segunda-feira, 25 de julho de 2016

Mostrando um inegável senso de espetáculo, chegas às telonas “A Lenda de Tarzan”



Na nova versão, Tarzan, o personagem de Edgar Rice Burroughs estaria completamente adaptado à vida em Londres, retornando ao Congo a pedido da Rainha Vitória para investigar uma série de problemas na colônia

A Lenda de Tarzan não mente ao espectador. Os fãs do icônico personagem encontrarão tudo que se espera da história: balanços entre as árvores da floresta, o potente grito vindo da selva, a paixão por Jane, um vilão perverso que despreza a natureza; momentos de perigo e redenção, discursos sobre o humanismo e sobre a ecologia. Para uma grande produção, o filme também não frustra expectativas: o orçamento de US$180 milhões está devidamente estampado na tela com muitos efeitos visuais e cenas de aventura.

Entretanto, o resultado não satisfaz totalmente. Se por um lado a linguagem cinematográfica está atualizada ao século XXI, por outro lado, a visão de mundo parece datar da época de publicação da obra de Burroughs. Ou seja, nesta época de imagens velozes e culto ao espetáculo, o filme empenha-se em criar reviravoltas frenéticas, mesmo quando não servem muito à narrativa, enquanto o diretor David Yates recorre às câmeras lentas para, supostamente, prolongar o efeito do conflito. Isso faz sentido num filme contemporâneo, mas esteticamente falando, não cria nenhuma cena particularmente memorável: o conjunto traz o mínimo que se espera de um projeto desta proporção.

Filão dos Super Heróis

Tarzan (Alexander Skarsgard) não se torna um protagonista cativante porque o espectador não presencia sua ascensão. Quando conhecemos o “filho das selvas”, ele já possui uma fama que atravessa continentes e se comunica com animais selvagens apenas pelo olhar. Ora, sem ver a progressão dessas habilidades, o espectador não pode compartilhar o mérito do personagem, nem a admiração dos outros por ele. Fala-se o tempo inteiro sobre Tarzan, sobre sua história e suas façanhas, mas elas permanecem distantes da imagem. Por isso, o ator pode até se esforçar na linguagem corporal animalesca, mas o homem Tarzan não tem a menor chance de competir com o mito Tarzan.

A estrutura da trama bebe na fonte dos lucrativos filmes de super-herói. O Tarzan de 2016 é mais forte que todos os outros, sendo capaz de lutar de igual para igual com gorilas, pular de centenas de metros de altura, correr mais rápido que os bichos, além de ser dotado de uma inteligência sobre-humana e de um apetite sexual adequado à virilidade exacerbada. O homem da selva não faria feio entre os Vingadores, ou na Liga da Justiça. Os demais personagens cumprem papéis mais ou menos previsíveis: Christoph Waltz faz pela enésima vez o vilão perverso e carismático, Samuel L. Jackson funciona bem como alívio cômico, e Margot Robbie se esforça para trazer determinação a Jane.

Os efeitos especiais ostensivos cumprem seu papel em momentos de contemplação, mas parecem artificiais quando a correria toma conta da história - vide a cena do trem e a corrida nos cipós. Ao contrário de Mogli - O Menino Lobo, ou de Planeta dos Macacos - O Confronto, A Lenda de Tarzan não consegue integrar a natureza digital aos personagens humanos sem um efeito de estranhamento. Por querer se exibir demais, a tecnologia acaba chamando atenção para si mesma, soando artificial.

Por isso mesmo, A Lenda de Tarzan é uma produção datada, mas não ineficaz. Ela demonstra um inegável senso de espetáculo, e deve agradar uma parcela considerável do público que estiver em busca de sensações ao invés de reflexão - um tipo de experiência que também possui sua validade, afinal. Mas o conteúdo ganharia maior relevância, cinematográfica e política, se pensasse o mundo com olhos mais progressistas.

Fonte: Adoro Cinema

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