terça-feira, 8 de novembro de 2016

Tradução para o inglês à altura do clássico de Guimarães Rosa consegue patrocínio da Itaú Cultural

Resultado de imagem para grande sertão veredas - tradução para o ingles
A australiana Alison Entrekin se incumbiu, ela mesma, de conseguir um financiador para um trabalho estimado para durar cinco anos – 12 vezes mais do que um romance “comum”


Ela já havia traduzido para o inglês, entre outros livros, “Cidade de Deus” (“City of God”), de Paulo Lins; “Perto do coração selvagem” (“Near to the Wild Heart”), de Clarice Lispector; e Budapeste (“Budapest”), de Chico Buarque. Foi quando apareceu para Alison Entrekin um convite a uma empreitada desafiadora: construir a nova versão de “Grande Sertão: Veredas” para o inglês.

Obra basilar da literatura nacional, o clássico de Guimarães Rosa nunca foi popularizado fora do Brasil. Em boa parte, isso se deve ao problema da única tradução existente em inglês: batizada de “The Devil to Pay in the Backlands”, ela data de 1963 e é bastante contestada. Harriet de Onís, americana nascida em Illinois e respeitada por seu trabalho com a literatura espanhola — e pessoa que acabou se tornando íntima de Guimarães Rosa, depois de introduzi-lo no mercado americano —, se incumbiu primeiramente do trabalho, mas desistiu, alegando que, caso prosseguisse, não faria outra coisa da vida. Faz sentido. A odisseia, então, foi concluída por James L. Taylor, mas nunca teve uma segunda tiragem. Taylor era considerado um excelente lexicógrafo (“cujo nome me olha, em ouro, da lombada do meu dicionário favorito”, escreve a própria Alison), mas não conseguiu “captar a mensagem” do dialeto criado pelo autor. Por suas mãos, a versão inglesa de “Grande Sertão” se tornou uma espécie de romance de faroeste. Jamais um livro ruim, mas bem aquém de seu verdadeiro potencial e riqueza ímpar.

A australiana aceitou o desafio. “Eu tirei três semanas para o livro, deixando de lado o romance em que eu estava trabalhando. Traduzi três páginas”. “Sim, “páginas”, não capítulos”. É o que ela conta no artigo “When in Hell, Embrace the Devil: On Recreating ‘Grande Sertão: Veredas’ in English” (fazendo o ofício da autora, ainda que de maneira precária, algo como “Se Você Está no Inferno, Abrace o Capeta: Recriando ‘Grande Sertão: Veredas’ em Inglês”), publicado em versão online na revista eletrônica “Words Without Borders”. “Quando fui abordada a respeito de traduzir um certo clássico literário brasileiro reconhecido por seu linguajar característico e me perguntaram se eu estaria disposta a produzir uma pequena amostra dele, meu primeiro pensamento foi: ‘isso é possível? ’ Então, eu disse que sim, como se faz quando atolada em prazos, mas confrontada com um desafio irresistível.”

Trabalho árduo
Resultado de imagem para grande sertão veredas - tradução para o ingles

Como era de se esperar e ela mesma relata, não está sendo fácil. Alison conta que o normal de um dia de trabalho produtivo no ofício de tradutor é conseguir avançar algo em torno de 2 mil palavras. O que ela própria conseguiu com a obra de Guimarães foram 860 palavras… em três semanas. “Isso é uma página por semana, 57 palavras por dia, ou 7 palavras por hora, se você trabalhar a rotina diária de oito horas”. Mas ela mesma conclui: “Mas quando você está em um ‘cozido’ desses, por que se preocupar com números?”

Acabou escolhida pela Wylie, considerada a agência literária mais importante do planeta, e Eduardo Tess — que detém os direitos sobre o romance —, a nomeou tradutora oficial da nova edição em inglês. No processo de seleção, ela enviou um trecho traduzido que foi vistoriado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e pela Universidade de Princeton, em Nova Jersey (EUA).

Um livro convencional com o mesmo porte da obra de Rosa-entre 600 e 700 páginas —, ocuparia um tradutor por seis meses. Alison prevê que precisará de cinco anos para concluir seu trabalho. Isso pode até não parecer, por conta da nobreza da tarefa, mas é um entrave. É que o interesse comercial existe, mas com pagamento do serviço com valor convencional, como se fosse por um romance comum. Ou seja, “business is business”, valor imaterial à parte. É como querer pagar apenas pela função do objeto — exagerando em outra seara, seria como comprar um capacete usado por Ayrton Senna pagando o preço de mercado por um equipamento de segunda mão. Então, além de se ocupar diretamente de seu ofício, Alison estava buscando financiamento e encontrou o apoio necessário da Itaú Cultural, que lhe dará uma chance para que o trabalho seja viabilizado sem depender da Lei Rouanet, tão atacada ultimamente.

Fonte: Jornal Opção

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário será publicado após análise.
Obrigado!