sábado, 10 de dezembro de 2016

Kirk Douglas chega ao centenário celebrando a vida e a arte que ele defende do alto dos seus 70 anos de carreira


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Comemorar o próprio centenário é uma dádiva reservada a poucos e quando se chega aos cem anos lúcido e celebrando a vida, a bênção divina é ainda mais marcante. É exatamente assim que sente o ator Kirk Douglas, tido por todos como um ótimo ser humano

Com interpretações marcantes, ele Foi Van Gogh e Patton no grande ecrã, deu vida a Ulisses e a Spartacus, mas nuca ganhou um Oscar, embora tenha conquistado o respeito de Hollywood por praticar as suas convicções e de não abrir mão dos seus valores.

Há dez anos, fazendo passar um sinal exterior de atividade e lucidez, Kirk Douglas utilizou a internet para uma mensagem especial. Onde podia ler-se isto: "O 90.º aniversário é especial. No meu caso particular, é um milagre. Eu sobrevivi à II Guerra Mundial, à queda de um helicóptero, a uma trombose e a dois joelhos novos. Desta vez decidi fazer um brinde ao mundo. Sejamos claros: o mundo está um caos (...) e aqueles que o vão herdar terão de enfrentar muitos problemas: a pobreza abjeta, o aquecimento global, os genocídios, a sida e os bombistas suicidas, para citar apenas alguns. Tudo isto existe, mas o mundo mantém-se silencioso. Nós fizemos muito pouco para resolver estas questões. Agora passamo-los adiante e vocês, os mais novos, vão ser obrigados a tratar do assunto porque a situação é intolerável. Têm de se revoltar, dizer em voz alta o que pensam, escrever, votar e tomar conta das pessoas e do mundo em que vão viver".

Não se sabe se o ator - cuja "boa forma" foi há dias confirmada pelo filho mais velho, o também ator e produtor Michael Douglas - vai insistir nos recados. Se o fizer, o teor das recomendações não poderá ser essencialmente diferente - poderá, quando muito, acrescentar o problema Trump, com que talvez Kirk, um democrata de sempre, talvez não contasse. É um dos efeitos secundários ligados à espantosa longevidade deste filho de um casal de russos, Jacob e Bryna, chegado aos Estados Unidos em 1912, que soube "mudar" o nome de Issur Danielovich para Kirk Douglas, à custa de trabalho e talento: ele já viu de tudo e nunca se calou. Em 2013, ainda fazia apelo público para a necessidade de mais controle das armas nos EUA.

Sete décadas de carreira
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A carreira começou há precisamente 70 anos (1946), quando depois de uma insistência da sua amiga Lauren Bacall, o homem que serviu na Marinha norte-americana na II Guerra Mundial, se estreou no filme O Estranho Amor de Martha Ivers. Conhecido pelo seu feitio difícil, pouco predisposto a concessões (basta referir o que se passou antes das filmagens do primeiro Rambo, em que a personagem de Stallone devia, de acordo com o livro, morrer às suas mãos, e Douglas se afastou quando os produtores se decidiram pela sobrevivência do "herói" para poderem prolongar a saga), Kirk Douglas participou em 73 longas-metragens, a que se soma dúzia e meia de colaborações na TV, em séries ou filmes.

Sem Oscar mas com medalha
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Indicado por três vezes na corrida ao Oscar de melhor ator - por O Grande Ídolo, Cativos do Mal e A Vida Apaixonante de Van Gogh, filmes lançados entre 1949 e 1956 -, Douglas reconheceria que os seus piores momentos na gestão do percurso terão coincidido com as recusas dos papéis entregues a William Holden em Inferno na Terra e a Lee Marvin em A Mulher Felina, ambos passaportes para a desejada estatueta atribuída pela Academia. 

Não deixou, ainda assim, de receber algumas recompensas, com destaque para a Presidential Medal of Freedom (a mais alta distinção norte-americana para um civil), que lhe foi atribuída pelo presidente Jimmy Carter. Há uma outra "distinção" de que muito se orgulha: a da sua contribuição para furar a "lista negra" que a "caça às bruxas" do senador McCarthy estendeu sobre Hollywood. Na verdade, não só Douglas fez finca-pé na presença do proscrito Donald Trumbo entre os roteiristas de Spartacus, o épico que ditou a incompatibilidade irresolúvel entre Kirk e Kubrick, como exigiu que o principal autor do elenco aparecesse na ficha com o nome verdadeiro.

Em 2013: apelo ao controle das armas nos EUA

Kirk Douglas andou "fardado" grande parte do tempo que passou nos cenários de filmagem: fosse com as vestimentas de um cowboy (como as de Duelo de Fogo, em que vestiu a pele de Doc Holiday, ou as de O Último Comboio de Gun Hill) ou com o uniforme de outras guerras (casos de Horizontes de Glória, A Primeira Vitória ou Paris já Está a Arder?, entre muitos outros). Mesmo sem as pistolas ou as metralhadoras, parecia indisponível para parar de lutar, assumindo por norma personagens maquiavélicas ou, no mínimo, perturbadas. Quem vê não esquece o seu olhar feroz e a sua voz cortante. Resultado de imagem para centenário de kirk douglas

O ator é casado pela segunda vez, e o segundo matrimonio dura há 63 anos e meio. Tem quatro filhos, que nunca desamparou. A Michael, o mais velho, ajudou imensamente, com destaque para a oferta dos direitos de Voando sobre Um Ninho de Cucos, peça que o próprio Kirk representou na Broadway, em 1963. Esse presente permitiu a Michael Douglas começar o seu trajeto de produtor com cinco Oscares na bagagem. Retenha-se esta ideia do decano dos Douglas: "Eu tive uma enorme vantagem sobre os meus filhos - nasci no meio da pobreza total." Talvez tenha razão, o velho patriarca, duro nas salas de cinema, convicto na vida.

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