domingo, 11 de novembro de 2018

“O Outro Lado do Vento” | Um filme de Orson Welles rodado há 40 anos, mas moderno como nunca


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A notícia se tornou um dos acontecimentos do ano no mundo dos cinéfilos, mesmo que a sua rodagem começou no início da década de 70: O Outro Lado do Vento (Netflix), filme póstumo de Orson Welles, expõe os bastidores do cinema num momento dramático da vida de Hollywood

Se o cinema moderno renascesse com Orson Welles? A pergunta pode ser encarada como exercício de absurdo - afinal de contas, o autor de O Mundo a Seus Pés (1941), A Dama de Xangai (1947) ou O Processo (1962) morreu em 1985, contava 70 anos. O certo é que a sua motivação provém de um novo filme de ... Orson Welles: chama-se O Outro Lado do Vento (título original: The Other Side of the Wind) e está a passar, em estreia, na Netflix.

A história da produção, desaparecimento e renascimento de O Outro Lado do Vento parece ser, ela própria, um conto moral sobre as atribulações que podem assombrar a vida dos filmes e respetivos criadores. Assim, é verdade que o filme entra na história com a data de 2018, uma vez que a conclusão da respetiva pós-produção ocorreu há poucos meses; mas não é menos verdade que a sua rodagem começou há mais de quatro décadas.

Na altura, Welles era há muito conhecido e consagrado como um dos pais da modernidade cinematográfica: as histórias do cinema garantem-nos, e com boas razões para isso, que há uma fronteira de linguagens e narrativas a separar o "antes" de O Mundo a Seus Pés e o "depois" de O Mundo a Seus Pés. Seja como for, e apesar do seu prestígio, Welles ia lutando com crescentes dificuldades para montar os seus projetos pessoais. A sua filmografia como ator (em filmes realizados por outros) é disso uma prova esclarecedora: não poucas vezes, foi surgindo no elenco de títulos claramente menores de modo a obter rendimentos para investir nas suas próprias realizações.

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Em termos simples: O Outro Lado do Vento foi sendo rodado ao longo da primeira metade da década de 70, Welles avançou com a montagem, mas nunca conseguiu meios para concluir o filme. Consciente das dificuldades que enfrentava, deixou a tarefa da sua conclusão entregue ao seu amigo, também cineasta, Peter Bogdanovich (n. 1939). Na prática, Bogdanovich foi uma personalidade central na recuperação das bobinas do filme, no seu tratamento laboratorial e, acima de tudo, na mobilização da Netflix para patrocinar a conclusão técnica do filme.

E se a modernidade no cinema fosse essa consciência magoada que nos leva a perguntar se o próprio cinema não estará à beira de desaparecer? Eis uma pergunta mais presente do que nunca: os novos recursos digitais operaram uma vertiginosa transformação dos filmes, desde a produção até à difusão, parecendo anunciar uma outra idade audiovisual que, sejamos realistas, ninguém sabe descrever de modo definitivo. Eis, afinal, a pergunta que Welles enuncia, num misto de ironia e angústia, em O Outro Lado do Vento.

Este é um espelho do que estava a acontecer no arranque da década de 70, em particular no sistema industrial do cinema dos EUA. O fim da organização clássica dos estúdios de Hollywood e a crescente transferência de públicos das salas escuras para o ecrã caseiro de televisão levavam a geração de Welles a interrogar-se sobre o sentido e o futuro do seu próprio trabalho.

O Outro Lado do Vento tem mesmo como figura central um realizador, Jake Hannaford, interpretado por John Huston (outro autor marcante da geração de Welles, falecido em 1987, contava 81 anos). Ele está no centro de uma insólita encruzilhada: por um lado, os meios jornalísticos e críticos mostram-se mais interessados do que nunca em dar conta, por vezes de modo leviano e irresponsável, da evolução do seu trabalho; por outro lado, o seu novo filme (intitulado, justamente, O Outro Lado do Vento), além de se distinguir por um experimentalismo que suscita muitas reticências, corre o risco de não ser concluído...

Não será preciso grande especulação simbólica para identificar as atribulações de Hannaford como uma projeção das dificuldades do próprio Welles naquele momento da sua carreira. Mais do que isso: há uma personagem de um outro cineasta, mais jovem, de seu nome Brooks Otterlake, uma espécie de discípulo relutante de Hannaford, cuja interpretação está entregue a... Peter Bogdanovich.

Através de um sarcasmo recheado de desespero, O Outro Lado do Vento evolui como a história breve (dir-se-ia que tudo acontece durante um dia e uma noite) de uma projeção falhada: Hannaford quer mostrar o seu filme inacabado, mas alguns incidentes técnicos vão obrigando a deslocar os seus convidados de um cenário para outro. Daí o delírio de peripécias a que assistimos, como se aquelas personagens - dos que fazem filmes aos que os comentam, passando pelos simples curiosos fascinados pela aura das estrelas de cinema - fossem já corpos transfigurados em fantasmas de uma civilização das imagens (e dos sons) à beira de ruir.

Estamos perante um exercício de reflexão e autorreflexão que não pode ser dissociado de outros títulos que Welles assinou na mesma época. A saber: F de Fraude (1973), retrato de um falsificador de arte que, com macabro humor, nos questiona sobre o próprio valor do trabalho artístico, e Filming Othello (1978), exercício de ambíguo e, mais uma vez, bem-humorado confessionalismo em que Welles recorda as atribuladas condições de rodagem do seu Otelo (1951), em si mesmo uma história shakespeariana.

Vemos, por isso, O Outro Lado do Vento com o fascínio perturbante de um luto interminável. O ecrã de cinema, seja ele qual for, existe, assim, como lugar de discussão da identidade dos filmes e, por isso mesmo, da nossa condição de espectadores.

Hannaford e os seus acompanhantes movimentam-se como zumbis de um paraíso cinematográfico. Naqueles anos 70 de todas as futilidades, dir-se-ia que Hollywood nunca existiu, sobrevivendo apenas como mitologia minada pela cegueira económica dos produtores, exponenciada pela miséria existencial do meio jornalístico (agora, sustentada por câmaras de filmar empunhadas como pistolas).

Apesar disso - ou melhor, através disso - deparamos ainda com o fulgor sensual do cinema como uma arte perversa: não se trata de reproduzir o mundo à nossa volta, mas de ocupar esse mesmo mundo com a obstinada promessa de uma existência alternativa, se não mais pura, pelo menos mais verdadeira. Há uma maneira muito simples de dizer tudo isso: O Outro Lado do Vento é um dos acontecimentos centrais da vida do cinema neste nosso ano de 2018. Da vida ou da morte.

Fonte: www.dn.pt

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