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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

80 anos depois, está disponível a edição crítica de 'Raízes do Brasil'



Raízes do Brasil é uma das obras fundadoras das ciências sociais entre nós. No método de análise e estilo da escrita, na sensibilidade para a escolha dos temas e erudição exposta de forma concisa, revela-se o historiador da cultura e ensaísta crítico com talentos de grande escritor

Esta edição, que comemora os oitenta anos de publicação da obra, traz uma verdadeira arqueologia de sua produção. Por meio de notas e variáveis, mostra que, entre a primeira e a última edição que Sérgio Buarque acompanhou, alterações importantes foram feitas, rumo à construção de um livro muito mais radical. Posfácios de nove especialistas trazem leituras originais deste que é, nas palavras de Antonio Candido, um clássico de nascença .

Um verdadeiro best seller das ciências sociais no Brasil, os professores Lilia Moritz Schwarcz e Pedro Meira Monteiro, monta e organizaram a edição crítica do clássico Raízes do Brasil, que o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) publicou em 1936.

Na abertura, uma observação a respeito do autor: a obra, hoje clássica, foi para ele um ato de autodescoberta sem trégua, o que explica as várias revisões desde a primeira edição, pela José Olympio.

"Se os autores mudam, também os livros podem se alterar" - inclusive os clássicos, argumentam os responsáveis pela edição que comemora os 80 anos desse estudo incontornável. Só na Companhia as Letras, ele vendeu 250 mil exemplares. A edição crítica será lançada no dia 8, na Livraria Cultura.

Opinião de estudantes de História

· Sérgio Buarque de Holanda ainda é atual? Raízes do Brasil pode ser usado para se entender o Brasil de hoje? Vejam as opiniões de quatro alunos do curso de graduação em História para saber o que eles acham de uma das principais obras da antropologia brasileira.

André Luis Campos Salles, 35 anos, considera deturpada a apropriação do conceito de “homem cordial” para explicar as relações pessoais na política nacional.

– Certa vez assisti a uma palestra em que uma professora fazia uso de Raízes do Brasil para falar da corrupção no governo do país. Mas o próprio Sérgio Buarque de Holanda restringia o conceito de “homem cordial” a determinados grupos sociais. Não vale a pena usar essa idéia para explicar o brasileiro em geral. No conceito de cordialidade, você suspende as leis para abrir espaço para uma negociata mais particular. Mas dizer que o brasileiro põe as leis em segundo plano é um equívoco.

Esta não é a opinião de Natália Peixoto, 23 anos. Ela conta que, uma vez, seu carro foi arranhado em um acidente de trânsito e o motorista culpado fugiu. Para dar queixa, ela precisaria de duas testemunhas que não conhecesse. O policial encarregado disse que por dez reais ele transformaria o namorado dela – que estava no carro – em uma testemunha anônima. Ela não aceitou.

– Mas grande parte da população não faria o mesmo. O brasileiro reclama da corrupção na política, mas, diante de conflitos privados, acaba fazendo uso de pequenos subornos.


Maria Aparecida dos Santos, 21 anos, diz que Raízes do Brasil é mais que atual, “pois fala da fronteira tênue que existe entre o público e o privado no país”.

– Não quero dizer que o Brasil dos anos 1930 seja igual ao Brasil de hoje, mas a idéia do livro ainda persiste. Já ouvimos falar de deputados que usam o carro oficial para levar o cachorro ao veterinário, ou de juízes que, ao cometerem uma infração no trânsito, dão uma “carteirada”, fazendo uso do título para escapar ilesos. É o famoso “você sabe com quem está falando?”, frase tipicamente brasileira. Nossas relações sociais são muito porosas.

Patrícia Costa Gregório, 32 anos, discorda e não vê o Brasil como um país tão maleável.

– O Sérgio Buarque dizia que a colonização espanhola foi mais racional que a portuguesa. Mas eu não acho que nossa expansão territorial tenha sido feita tão “ao Deus dará”. Na ocupação da Amazônia, por exemplo, houve um forte planejamento do marquês de Pombal, que também tinha projetos claros de defesa. Acho que Raízes do Brasil nos ajuda a entender o início da formação da nossa sociedade, mas explica principalmente o período da colonização. Não serve para explicar a atualidade. Mergulhar no livro para encontrar o Brasil de hoje é exagerado.

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