quarta-feira, 6 de julho de 2016

Aclamado por cineastas do porte de Martin Scorsese, Akira Kurosawa e Jean-Luc Godard, Kiarostami foi o expoente máximo do cinema iraniano

O cinema iraniano está de luto com a passagem de Abbas Kiarostami, mas muito graças ao seu talento, o país já é uma grandeza cinematográfica de porte mundial, tendo posto garantido em grandes festivais, como Cannes

Em vida, Abbas Kiarostami foi aclamado por colegas do porte de Martin Scorsese, Akira Kurosawa e Jean-Luc Godard. Este último teria declarado: "O cinema nasceu com Griffith e termina com Kiarostami."

A crer nas palavras do diretor francês, então, a genealogia da sétima arte, iniciada com os filmes mudos do americano D.W. Griffith (1875-1948), teria se encerrado definitivamente nesta segunda-feira (04/07), na clínica de Paris em que o cineasta iraniano nascido em 1940 sucumbiu a um câncer gastrointestinal diagnosticado em março último.

Por outro lado, a avalanche de homenagens prestadas a ele também evidencia a importância crescente do cinema de autor iraniano na cena mundial – apesar das restrições impostas aos cineastas que, como Kiarostami, optaram por permanecer no país em seguida à Revolução Islâmica de 1979. No Irã, o cinema continua vivo.

Falando à imprensa durante o último Festival Internacional de Cannes, em maio, o iraniano definira assim o panorama cinematográfico de seu país: "De um lado, há o cinema estatal, financiado pelas autoridades, [...] e aí há o setor independente, que está florescendo."

Para confirmar essas palavras, na mesma competição seu compatriota Asghar Farhadi obteve dois prêmios – ocorrência rara em Cannes –, de melhor roteiro e melhor ator, com Forushande (O vendedor). Jim Jarmusch, ícone do cinema independente americano, que na ocasião competia com Paterson, definiu o Irã como "um dos jardins do cinema em nosso planeta".

Dos primeiros curtas a Cannes


Assim como outros artistas iranianos, em 1979 a primeira intenção de Kiarostami, também atuante como poeta, foi se colocar a salvo do regime dos aiatolás, buscando exílio no exterior. No entanto, acabou decidindo permanecer em seu país, onde, segundo suas próprias palavras, via melhores chances de se desenvolver artisticamente. Nos últimos anos, também residia na França.

Tomando impulso no movimento cinematográfico iraniano denominado Nova Onda, ele começara a carreira aos 30 anos, com um curta-metragem. Já em 1974 atraía as atenções da crítica internacional com o longa premiado O passageiro, sobre um garoto que mente e rouba para juntar o dinheiro necessário a financiar uma viagem de ônibus, a fim de assistir a uma partida de seu time de futebol favorito.

Após dezenas de outras produções, incluindo documentários, a arrancada definitiva chegou em 1997, com a Palma de Ouro em Cannes para Gosto de cereja. O roteiro – também da autoria de Kiarostami, como praticamente todas as suas produções – enfoca um caminhoneiro na desesperada busca por quem se disponha a discretamente enterrá-lo numa cova já preparada sob uma cerejeira nos montes, depois que ele cometesse suicídio.

Apenas poucos dias antes de sua morte, Kiarostami recebera mais uma distinção, ao ser convidado para integrar a Academia de Cinema de Hollywood, juntamente com centenas de outros cineastas. Com essa iniciativa, a instituição procura reagir às recentes acusações de falta de diversidade na seleção para o Oscar.

Referência: DW

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