quinta-feira, 11 de junho de 2020

Spike Lee | Nos seus filmes, as vidas dos negros importam


 Da 5 Bloods': Spike Lee divulga novo pôster e pede justiça social

As diversas manifestações da cultura sempre foram meios para críticas de como o racismo esteve presente estruturalmente na sociedade e o norte-americano Spike Lee foi um vanguardista no uso do cinema para denunciar o modo violento com que os negros eram e ainda são tratados

Dizer que a estreia de um filme de Spike Lee é oportuna numa altura em que a América está a ferro e fogo depois da morte do cidadão afro-americano George Floyd às mãos da polícia, de tão óbvio, é quase um abençoado lugar-comum. Com ou sem pandemia e manifestações, quando é que o cinema do realizador de Não Dês Bronca não foi oportuno? Basta lembrar a cena desse mesmo filme em que dois polícias asfixiam com um bastão um homem negro, perante o desespero de quem assiste. É esta a permanente atualidade das suas imagens. Não Dês Bronca - na expressão do título original, Do the Right Thing - apanha o cenário do verão 1988 num bairro de Brooklyn. Vale a pena perguntar: o que é que mudou de lá para cá? 
O novo Da 5 Bloods - Irmãos de Armas, disponível a partir desta sexta-feira na Netflix, é um excelente título sucessor de BlacKkKlansman (2018), esse que contava a história verídica de um detetive negro infiltrado na organização racista Ku Klux Klan, aproveitando aqui o realizador para introduzir registos do então recente episódio violento de Charlottesville. Agora é a vez de os veteranos afro-americanos da Guerra do Vietnam serem honrados, não na grande tela, dada a conjuntura pandémica, mas ainda assim pelo cinema. No sentido da jornada, Da 5 Bloods é uma espécie de Apocalypse Now versão negra, com um nível de delírio mais moderado e menos sangue. Aliás, torna-se evidente tal afinidade (e referência cinéfila inevitável) quando o cineasta usa a Cavalgada das Valquírias, de Wagner, para citar uma das mais famosas sequências da obra-prima de Coppola, enquanto os seus homens negros sobem o rio no regresso ao lugar que lhes deixou golpes na alma... e mais qualquer coisa. 

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Na boa verve de Spike Lee, o filme arranca com uma série de imagens documentais, apontamentos históricos e vozes como as de Muhammad Ali e Malcolm X, em jeito de prólogo. Quando damos por nós já estamos na companhia dos quatro veteranos, Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock Jr.), que se reencontram no Vietnam, décadas depois da guerra, para recuperarem os restos mortais do soldado que representou para eles um líder a meio caminho entre, justamente, Malcolm X e Martin Luther King. Esse quinto irmão de armas, Norman (interpretado pelo super-herói Black Panther, Chadwick Boseman), vive na memória de todos, mas com uma intensidade maior na do personagem de Delroy Lindo, que entre os amigos fica desde logo carimbado como "o negro que votou em Trump". É uma mente atormentada por fantasmas e demónios.

Porém, esta fachada de missão nobre esconde uma sumarenta trama relacionada com a existência de umas barras de ouro, que a certa altura vai despertar sentimentos amargos, ganância, desconfiança mútua e tensões causadas pelo trauma da guerra, em pleno retorno à selva vietnamita. Os maus espíritos surgem entre discussões e campos de minas, num jogo que se torna cada vez mais perigoso... afinal, a irmandade não é um vínculo fácil.

Entre o passado e o presente, Spike Lee gere a ação com uma alternância de formatos de tela que acomodam o olhar a diferentes texturas temporais. E o curioso é que, ao contrário do que Martin Scorsese fez com os seus atores em O Irlandês, o cineasta não usou nenhuma tecnologia para rejuvenescer os quatro veteranos: nos flashbacks, eles surgem ao lado do jovem Norman com as mesmas caras do presente. Uma questão de orçamento? Talvez possamos voltar ao princípio deste texto e refletir sobre a ideia de "o passado é agora" que atravessa a filmografia do realizador nascido em Atlanta. Enfim, talvez faça sentido não maquilhar a pele que contém um ADN coletivo.
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E a verdade é que estava por fazer um verdadeiro filme com a perspectiva afro-americana da Guerra do Vietnam. Da 5 Bloods vem preencher essa lacuna com toda a energia e "musicalidade" política que corre nas veias do cinema de Spike Lee, sempre de punho cerrado e olhos nos olhos do espectador, em incansável tom de protesto. É uma vibração que nasce dos diálogos, ou monólogos, muitas vezes apaixonados e divertidamente pedagógicos, mas também do modo como tal dimensão idealista e discursiva se encontra com a fibra dos dramas reais. A causa do cineasta afro-americano não é um panfleto que acompanha a sua obra, mas algo intrínseco. Por isso, Da 5 Bloods alcança essa coisa magnífica que é criar uma autêntica sintonia radiofônica: entra pelos ouvidos, remexe o pensamento e intensifica a visão. Não por acaso, temos neste filme a radialista Hanói Hannah a falar às tropas americanas no Vietnam, tal como em Não Dês Bronca tínhamos Samuel L. Jackson, Mister Señor Love Daddy, no seu estúdio de rádio a dar banda sonora aos dias da brasa em Brooklyn. Fonte:https://www.dn.pt/edicao

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