Construção - Reforma - Manutenção

Construção - Reforma - Manutenção
Clientes encantados é a nossa meta!

sábado, 28 de abril de 2018

Jessier Quirino e Bráulio Bessa: viva o talento e a cultura do Nordeste!


Resultado de imagem para jessier quirino e braulio bessa

Um é Arquiteto, o outro Analistas de Sistemas, mas duas mentes brilhantes que vivem e respiram a verdadeira cultura Nordestina, preservando valores, crenças e costumes daquela região do país

Particularmente, considero Jessier Quirino como integrante da tríade dos maiores poetas paraibanos, ao lado do imortal Ariano Suassuna e do “poeta do necrotério, Augusto dos Anjos. Como ele mesmo autodefine-se, é arquiteto por profissão, poeta por vocação, matuto por convicção.

A inspiração do nome veio da folhinha no ano de 1954, na cidade de Campina Grande PB, mas declara-se filho adotivo de Itabaiana também na Paraíba, terra que adotou como domicílio desde 1983. O bacharelado em Arquitetura não o afastou da cultura popular e ele navega com rara desenvoltura no âmbito sinuoso dos matutos.

Palavras do poeta: “Mesmo não parecendo, sou desses cabras tímidos. Na infância vivia escondido feito segredo de abelha e era desconfiado feito doido em cemitério. A poesia me deixou um pouco mais solto, mas ainda hoje sou caseiro e reservado ou como diz o matuto: amoitado, feito carneiro que tomou bicho na capação.”

“Admirações e querenças tenho aos montes. Malquerença nenhuma. Não cultivo essas “lixas doze” que tornam a vida áspera e tediosa.”

“Sempre fui de recitar, de colocar inflexão e força no ato declamatório; sempre fui de formar pequenas plateias feito vendedor de casca de pau. Trabalhar isso e com humor era uma arma para me impor diante dos colegas superando assim minha timidez. A plateia foi aumentando e hoje encaro público numeroso feito político ladrão.”


As suas impagáveis obras são de uma habilidade rara em extrair momentos do universo “matuto”, falando a sua linguagem e respeitando os seus valores e crenças. 


Imagem relacionada

Essas são as principais poesias do Jessier e, logo depois a letra da mais popular delas, “Paisagem do Interior”:

1. Paisagem de Interior

2. Nada Faz Mais Zoada Que Três Mulher e Um Pato

3. Comício em Beco Estreito

4. Matuto Doente Das Partes

5. Vou-me Embora pro Passado

6. O CUSCUZ DO DIA-A-DIA

7. Virgulino Lampião, Deputado Federá

8. Voltando Pro Nordeste

9. Pobrema Cardíuco

10. Linda não, aquelas tuia

11. Zé Qualquer e Chica Boa

12. Bolero de Isabel

13. Agruras da Lata D'água

14. Um Sonhador Imaginando

15. A Morte do Matador

16. Parafuso de cabo de serrote

17. Uma paixão pra Santinha

18. Sou Fã do Bilhetismo do Amor

19. Maria Pano de Chão

20. Quatro Ave-Maria Bem Cheia de Graça



Paisagem de Interior

Jessier Quirino

Matuto no meio da pista

Menino chorando nu

Rolo de fumo e beiju

Colchão de palha listrado

Um par de bêbo agarrado

Preto véo rezador

Jumento, jipe e trator

Lençol voando estendido

Isso é cagado e cuspido

Paisagem de interior


Três moleque fedorento

Morcegando um caminhão

Chapéu de couro, gibão

Bodega com sortimento

Poeira no pé do vento

Tabuleiro de cocada

Banguela dando risada

Das prosa dum cantador

Buchuda sentindo dor

Com o filho quase parido

Isso é cagado e cuspido

Paisagem de interior


Bêbo lascano a canela

Escorregando na fruta

Num batente, uma matuta

Areando uma panela

Cachorro numa cadela

Se livrando das pedrada

Ciscador, corda e enxada

Na mão do agricultor

No jardim, um beija-flor

Num pé de planta florido

Isso é cagado e cuspido

Paisagem de interior


Mastruz e erva cidreira

Debaixo de jatobá

Menino quereno olhar

As calça da lavadeira

Um chiado de porteira

Um fole de oito baixo

Pitomba boa no cacho

Um canário cantador

Caminhão de eleitor

Com os voto tudo vendido

Isso é cagado e cuspido

Paisagem de interior


Um motorista cangueiro

E um jipe chêi de batata

Um balai de alpercata

Porca gorda no chiqueiro

Um camelô trambiqueiro

Aveloz, lagartixa

Bode véio de barbicha

Bisaco de caçador

Um vaqueiro aboiador

Um bodegueiro adormecido

Isso é cagado e cuspido

Paisagem de interior


Meninas na cirandinha

Um pula corda e um toca

Varredeira na fofoca

Uma saca de farinha

Cacarejo da galinha

Novena no mês de maio

Vira-lata e papagaio

Carroça de amolador

Fachada de toda cor

Um bruguelim desnutrido

Isso é cagado e cuspido

Paisagem de interior


Uma jumenta viçando

Jumento correndo atrás

Um candeeiro de gás

Véi na cadeira bufando

Rádio de pilha tocando

Um choriço, um manguzá

Um galho de trapiá

Carregado de fulô

Fogareiro, abanador

Um matador destemido

Isso é cagado e cuspido

Paisagem de interior


Um soldador de panela

Debaixo da gameleira

Sovaqueira, balinheira

Uma maleta amarela

Rapariga na janela

Casa de taipa e latada

Nuvilha dando mijada

Na calçada do doutor

Toalha no aquarador

Um terreiro bem varrido

isso é cagado e cuspido

paisagem de interior


Um forró pé de serra

Fogueira, milho e balão

Um tum-tum-tum de pilão

Um cabritinho que berra

Uma manteiga da terra

Zoada no mei da feira

Facada na gafieira

Matuto respeitador

Padre prefeito e doutor

Os home mais entendido

Isso é cagado e cuspido

Paisagem de interior
                                                                             -o-o-o-o-o-o-o-o-

Uma versão cearense do Jessier Quirino
Resultado de imagem para jessier quirino e braulio bessa

No mesmo estilo do poeta paraibano, o cearense de Alto Santo, Bráulio Bessa e ainda adolescente apaixonou-se pela poesia de seu conterrâneo Patativa do Assaré (1909-2002), a partir de uma trabalho escolar de pesquisa sobre o grande poeta de cordel e autor de ícones do cancioneiro nordestino, a exemplo da célebre “Triste Partida”, imortalizada na voz de Gonzagão.

Bráulio Bessa, “o neto de Dedé sapateiro”, como é conhecido em sua cidade natal, entrou em contato com a poesia de Patativa e se tornou um “fazedor de poesias”, como ele mesmo se define.

Desde 2012, Bráulio criou o blog “Nação Nordestina”, que logo conquistou milhares de seguidores. Com a força do projeto e o objetivo de divulgar a literatura de cordel, o poeta reuniu sua paixão pela cultura popular, pela poesia matuta de cordel e a internet, e em sua cidade natal, através do celular gravou um vídeo onde faz um protesto contra as drogas e postou na internet. O vídeo fez grande sucesso chegando ao ambiente da televisão e Bráulio passou a se apresentar em programas de entrevistas, onde declamava e contava suas histórias.

A partir do convite para apresentar-se no programa matutino ‘Encontro’, sua carreira foi catapultada e ele se apresenta todas as sextas na citada atração televisiva com o quadro intitulado “Poesia com Rapadura”. E foi na última sexta-feira, 27.04, que ele, tendo como fundo musical acordes forrozeiros de uma Orquestra Sanfônica, declamou uma poesia onde exalta o coração nordestino e com uma temática muito semelhante ao “Paisagem do Interior”, de Jessier Quirino. A letra, que tem personagens e flagrantes na mesma linha de inspiração, ainda não está disponível na net, mas a apresentação pode ser conferida no link

http://redeglobo.globo.com/videos/t/tudo-da-globo/v/encontro-com-fatima-bernardes-programa-de-sexta-feira-27042018-na-integra/6694621/

Dois poetas, duas cabeças pensantes a serviço da cultura e dos valores nordestinos. Só nos resta comemorar e aplaudir!

Euriques Carneiro

Um comentário:

  1. Infelizmente no Brasil existe uma inversão de valores que não prioriza os verdadeiros artistas nordestinos. Dificilmente esses artistas conseguem se apresentar para grandes platéias ou programas culturais de grande repercussão. Um dos maiores artistas brasileiros o Daudeth Bandeira, poeta, músico e declamador é um exemplo. Existe no Nordeste uma nação de grandes mestres que ainda não decolaram. Ainda bem que esses gênios não jogam a toalha e permitem que a cultura nordestina esteja sempre viva.
    -Timbaúba

    ResponderExcluir

Seu comentário será publicado após análise.
Obrigado!