terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Em "A língua absolvida", o ganhador do prêmio Nobel (1981) mostra todo o seu mix de surpreendente cultura


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Definido pelo seu biógrafo como "O autor do século 20 que mais refletiu", a proximidade do centenário de Elias Canetti é um ótimo momento para se rever a obra daquele que via o alemão como "idioma da ternura" e que usava a própria biografia como instrumento de reflexão

Segundo seu biógrafo Sven Hanuschek, Elias Canetti se voltava com veemência contra "todo tipo de especialização". Uma postura compreensível, considerando que, apenas em seus primeiros 16 anos de vida, Canetti falou quatro idiomas e teve contato com mais seis línguas e universos culturais. Para depois se transformar num escritor cuja obra dificilmente se enquadra em gêneros. Elias Canetti ensaísta? Não apenas. Também dramaturgo, uma espécie incomum de sociólogo ou etnólogo, etc, etc.

Ladino, inglês, alemão, búlgaro
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Seu nome não é associado num primeiro momento à Alemanha, embora ele tenha optado pelo idioma alemão para escrever – a língua "da ternura" entre seus pais e que se tornaria seu principal instrumento de expressão. Canetti, na verdade, passou no país pouco de seu longo tempo de vida (morreu em 1994).

Nascido na Bulgária há exatos cem anos (a 25/07/1905), em Ruse, um porto localizado às margens do Danúbio, aprendeu na infância o ladino de seus pais, uma variante do espanhol falada pelos judeus sefarditas da Península Ibérica, que haviam chegado à Bulgária depois de passar pela Turquia.

Aos seis anos de idade, sua família se mudou para Manchester, onde Canetti entrou em contato com o inglês. Um ano depois, com a morte do pai, sua mãe seguiu com os filhos para Viena. Em 1916, mudaram mais uma vez, indo para a Suíça.

De lá, Canetti foi para Berlim, onde concluiu a escola. Em 1924, começou a estudar Química na Universidade de Viena, onde finalizou seu doutorado. Da Áustria saiu apenas 14 anos mais tarde, em 1938, com a tomada do país pelos nazistas.

Biografia como espelho de uma época
Via Paris Canetti seguiu para Londres, que seria, ao lado de Zurique, um de seus "portos" no decorrer de uma biografia fragmentada não incomum para a época. Talvez seja exatamente em função de tantos deslocamentos de culturas e perspectivas que a autobiografia de Canetti, publicada em três volumes (A Língua Absolvida; Uma Luz no meu Ouvido; O Jogo de Olhos), seja um dos pontos mais interessantes de sua obra. Uma obra composta por mil páginas publicadas e um volume dez vezes maior armazenado em seu espólio. E que vem sendo aberto, por determinação do próprio, com o passar dos anos.

Diante de tamanha terra ainda incógnita na obra canettiana, não são poucos os jornais de língua alemã que podem se dar ao luxo de publicar textos inéditos do escritor por ocasião de seu centenário. Como o semanário Die Zeit, que tem em sua última edição quatro contos dos chamados Estenogramas, escritos entre 1933 e 1942.

Ou o diário Frankfurter Rundschau, que foi buscar no espólio do irmão Georg uma carta inédita, na qual o iniciante Elias lamenta, em outubro de 1935, "o desprezo silencioso por um homem que se diz escritor, mas não é publicado", numa referência direta ao comportamento da família, inclusive da mãe, durante uma de suas visitas à França, onde viviam.

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