sábado, 16 de julho de 2016

Público e bolsistas ficam em êxtase com o Quarteto francês Diotima interpretando Schoenberg



Tendo como característica a controvérsia, Schönberg foi uma figura criticada pelos conservadores por abandonar o sistema tonal, e igualmente criticado pelos vanguardistas (em particular por Boulez) por não ter levado o dodecafonismo até às últimas consequências

A inclusão do quarteto de cordas opus 7, o primeiro de Arnold Schoenberg, no concerto de quinta, 14, do quarteto francês Diotima, na Sala São Paulo, dentro do Festival de Inverno, foi importante para dois públicos: os bolsistas, que viram uma performance soberba dessa obra difícil para os intérpretes e que marca uma virada da narrativa na música do século 20, quando ela ainda usa ferramentas tradicionais, mas já aponta para novas formas na música do futuro. E o público, que conheceu uma obra revolucionária que soa palatável aos ouvidos acostumados às músicas tonais.

Tudo isso seria impossível não fossem a competência e o talento do Diotima, cujos integrantes são apaixonados pela música do século 20 e já a gravaram extensivamente. Escrito em 1904, o quarteto rompe com a narrativa tradicional, diagnóstico dado por seu aluno Alban Berg no artigo de 1924 Por que a música de Schoenberg é tão difícil de compreender?

Até aquele momento, Schoenberg tinha lidado com música de programa, como no sexteto de cordas Morte Transfigurada, de 1899, baseado num poema com cheiro de telenovela (casal passeia e ela diz que está grávida, ele começa a comemorar, mas ela diz que é de outro; passam a noite inteira brigando até a conciliação final no alvorecer, ele admitindo assumir o filho). Cinco anos depois, no quarteto, ele esboçou um programa em 19 linhas: aspirações e dúvidas iniciais; o elã, o amor, a decepção. A dor, a formação do sonho e o retorno à serenidade.

Austríaco naturalizado americano
O compositor austríaco Arnold Schönberg (naturalizado cidadão americano em 1941), foi uma das figuras mais importantes e influentes da música do século XX. Foi o criador e grande impulsionador do dodecafonismo – técnica de escrita musical em que nenhum dos 12 sons da escala cromática tem maior importância do que os outros, e onde as noções de tônica e dominante, por exemplo, deixam de fazer sentido. 
Schönberg encarou esta nova organização sonora como uma consequência inevitável da desagregação do sistema tonal, já iniciada por Liszt (últimas peças) mas sobretudo por Wagner, e que conduziu ao que ele designou a “emancipação da dissonância”. Curiosamente, o termo atonal usado para descrever a música dodecafónica não agradava a Schönberg, preferindo a designação pantonal.

O controverso Schönberg personifica bem a figura do artista inovador e revolucionário. Em diversas situações ao longo da história da arte, inovar e romper com um sistema ou situação estabelecida, pressupôs um conhecimento sólido e profundo nessa área específica. De outro modo, não se estaria a romper com nada. Schönberg tinha um grande conhecimento prático e teórico da música e da sua evolução, tendo afirmado: “sou um conservador que foi forçado a tornar-se revolucionário”.

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