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terça-feira, 7 de março de 2017

Longa 'Aquarius' é premiado no Festival de Cinema de Cartagena


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Continuando a sua bela trajetória internacional, "Aquarius", filme de Kleber Mendonça Filho, bateu outros filmes consagrados como "Elle" e "Eu Não Sou Seu Negro" e venceu o prêmio da competição internacional do Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias, na Colômbia, na última segunda-feira (6)


O festival é o mais antigo do gênero na América Latina, e outorga as estatuetas chamadas "Indias Catalinas". Segundo Mendonça Filho, "Aquarius" estreia na Colômbia na próxima semana.

Tem uma frase corriqueira entre nós: "o Brasil é um país sem memória". Esse legado de décadas de incompetência administrativa na manutenção de documentos e construções, vem se perpetuando por séculos. Com a velocidade dos dias atuais e o avanço da tecnologia, pode-se dizer que tal conceito ficou ainda mais amplo com a inevitável transferência de CDs, DVD e outros objetos em matéria digital. Consciente desta época em que o novo é glorificado e o velho deixado de lado por muitos, o diretor Kleber Mendonça Filho fez deste o mote principal de seu novo filme: Aquarius, selecionado para a mostra competitiva do Festival de Cannes.
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O confronto entre o velho e o novo surge na figura de Clara, personagem entregue a Sonia Braga. É ela a dona de um apartamento cobiçado por uma imobiliária, que já adquiriu todos os demais imóveis do prédio. O objetivo é pôr tudo abaixo e construir um prédio novo, mas Clara se recusa a vendê-lo. É seu lar há décadas, foi onde criou seus filhos e, ainda hoje, vive bem. Daí surge o conflito, que resulta em ameaças veladas e provocações.

Mais do que simplesmente criar opostos, Aquarius quer tratar do valor da memória através da compreensão do que é antigo, sem que seja necessário descartar o novo. Tal imagem está representada na própria protagonista, escolhida a dedo. Estrela maior do cinema brasileiro nos anos 1980, Sonia Braga andava meio sumida. Seu resgate é não apenas uma imensa homenagem a tudo que fez pelo cinema nacional como também uma quebra de expectativa em relação ao que representou como símbolo sexual, potencializando o próprio conceito explorado pelo longa-metragem. Só que Sonia não se contenta apenas com este simbolismo automático e entrega uma das maiores atuações de sua carreira, fruto de uma complexidade emocional e ética impressionantes.

O público tem a chance de conhecer Clara ainda nos anos 1980, no flashback que abre o filme. A partir de suas origens, é construída a personalidade desta mulher independente e decidida, apaixonada por música e liberal, afetuosa e que mantém o desejo carnal em dia. Entretanto, é através das relações que Clara mantém com os demais personagens que se entende melhor o carinho e o respeito com os quais trata e exige ser tratada. Porque ela não é mulher de engolir desaforo, muito pelo contrário, e deixa isto bem nítido. Trata-se de uma personagem fascinante que, além de possibilitar a explosão do talento de Sonia, ganha relevância ainda maior por ser um papel feminino tão intenso, de alguém que não depende da ajuda de homens para seguir em frente.

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