sábado, 20 de junho de 2020

As aventuras narradas pelo Barão de Münchausen, de tão mirabolantes, assemelham-se às histórias de pescador


Barão de Münchhausen – Wikipédia, a enciclopédia livre
Tal barão de fato existiu, serviu ao exército russo e contava causos, que se transformaram em contos populares até ganharem o formato de livro, em 1785, por obra do cientista e bibliotecário alemão Rudolf Erich Raspe


São narrativas mirabolantes. É cadela que dá à luz no meio de uma perseguição, é um cavalo cortado ao meio que permanece vivo, são habitantes de três pernas em uma ilha de queijo… enfim, haja imaginação. O vocabulário é hermético, então sugiro para leitura compartilhada de 6 a 8 anos ou a partir daí para crianças já acostumadas com obras mais complexas.

Karl Friedrich Hieronymus von Münchhausen (1720-1797) foi um nobre e militar alemão que, por ter participado em duas campanhas contra os turcos, ao serviço do exército russo, foi promovido a capitão de cavalaria em 1751. As campanhas só duraram dois anos (1740/41), mas quando Karl se retirou para a sua propriedade em Bodenwerder, em 1760, renderam-lhe muitas histórias contadas a amigos e hóspedes ocasionais. Histórias exageradas, muitas delas inacreditáveis, mas que chegavam a parecer convincentes. 

Inevitável: acabaram por ser publicadas, escritas por outrem mas atribuindo-lhe a autoria. Primeiro na Alemanha, no Vade-Mécum para Alegres Companheiros, em 1781-1783; depois em Inglaterra, em 1785, traduzidas (e acrescentadas, já agora) por um alemão, Rudolf Erich Raspe, um bibliotecário endividado que se serviu da edição para "compor" o seu pecúlio. No ano seguinte, 1786, um outro alemão, Gottfried August Bürger, traduziu o livro de Raspe para o editar em Berlim; e acrescentou-lhe mais umas fantasias a seu gosto. O barão, ainda vivo, enfureceu-se com o epíteto que lhe haviam dado: "O barão das mentiras". Mas era tarde demais. A tal ponto que, em 1951, o médico britânico Richard Asher atribuiu o nome de Münchhausen a uma síndrome que levava os pacientes a mentirem e a criarem fantasias sobre o seu estado de saúde; e a revista alemã Der Spiegel chama Münchhausen-Check à sua secção de "fact-checking", onde se avalia o grau de veracidade, fantasia ou mentira de declarações públicas.

Morto o barão, as suas "histórias" (muitas criadas já por outros) passaram da literatura para o cinema. Em 1911, Méliès foi o primeiro a dedicar-lhe um filme. É uma curta-metragem muda a preto e branco, com 10m31s, intitulada As Alucinações do Barão de Münchhausen (é um dos seus últimos filmes e está no quinto DVD da edição integral e restaurada das obras de Méliès, lançada em 2012 pela editora espanhola Divisa). Depois, foi a vez dos alemães. Em 1941, em pleno Terceiro Reich e no fragor da II Guerra Mundial, os nazis acharam boa ideia ter um filme-espectáculo que mostrasse que podiam rivalizar com Hollywood. Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, encarregou-se de garantir que nada faltaria aos estúdios para cumprirem a tarefa. 


O filme, o quarto a ser filmado a cores na Alemanha, foi uma extravagância chamada apenas Münchhausen e serviu ainda para celebrar os 25 anos dos estúdios UFA. Realizado por Josef von Báky, húngaro, teve como principal estrela (no papel do barão) o galã alemão Hans Albers, casado com Hansi Burg uma actriz... judia. Na febre da "obra", o Reich fingiu ignorar. Mas mais tarde Hansi teve mesmo de fugir do país, vindo a reunir-se ao marido já depois da vitória dos Aliados e reentrando na Alemanha (dizem) vestida com um uniforme britânico. Restaurado, o filme foi editado em DVD pela britânica Eureka em 2003 na versão média: 101 minutos dos 134 originais com cenas recuperadas e juntas à versão corrente de 88min.
As Aventuras do Barão Munchausen - Filme - Cinema10.com.br

Finda a guerra, vieram mais "barões": a Alemanha pôs Werner Jacobs a dirigir Münchhausen em África; na Checoslováquia, em 1961, o realizador checo Karel Zeman estreou Baron Prásil, a sua versão da história (há edição em DVD, legendada em inglês e espanhol); os russos (então soviéticos) fizeram cartoons em 1974/75 e uma grande metragem em 1979, dirigida por Mark Zakharov; e o inglês Terry Gillian, um honorável Monty Python, fez a versão mais arrojada, estreada em 1988 sob o título As Aventuras do Barão Munchausen (nome "britanizado", sem trema nem duplo H). Uma odisseia e quase uma batalha, como se fica a saber pelo extenso documentário incluído na versão em Blu-ray editada em 2008, pelo 20.º aniversário do filme.

Temos, assim, uma história alemã recriada em Inglaterra mas também filmada por franceses, alemães, russos, checos, reeditada em livro em muitos países e línguas e que, no caso do filme de Terry Gillian, envolveu uma produção tumultuosa com choques constantes entre ingleses, italianos (foi filmado na Cinecittà) e um produtor... alemão. Com fantasia, batalhas, diversão e muitas mentiras à mistura, não será Münchhausen a própria Europa?
Fonte: www.publico.pt


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