domingo, 20 de maio de 2018

A Passagem do Noroeste, grande sonho dos marinheiros, pode se tornar viável ainda no século XXI


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Um grande sonho dos marinheiros pode se tornar viável graças aos efeitos do aquecimento global: tornar navegável a Passagem do Noroeste, uma via que liga o oceano Atlântico ao Pacífico, no topo da América do Norte
Essa passagem cercada de mistérios e de medo poderá tornar-se uma via marítima navegável ainda neste século. Isso reduziria em 11 mil quilômetros a rota Europa—Ásia pelo canal do Panamá e em 19 mil quilômetros a viagem contornando o cabo Horn, no caso dos superpetroleiros que não conseguem passar pelo canal devido ao seu tamanho gigantesco.

Já se idealizava essa passagem há mais de 500 anos. As primeiras tentativas de encontrar um caminho marítimo pelo norte foram feitas logo depois que Cristóvão Colombo descobriu a América. Em 1497 o Rei Henrique VII, da Inglaterra, incumbiu John Cabot de encontrar uma rota marítima para o Oriente. Assim como Colombo, Cabot partiu da Europa em direção ao oeste, mas rumou mais para o norte. Quando desembarcou, possivelmente em Terra Nova, na América do Norte, Cabot tinha certeza de que havia chegado à Ásia. Embora mais tarde se entendesse que havia um inteiro Novo Mundo entre a Europa e a Ásia, a ideia de uma passagem norte para o Oriente não foi esquecida. Será que essa nova terra poderia ser circunavegada ao norte?

Barreira congelada
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Teoricamente, encontrar e cruzar a passagem do noroeste talvez tenha parecido algo simples. Mas na prática, as condições inóspitas do Ártico tornavam o empreendimento muito mais difícil do que se poderia imaginar na época. O gelo era o maior obstáculo. “Ele se movia, flutuava e se rompia, permitindo a passagem de navios, depois se fechava, aprisionando ou esmagando navios e tripulações”, escreve James P. Delgado no seu livro Across the Top of the World (Atravessando o Topo do Mundo).

Sir Martin Frobisher, que chefiou a primeira expedição ao norte do continente americano em busca da passagem do noroeste pelo Ártico, se deparou com gelo. Uma frota composta de dois navios e um barco partiu de Londres em 1576. Frobisher também encontrou os inuits, povo nativo do Ártico. Ao avistá-los, achou que eram focas ou peixes, “mas, quando se aproximou, viu que eram homens em pequenos barcos feitos de couro”, conta um livro sobre a viagem de Frobisher. Ao todo, ele fez três viagens ao Ártico, mas nenhuma delas levou ao estabelecimento da passagem do noroeste. Porém Frobisher teve a felicidade de voltar para casa são e salvo de todas as suas expedições ao Ártico. O mesmo não aconteceu com outros exploradores que foram à procura da lendária passagem. Muitos não resistiram ao gelo, ao frio e à falta de alimento fresco no Ártico. Ainda assim, nos anos após as expedições de Frobisher, dezenas de navios e milhares de homens seguiram rumo ao norte, tentando abrir caminho pelo gelo.

Os mistérios que cercam a aventura de Franklin
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No século 19, a Marinha Britânica organizou diversas expedições grandes em busca da passagem do noroeste. Uma delas resultou no maior desastre da história das viagens ao Ártico. Sir John Franklin, experiente explorador do Ártico, foi escolhido para chefiar a expedição. Instalaram-se motores a vapor em dois grandes navios. Os tripulantes eram os homens mais qualificados da marinha, e as embarcações foram abastecidas com provisões para três anos. Além disso, deu-se bastante atenção ao bem-estar emocional da tripulação. Por exemplo, os navios foram equipados com extensas bibliotecas e havia até realejos. Certo oficial que fazia parte da expedição escreveu: “Temos aqui praticamente tudo que vamos precisar. Estou certo de que, se pudesse ir a Londres por uma hora ou duas, não iria querer nada que já não tenhamos aqui.” A expedição partiu da Inglaterra em maio de 1845 e chegou à baía de Baffin em julho.

Passou-se um ano. E mais outro. Por fim se passaram até mesmo os três anos previstos para a pior das hipóteses, mas não se tinha notícias da expedição de Franklin. O desaparecimento misterioso dos dois navios e suas tripulações provocou um súbito aumento das viagens ao Ártico. Dezenas de expedições ajudaram a esclarecer não somente o que teria acontecido com a expedição de Franklin, mas também o mistério da passagem do noroeste.

O capitão Robert McClure foi o comandante de um dos dois navios enviados para ir em busca de Franklin. Partindo de Londres em 1850, os navios se aproximaram da costa norte da América pelo Pacífico, atravessando o estreito de Bering. Determinado, McClure deixou um navio para trás e foi em direção ao oceano Ártico. Logo estava navegando em águas onde nenhum europeu estivera antes. Assumindo muitos riscos, ele finalmente chegou à costa da Ilha Banks. Emocionado, constatou que a ilha era a mesma que Edward Parry avistara anos antes quando procurava a passagem do noroeste a partir do leste. Se conseguisse navegar até o outro lado da ilha, McClure completaria a travessia da passagem do noroeste!

Mas o navio ficou retido no gelo. Dois anos depois, McClure e seus homens ainda estavam presos no gelo. Quando parecia não haver mais esperança, avistaram no horizonte homens vindo em direção ao navio. Parecia um milagre. Henry Kellett, capitão de outra expedição, havia encontrado uma mensagem deixada por McClure na ilha Melville e conseguiu enviar resgate. Os homens de McClure, que a essa altura estavam semimortos, foram levados ao navio de Kellet, no qual voltaram para casa pela rota leste. Kellett havia alcançado a costa norte da América pelo Atlântico! McClure “foi assim o primeiro a atravessar a passagem do noroeste, muito embora tenha coberto o trajeto em mais de um navio e parcialmente a pé”, diz The New Encyclopedia Britannica.

Mas o que aconteceu com a expedição de Franklin? Há diversas pistas sobre os eventos que ocorreram após 1845. Os dois navios da expedição ficaram presos no gelo, no estreito de Victoria. Quando já fazia um ano e meio que estavam retidos, vários homens, incluindo o próprio Franklin, estavam mortos. Os demais decidiram abandonar os navios e caminhar em direção ao sul, mas estavam fracos e morreram no caminho. Ninguém da tripulação sobreviveu. Ainda há muita especulação sobre o que realmente aconteceu. Sugeriu-se até que o envenenamento por chumbo, causado pelo consumo de enlatados, tenha sido responsável pela morte rápida dos homens.

Primeira tentativa bem-sucedida
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Embora a existência da passagem do noroeste já tivesse sido comprovada, a travessia por essa via marítima só se tornou realidade no século 20. O jovem Roald Amundsen chefiou o grupo de sete noruegueses que fizeram a viagem. Eles usaram um pequeno barco de pesca chamado Gjøa, totalmente diferente dos imponentes navios de guerra britânicos. A pequena embarcação de calado raso revelou ser o meio de transporte ideal no oceano Ártico, com suas muitas passagens estreitas, rochas e bancos de areia. Em 16 de junho de 1903, Amundsen e sua tripulação começaram a longa viagem a partir de Oslo rumo ao Ártico (no extremo norte da América no Norte) seguindo a rota leste. Mais de dois anos depois, em 27 de agosto de 1905, a tripulação a bordo do Gjøa avistou um baleeiro que tinha vindo do oceano Ártico pela rota oeste, passando pelo estreito de Bering. Amundsen escreveu a respeito desse encontro: “Conseguimos atravessar a passagem do noroeste. Meu sonho de infância tornou-se realidade nesse momento . . . Não pude conter as lágrimas.”

Contudo, até hoje não foi possível iniciar um tráfego regular pela passagem. Desde a época de Amundsen, diversos navios já navegaram pela parte setentrional da América do Norte, mas essa viagem ainda apresenta muitas dificuldades. No entanto, é possível que as coisas logo mudem.

Ajuda do aquecimento global?
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O gelo do Ártico está derretendo com surpreendente rapidez. Por causa disso, no ano 2000, um navio da polícia canadense conseguiu atravessar a passagem do noroeste em cerca de um mês. Quando o jornal The New York Times entrevistou o capitão, o sargento Ken Burton, após a viagem, ele estava preocupado pelo fato de não terem encontrado dificuldades com o gelo. “Havia alguns icebergs, mas nada preocupante. Vimos algumas faixas de banquisas de gelo compostas de várias camadas. Mas como eram pequenas e fragmentadas, pudemos contorná-las”, declarou Burton. De acordo com a revista Science, “o gelo ártico encolheu 5% nos últimos 20 anos, sua espessura diminuiu, e as projeções climáticas preveem que o encolhimento continuará ao passo que a temperatura global for se elevando”. Segundo o relatório da Comissão Americana de Pesquisa do Ártico, citado no artigo, em questão de uma década a passagem do noroeste “poderá ser aberta a embarcações sem reforço para navegação no gelo, por pelo menos um mês durante o verão”.

Ironicamente, “pelo simples fato de as pessoas ficarem em casa e queimarem bilhões de toneladas de combustíveis fósseis”, diz a revista Science, o sonho que um dia exigiu tanto sacrifício poderá tornar-se realidade. Ainda assim, os pesquisadores estão preocupados com os efeitos que o derretimento do gelo e o tráfego regular de navios poderão ter sobre os ursos-polares, as morsas e os habitantes nativos no Ártico. Além disso, a navegabilidade da passagem do noroeste poderá levar a conflitos políticos. O que mais acontecerá com a possível abertura da passagem do noroeste? Só o tempo dirá.

Referência: wol.jw.org/pt/

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