo-digital-vinicius-de-moraes

Joana D’Arc, a Santa que foi destaque na Guerra dos Cem Anos

Soldado, guerreira, acusada de bruxaria, heresia, tudo isso faz parte da história de Joana D’Arc, entre verdades, mentiras e acusações

Joana D’Arc é um nome conhecido por quem gostava de História na escola. Mas o que muita gente talvez não saiba é que, além de guerreira com participação de destaque durante a Guerra dos Cem Anos — travada entre ingleses e franceses entre 1337 e 1453 —, ela é santa da igreja católica, cujo Dia de Santa Joana D'Arc se comemora em 30 de maio.

Joana d’Arc foi uma camponesa francesa que ficou gravada na história do seu país por liderar tropas contra os ingleses durante a Guerra dos Cem Anos (1337-1453). A francesa alegava ter visões e ouvir vozes que falavam para ela ingressar na luta contra os ingleses. Após conquistar importantes vitórias para a França, foi capturada por aliados dos ingleses, levada a julgamento e condenada à morte na fogueira por bruxaria. Foi canonizada no começo do século XX.
Origens

Joana d’Arc nasceu em Domrémy (atual Dorémy-la-Pucelle, na França) em 1412. A data correta do nascimento dela ainda é alvo de polêmica, haja vista a dificuldade de comprovação histórica, mas alguns acreditam que ela nasceu em 6 de janeiro. De toda forma, ela pertencia a uma família de camponeses. Seus pais se chamavam Jacques d’Arc e Isabelle Romée.

O casal de camponeses teve cinco filhos no total. Os quatro irmãos de Joana se chamavam Jacquemin, Jean, Pierre e Catherine. A criação dela foi muito católica, como era tradicional na França do século XV. Enquanto camponesa, começou cedo a trabalhar no cultivo das terras de seus pais.

Contexto histórico

Joana d’Arc nasceu no período em que a França travava uma guerra contra os ingleses pelo controle de terras e pelo trono francês. Essa era a Guerra dos Cem Anos, iniciada em 1337 e finalizada em 1453. Ao longo desse período, vários armistícios foram acordados entre as duas coroas.

O fato que iniciou o conflito foi uma disputa dinástica pelo trono francês. Em 1328, o rei francês Carlos IV faleceu sem deixar herdeiros diretos para ocupar o trono da França. Isso abriu a possibilidade para que outros parentes pudessem assumir o trono, e um deles era Eduardo III, rei da Inglaterra.

O rei da Inglaterra era parente de Carlos IV por ligação materna, mas seu interesse no trono francês não foi apoiado pela nobreza francesa, principalmente porque isso representaria o fim da autonomia francesa. Assim, os nobres da França rejeitaram a pretensão de Eduardo III por meio da Lei Sálica, uma lei que impedia que mulheres e seus descendentes assumissem o trono francês.

Nascimento ignorado

Não há registros históricos da data de nascimento de Joana D’Arc. Sabe-se que ela nasceu na cidade francesa de Domrémy-la-Pucelle. A morte, sim, é precisamente registrada: 30 de maio de 1431, em Rouen, também na França. Que ela existiu, não há dúvidas. "O que se tem é a documentação da morte, já que ela foi uma prisioneira de guerra. 

Ninguém nasce santo. Um santo se constrói. Não faz uma grande diferença se ela existiu ou não. Se há um processo devocional em torno dela, ela existe", pontua Valéria Rocha Torres, doutora em ciências da religião pela PUC-SP, mestre em história pela Unicamp e professora da Unipinhal. A morte é muito mais importante para o santo.

Marcelo Rubens Paiva e Jacqueline Cantore lançam livro sobre seriados

 Obra é um verdadeiro mergulho nos detalhes da confecção das séries que hoje dominam a programação de todos os tipos de canais



Marcelo Rubens Paiva cresceu apaixonado por séries, embora ouça, desde criança, que são verdadeiros enlatados. Jacqueline Cantore se embrenhou tanto nesse meio que acabou por trabalhar em canais como Fox, BBC, Viacom, Globo e A+E. No ano passado, Jacqueline e Marcelo se deram conta, durante o isolamento, que, juntos, combinavam uma experiência que ficaria bem em um guia para aficionados por séries. Assim nasceu Séries. o livro — De onde vieram e como são feitas.

Escrito em formato híbrido que mistura guia com orientações técnicas e curiosidades, o livro é um verdadeiro mergulho nos detalhes da confecção das séries que hoje dominam a programação de todos os tipos de canais. “A gente se conheceu trabalhando e me encantei com a Jacque, porque ela defende coisas que defendo, é uma estudiosa, entende a obra do Robert McKee de quem sou fã, grande teórico do roteiro, e tem bastante experiência no meio”, conta Rubens Paiva. Ele aponta que não havia na literatura brasileira nada semelhante ao que McKee fez em Story, obra emblemática sobre a produção de roteiro para cinema e tevê.

Como Jacqueline costumava dar algumas aulas e guardava anotações para estruturar o ensino, Rubens Paiva decidiu trabalhar sobre esse material. “Ela falou que tinha umas aulas que costumava dar, mas que não tinha tempo ou método para escrever um livro e, como sou profissional do livro, falei vamos fazer juntos um livro que pudesse unir tanto a parte teórica numa linguagem que o leitor leigo também se interessasse quanto as histórias das séries”, explica.

O mercado americano saiu na frente na largada e, por isso, a roteirista aponta que ainda temos muito a aprender com ele. No Brasil, a falta de uma indústria de produção traz problemas como carência de financiamento, pouca qualidade dos roteiros e, nos últimos anos, aniquilamento do pouco que já existia. “É cultural, o americano é um desbravador, um settler, é uma sociedade capitalista, é um negócio. E nós somos um mercado pequeno e ainda muito romântico, que segue um modelo europeu”, explica Jacqueline. “O problema de não existir uma indústria é cultural, mas os roteiros de oito anos para cá melhoraram muito.”

O QUE? Séries. o livro - De onde vieram e como são feitas

AUTORES:  Jacqueline Cantore e Marcelo Rubens Paiva.

EDITORA: Objetiva, 206 páginas

VALOR:  R$ 47,92

 

Fonte: Correio Braziliense