quarta-feira, 12 de abril de 2017

Paul Claudel: “A juventude não vive para o prazer, mas para o heroísmo”


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Diplomata francês no Brasil, Paul Claudel foi um ateu que se converteu ao catolicismo, chegou a pensar na vida monástica junto aos monges beneditinos, mas sua vocação como leigo o levou ao corpo diplomático francês

Paul Claudel é o nome artístico de Louis Charles Athanaïse Cécile Cerveaux Prosper, diplomata, dramaturgo e poeta francês nascido em 1868 e falecido em 1955.

Membro da Academia Francesa de Letras, ele é hoje reconhecido como um importante escritor católico – mas nem sempre praticou a fé.

Paul Claudel se considerou ateu até os 18 anos de idade, apesar da forte herança familiar católica de sua mãe, Louise. No Natal de 1886, porém, o jovem se converteu quase subitamente ao catolicismo ao ouvir o coro da catedral de Notre-Dame de Paris. Ele se emocionou ao testemunhar a fé das pessoas que oravam a um Deus que ele não queria conhecer: foi a partir desse instante que Paul intuiu que era possível contar com a ajuda do poder e do amor de Deus Criador.

Como estamos entrando na Semana Santa, apresentamos abaixo a Via Sacra sob o prisma de Paulo Claudel, com tradução de D. Marcos Barbosa.

Uma Semana Santa de paz, harmonia e meditação a todos que nos acompanham aqui no Arte Cultural.

Euriques Carneiro

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Via Sacra de Paul Claudel

Tradução de D. Marcos Barbosa, OSB


Primeira Estação: Jesus é condenado à morte
Pronto. Nós julgamos a Deus e o condenamos à morte.

Não queremos mais Jesus Cristo conosco porque ele nos incomoda demais.

Não temos outro rei senão César, outra lei senão a do mais forte!

Crucificai-o, se quereis, mas desembaraçai-nos dele depressa!

Pilatos está sentado no tribunal: TolleTolle!

Que nos importa que Barrabás seja solto? Mas a este,

é preciso que se imole!



“Não tens nada a dizer?”, diz Pilatos.

E Jesus não responde.

– “Eu não encontro mal nenhum nesse homem. Mas como?

Quereis mesmo que morra? Eu vo-lo entrego: Ecce homo!”



Ei-lo, coroa na cabeça, púrpura nos ombros.



Uma última vez, cheio de pranto e de sangue, o seu olhar nos procura.

Que podemos fazer? Não há jeito de conservá-lo conosco mais tempo!

Como era um escândalo para os judeus, é para nós uma loucura.

A sentença já foi aliás lavrada,

em grego, hebraico e latim. Nada mais falta, irmãos!

E vemos a multidão gritando, enquanto o juiz lava as mãos.


Segunda Estação: Jesus com a cruz às costas

Entregam-lhe de novo as roupas, e a cruz lhe é apresentada.

“Salve (exclama ele), ó Cruz, há tanto tempo desejada!”

E tu, cristão, contempla e estremece!

Ah! Que instante solene esse

Em que o Cristo aceita pela primeira vez a cruz de sempre!

Ó consumação, nesse dia, da árvore do Paraíso!

Olha, pecador, o teu pecado. Vê o que foi preciso.

Não há mais crime sem um Deus em cima,

não há mais uma cruz sem o Cristo!

A desgraça do homem é sem dúvida grande. Mas que importância tem isto?

Deus está agora em cima, e não veio explicar, mas sofrer.

Jesus recebe a sua Cruz como nós a eucaristia:

“Nós lhe damos madeira em vez de pão”, dissera o profeta Jeremias.

Ah, como a cruz é longa, como ela é enorme e difícil!

Como é dura, como é rígida! Como é pesado o peso do pecador!

Como é custoso levá-la, passo a passo, até morrer-lhe em cima.

E sois vós que ides levar tudo isso sozinho, ó meu doce Senhor?

Tornai paciente para com a sua cruz aquele que a toma e vos segue.

Pois é preciso carregarmos a cruz antes que a cruz nos carregue.


Terceira Estação: Jesus cai pela primeira vez

Para o Calvário, vítima e carrascos ao mesmo tempo. Atenção!

O Deus, que puxam pelo pescoço, de repente vacila e cai no chão.

Que dizeis vós, Senhor, dessa primeira queda?

Agora que a conheceis, que pensais vós desse minuto

Em que se tomba, e no qual o fardo, mal carregado, nos esmaga?

Como achais essa terra que fizestes e que agora vos traga?

Ah! Não é somente o caminho do bem que é penoso.

O do mal é mais pérfido ainda, é mais vertiginoso!

Não se pode ir andando simplesmente,

mas é preciso aprender a lição de cada pedra que fere.

E o pé resvala muitas vezes, ainda que o coração persevere.

Ó Senhor, por esses joelhos sagrados,

esses dois joelhos que de repente vos faltaram,

Pelo ar que vos faltou de súbito no começo da estrada,

Pela cilada em que caístes, pela terra de que sentistes a dureza,

Salvai-nos da primeira queda, em que se cai por surpresa!


Quarta Estação: Jesus encontra-se com sua Mãe

Lembrai-vos, ó mães, do primeiro e único filho que vistes morrer um dia,

E da noite, a última, passada ao lado do pequeno ser que gemia.

O termômetro, o gelo, a água que lhe tentávamos dar,

E a morte que chega pouco a pouco e não se pode mais ocultar…

Calçai-lhe os pobres sapatinhos, mudai-lhe a faixa e a roupinha.

Alguém vem buscá-lo para a terra, ao meu encontro caminha.

Adeus, meu querido filho, ó carne da carne minha!



A quarta estação é Maria, que aceitou tudo isto.

No canto da rua ela espera (ei-lo que chega!) a passagem do Cristo.

Seus olhos não têm mais pranto, a boca não tem mais saliva.

Não diz uma palavra sequer, cala e contempla, – a grande contemplativa.

Aceita. Aceita ainda uma vez. O grito

É severamente reprimido no coração forte e estrito.

Não diz uma palavra sequer, mas considera o Senhor:

A Mãe contempla o seu Filho; a Igreja, seu Redentor.

Sua alma voa violentamente para ele como o grito do soldado que morre.

Permanece de pé diante de Deus, dá-lhe sua alma a ler:

Não há nada ali que se recuse, nada que procure esconder.

Nenhuma fibra do coração traspassado que não seja aceitação e amargura.

E já que Deus está ali presente, como não estaria a criatura?

Ela aceita e considera o Filho que concebeu no seu seio,

E que não ousa mais dizer-lhe

como outrora: “Mulher, a minha hora ainda não veio”.


Quinta Estação: Simão Cireneu ajuda Jesus a carregar a cruz


Chega o momento em que não se pode

mais ir adiante, não se pode mais caminhar.

É aí que vamos ser encaixados no drama, onde ides deixar

Que nos empreguem, mesmo à força, no transporte sagrado,

Tal Simão Cireneu, de repente, ao madeiro atrelado.

Ele agarra solidamente a trave e caminha atrás de Jesus,

Para que nada arraste no chão, nada se perca da Cruz.

Sexta Estação: Verônica enxuga o rosto de Jesus

Todos os discípulos fugiram. Pedro o negou. Mas no mais forte,

No mais espesso do insulto, no centro mesmo da morte,

A mulher avança, toma o rosto de Jesus

entre as mãos e o enxuga no seu pano.

Ensina-nos, ó Verônica, a vencer o respeito humano,

Porque aquele para quem Jesus Cristo

não é apenas uma face pintada,

mas uma face verdadeira,

Torna-se logo suspeito e desagradável, para a humanidade inteira.

Seu plano de vida é outro, seu motivo é diferente:

Há sempre nele algo que escapa, alguma coisa de ausente.

Um homem feito que reza o terço e vai tranqüilamente à confissão,

Que é visto na missa entre as mulheres e jamais esquece a oração,

Isso faz rir, isso choca, isso é engraçado.

Mas também irritante.

Tome cuidado com o que faz: o mundo está vigilante.

Tome cuidado com o que faz: é para todos um sinal.

Pois cada cristão é imagem do seu Cristo, indigna mas real.

E a face que ele mostra é um reflexo vacilante

Dessa face de Deus no seu peito, abominável e triunfante!

Deixa-nos, Verônica, contemplar ainda uma vez

A face do vinhateiro no dia da embriaguez,

Que tu foste colher, da turba entre os esbarros,

Feita do seu sangue, do seu pranto, e dos nossos escarros!

Sétima Estação: Jesus cai pela segunda vez

Não é mais a pedra sob o pé. Nem parece

Que seja a corda bruscamente puxada.

É a alma que de repente desfalece.

Ó meio de nossa vida! Ó queda em que caímos sem surpresa,

Quando o ímã já não tem pólo e a fé não tem mais firmeza!

A estrada é longa demais, muito distante o termo,

Ninguém que nos console nesse terrível ermo!

Ó lentidão do tempo! Desgosto que cresce, invencível,

Por esse companheiro de pau atado a nós por um decreto inflexível!

Por isso é que a gente abre os dois braços ao mesmo tempo, como alguém que nadasse:

Não é mais sobre os joelhos que se tomba,

mas sobre a própria face.

É o corpo que cai, sem dúvida, mas a alma já havia consentido.

Salvai-nos da segunda queda, o pecado voluntário,

só pelo tédio cometido.


Oitava Estação: Jesus consola as filhas de Jerusalém

Antes de subir uma última vez a montanha,

Jesus levanta o dedo e se volta para a multidão que o acompanha,

Algumas mulheres em pranto, com seus filhinhos no seio.

Mas não fiquemos apenas olhando, escutemos Jesus, que está no meio.

Não é apenas o homem que levanta o dedo no centro da pobre gravura:

É o Deus que para nossa salvação não sofreu somente em pintura.

Será possível que esse homem seja o Deus Todo-Poderoso?

Terá mesmo Deus sofrido por nós esse sofrimento horroroso?

Qual não terá sido, então,

o perigo de que fomos resgatados por tal preço?

Será a salvação do homem um negócio simples e banal,

Quando, para realizá-la, deve o Filho

arrancar-se ao seio do Pai celestial?

Se o Paraíso é assim tratado, como não será tratado o inferno?

Que se fará com o lenho seco, se assim se faz com o eterno?


Nona Estação: Jesus cai pela terceira vez

“Ainda uma vez caí, mas, dessa vez, é o fim.

Mesmo que eu quisesse levantar-me,

não estaria mais em mim.

Porque espremeram-me como as uvas,

e o homem que tenho nas costas é pesado demais.

Pequei, e o homem morto, que eu carrego, pesa muito!

Morramos, pois, porque é mais fácil estar de bruços que de pé.

Mais fácil morrer que viver, e debaixo da cruz que em cima dela.”

Salvai-nos do terceiro pecado, o desespero,

o pecado contra a esperança!

Nada está perdido ainda enquanto resta a morte a beber!

Já estou farto dessa cruz, mas falta-me ainda a lança!

Jesus cai uma terceira vez, mas já no cimo do Calvário.


Décima Estação: Jesus é despido das vestes

Eis a eira em que o grão de trigo celeste é debulhado.

O Pai está nu, o véu do Tabernáculo foi arrancado.

Puseram a mão em Deus, a Carne da Carne vibra,

O Universo, em sua fonte atingido, freme, fibra por fibra.

Quanto a nós, já que lhe tomaram a túnica sem costura,

Ergamos os olhos e ousemos contemplar essa nudez tão pura!

Arrancaram-vos tudo, Senhor, não vos deixaram nada!

Como se arranca ao monge a cogula, o véu à virgem consagrada,

Arrancaram-vos, a vós, essa veste, à vossa carne colada.

Ele não tem mais defesa, ei-lo nu como um verme:

A todos foi entregue, descoberto e inerme.

O quê? Esse é o vosso Jesus? Vejam só que figura!

É um caso de polícia, é um caso de loucura.

Tauri pingues obsederunt me. Libera me, Domine, de ore canis.

Ele não é o Cristo. Não é o Filho do Homem. Não é Deus.

Seu Evangelho é mentiroso, seu Pai não está nos céus.

É um louco, um impostor. Que ele fale! Mas não assim, ora veja…

O criado de Anás o esbofeteia, enquanto Renan o beija.

Tomaram-vos tudo, Senhor. Mas resta o sangue derramado.

Tomaram-vos tudo, tudo. Mas resta a chaga do lado.

Deus está escondido. Eis o homem, o homem das dores agora.

O que eu tenho diante de mim é o meu irmão que chora!

Por vossa humilhação, Senhor, por vossa vergonha divina,

Tende piedade dos vencidos, do fraco que o forte elimina!

Pelo horror dessa última veste que vos é, com a carne, arrancada,

Tende piedade, Senhor, da multidão dilacerada!

Da criança três vezes operada que deixa o médico pensativo,

Do pobre ferido a quem renovam cada manhã o curativo,

Do esposo humilhado, do filho que vê morrer a mãe sem poder dar um jeito,

E desse terrível, impossível amor, que é preciso arrancar do peito!


Décima Primeira Estação: Jesus é pregado à cruz

Deus não está mais conosco. Está no chão.

A turba o agarra pela garganta como a um cão.

Não sois o Deus-conosco, o Verbo carne feito?

Eis o joelho que se dobra, mas sobre o vosso peito…

A mão que o carrasco torce é a mão do Onipotente.

Amarram o Cordeiro pelos pés, fixam na cruz o Onipresente.

Marcam-lhe a giz na madeira o comprimento e a largura.

Quando provar dos nossos cravos, iremos ver-lhe a figura!

Filho do Eterno, cujo único limite é vossa própria Infinidade,

Eis o lugar que desejastes entre nós, – um pouco estreito, é verdade!

Eis Elias que se deita sobre o morto em toda a sua extensão,

Eis o trono de Davi, a glória de Salomão.

Eis o leito do nosso amor convosco, duro e estranho:

Como é difícil para um Deus fazer-se do nosso tamanho!

O corpo, esticado na madeira como a tela,

Ou o odre cheio demais, se rompe e se revela.

Eis a palavra de Davi no vosso lábio, ei-la nos nossos:

“Furaram minhas mãos e meus pés.

Contaram todos os meus ossos”.

Estais preso, Senhor, não podeis mais escapar.

Estais pregado na cruz, a cruz pregada no altar.

Não tenho nada mais a procurar no céu com os hereges – ó cegos!

Basta-me esse Deus que pende de quatro pregos.


Décima Segunda Estação: Jesus morre na cruz

Ele sofria ainda há pouco, é verdade, mas vai morrer nesse instante.

A grande cruz oscila na noite ao sopro do Deus arquejante.

Tudo está ali. Basta deixar agir o Instrumento,

Que da junção da dupla natureza,

Da fonte do corpo, da alma e da hipóstase faz correr

Toda a possibilidade de sofrer.

Como Adão no Paraíso antes da criação da mulher, está sozinho.

Por três horas está só, e saboreia o Vinho,

A ignorância invencível do homem, e aquele amor de louco…

Está entorpecido o nosso hóspede, sua fronte se inclina pouco a pouco.

Não enxerga mais a Mãe, o Pai parece abandoná-lo.

Saboreia o cálice da morte sem pausa e sem intervalo.

Não lhe basta o vinagre misturado à água; vede:

Ele se ergue de repente, firmando-se nos pés, e grita: “Tenho sede!”

Tendes sede, Senhor? E é a mim que lançais esse brado?

Precisareis, acaso, que eu cometa mais um pecado?

Serei eu que te falto ainda, antes que tudo seja consumado?


Décima Terceira Estação: Jesus é descido da cruz


Aqui termina a Paixão, mas a Compaixão prossegue.

O Cristo não está mais na cruz, à sua Mãe foi entregue:

Ela o aceita consumado como o aceitara prometido.

No seio materno o que sofreu aos olhos de todos está de novo escondido.

A Igreja, entre os seus braços, toma posse para sempre do seu amado.

O que é de Deus, o que é da Mãe e aquilo que o homem fez,

Coloca tudo sob o seu manto, para sempre, de uma só vez.

Ela o recebe, ela o vê, ela o toca; ela reza, ela chora, ela admira;

Ela é o sudário e o ungüento; a sepultura e a mirra.

Ela é o padre e o altar; o cálice e o cenáculo.

Termina aqui a cruz. Começa o Tabernáculo.


Décima Quarta Estação: Jesus é colocado no sepulcro


O sepulcro onde o Cristo que morreu tendo sofrido é colocado,

O buraco, para que ele durma a sua noite, às pressas destapado,

Não é apenas esse túmulo novo que José de Arimatéia ofereceu:

Esse sepulcro é minha carne e meu corpo; esse sepulcro sou eu!

Esse sepulcro é o homem, vossa criatura, mais profundo que a terra!

Agora que tendes as mãos furadas e o coração aberto,

Não há mais cruz em nós em que o vosso corpo não dê certo,

Não há mais pecado em nós sem chaga que corresponda!

Vinde, pois, do altar em que estais escondido, até nós, ó Salvador do mundo!

Como é aberta a vossa criatura, como o seu coração é profundo!

                                             
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