sexta-feira, 5 de junho de 2020

Pessoal do Ceará o movimento que encantou o mundo da cultura no Brasil


Movimento O Pessoal do Ceará - Massafeira

No início dos anos 1970, jovens ligados às artes, principalmente à música, e que ansiavam por mudanças na cena cultural, se reuniram em um movimento que ficou conhecido como Pessoal do Ceará

Destacavam-se nomes como Ednardo, Raimundo Fagner, Fausto Nilo, Belchior, Augusto Pontes. Essa junção de tanta gente boa ainda não estava batizada. Um locutor de uma rádio paulistana, porém, os anunciou como Pessoal do Ceará. E foi dessa forma que aquela agitação cultural entrou para a história.

O movimento iniciou-se entre estudantes da Universidade Federal do Ceará, então centro das discussões intelectuais de Fortaleza. Os jovens ouviam de forró a bossa nova, Tropicália e Beatles. Essa mistura de influências começou a resultar em sons nunca ouvidos no lugar. Tudo com letras inspiradas, que reproduziam o anseio por mudanças estéticas.

Um dos marcos foi o lançamento, em 1973, do disco Meu Corpo Minha Embalagem Todo Gasto na Viagem, que recebeu como subtítulo Pessoal do Ceará. Nas vozes de Ednardo, Rodger Rogério e Teti, o disco apresentava uma pequena revolução cultural.

Caldeirão cultural
Pessoal do Ceará
Logo o Pessoal do Ceará se tornou um dos mais importantes movimentos da música da época e os seus componentes pensavam, criavam, recriavam todas as questões que inquietavam o país na época. Entre seus integrantes existiam filósofos, físicos, químicos, arquitetos, músicos, poetas, cantores e atores. 

Segundo o pesquisador Pedro Rogério, "a ideia de criar o "Pessoal do Ceará" partiu de Augusto Pontes, tendo como base os movimentos Tropicália e Clube da Esquina. Desta forma, o "Pessoal do Ceará" encontra-se inserido no contexto sociocultural dos movimentos musicais daquela época, marcado pela atmosfera dos festivais e pelo engajamento político".

Conforme conta Rodger Rogério, cantor e compositor cearense, em 1971 houve o IV Festival Universitário, e o cantor Belchior ganhou o primeiro lugar do festival com a com a música "Hora do Almoço". A vitória do Belchior mostrou ao Brasil, e ao próprio Ceará, que a música cearense concorria com a nacional.

Ainda segundo relata Rodger, anos depois, ele e Belchior, se reencontraram em SP e foram convidados a fazer um programa de entrevistas na TV Cultura, chamado "Proposta", que contava ainda com Ednardo e Téti. Semanalmente, os quatro eram provocados a compor e apresentar durante as gravações canções que estivessem ligadas ao assunto abordado com o entrevistado. Um dos entrevistados do programa foi o produtor musical Walter Silva, que quis produzir um disco com eles. Assim nasceu o LP Pessoal do Ceará – Meu Corpo Minha Embalagem Todo Gasto na Viagem. Belchior e Fagner não entraram no disco porque já tinham projetos solos encaminhados. 

Repressão da ditadura militar
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O “Pessoal do Ceará” não era um conjunto vocal, era um grupo de mensageiros onde cada integrante passava a sua mensagem, da sua forma. Antes de tudo, em meados da década de 60, a repressão da ditadura militar fomentava a turma de artistas que circulavam na Faculdade de Arquitetura e Bar do Anísio, em Fortaleza. A resposta para a pouca liberdade e tempos de tortura foi a arte, a música, a poesia, o teatro, as ramificações onde a alma descreve e liberta do calabouço do sistema que tentava desesperadamente calar os gritos revolucionários que escapavam da censura. O caldeirão multicultural impulsionou do “Pessoal do Ceará”. O mar do Mucuripe, na Beira Mar de Fortaleza, inspirou a safra artística que arrumava espaço em meio a repressão.

As novas vivências em terras fora do Ceará abriram as portas para nome como Belchior, Ednardo, Fagner, Teti, Alba Paiva, Gilmar de Carvalho, Augusto Pontes, Rodger Rogério, Petrúcio Maia, Fausto Nilo, Brandão, Jorge Mello. Amelinha, Guto Benevides, Mino, Sérgio Pinheiro, Antônio Carlos, Wilson Ibiapina, Cirino, Yeda Estergilda, Tânia Araújo, Olga Paiva, Xica e mais 80 artistas que atuavam em várias expressões culturais. O movimento “Pessoal do Ceará” projetou a música e a cultura cult cearense para todo o Brasil.

Um segundo encontro registrado em disco aconteceu em 2002. Produzido por Robertinho do Recife o novo álbum trouxe músicas inéditas com mais três representantes do “Pessoal do Ceará”: Ednardo, Amelinha e o já consagrado Belchior. A sonora continuava a encantar, mas agora sem a pressão das amarras da ditadura.
Referência: https://cearacultural.com.br/ e https://jangada.online/

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