quarta-feira, 8 de julho de 2020

Ingmar Bergman, um existencialista, ateu, contraditório?


A lenda sueca, Ingmar Bergman | Rosebud

Poucos cineastas receberam o rótulo de polêmico e perturbador como Ingmar Bergman, cuja obra tem a fama mundial de ser “deprimente” ou “obscuro”, com filmes que são lembrados pela maior parte dos espectadores como retratos em preto e branco


Nascido em 1918, filho de um pastor luterano e uma dona de casa, Bergman estudou literatura e história da arte na universidade de Estocolmo e começou sua carreira no teatro. Ainda jovem, ele foi contratado pela produtora de cinema estatal da Suécia para trabalhar em roteiros comerciais de filmes que deveriam ser sucesso de público em toda a Escandinávia. Embora em 1953 ele tenha lançado os ousados e enigmáticos Noites de Circo e MonikaDesejo, é apenas em 1957, após seu Sorrisos de uma Noite de Amor ter conquistado a Palma de Ouro em Cannes, que Bergman alcança a verdadeira liberdade criativa.

Os primeiros filmes de sua nova fase enquanto “autor” são talvez as marcas mais claras do que viria a se tornar seu estilo e seus temas: O Sétimo Selo e Morangos Silvestres, reflexões gêmeas a respeito da presença e da ausência de Deus e do poder salvador do amor.

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Mas foi com o filme
Persona, junto com as imagens de Liv Ullman, que a obra de Bergman penetrou o imaginário coletivo e a cultura popular com mais força. Bergman escandalizou com cenas absolutamente inusitadas, principalmente se levarmos em conta que o filme de meados dos anos 60.


Persona (1966)
Persona, de Ingmar Bergman

O filme que foi um ponto de inflexão na carreira de Bergman, mas também na história do cinema. O argumento é simples: a renomada atriz Elisabeth Vogler perdeu a fala como consequência de uma crise nervosa e está confinada em sua casa de campo com uma jovem e ingênua enfermeira chamada Alma. As duas mulheres iniciarão um processo de mútua transferência de personalidades repleto de ecos vampíricos e psicanalíticos.

Tudo no filme é ousadíssimo, das decisões formais até o desenvolvimento da trama. Mas há uma cena que na época deve ter incomodado bastante e que hoje ainda pode levantar uma sobrancelha ou outra. Depois de tomar algumas doses, Alma confessa a Elisabeth que em um verão traiu o namorado fazendo uma orgia ao ar livre com outra garota e dois rapazes e, depois de ter engravidado, abortou. 


A crueza de sua linguagem (palavras como “ejacular” ou “aborto” simplesmente não eram pronunciadas no cinema comercial na época) criava um trauma no espectador, que dessa maneira estabelecia uma empata com o próprio trauma da narradora. É claro que na primeira sequência do filme Bergman já havia inserido um plano subliminar de um pênis em ereção, outra coisa para a qual as pessoas que então pagavam um ingresso de cinema não pornográfico não estavam preparadas.

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