quarta-feira, 8 de junho de 2016

Uma das maiores tradições de Santo Amaro BA, o Bembé do Mercado é um Patrimônio Imaterial da Bahia



O Bembé do Mercado é uma manifestação cultural e religiosa que acontece desde o final do século XIX, quando um grupo de negros reuniu-se em praça pública para comemorar a Abolição da Escravatura em 13 de maio de 1888, no município de Santo Amaro da Purificação, na Bahia

Conhecida como Bembé do Mercado, Festa de Preto ou Candomblé da Liberdade, desde 1889, o Bembé vem sendo realizado, com a participação de vários terreiros de

candomblé em praça pública e tem seu ápice com a entrega de presente à Mãe d’Água.

Recôncavo baiano
O Bembé do Mercado é uma manifestação religiosa que comemora o 13 de maio. Ao tomarem conhecimento da Abolição da Escravatura, os escravos daquela região comemoraram junto à população negra já liberta e simpatizantes a liberdade dos escravos.

Segundo a história oral contada pelos santamarenses e reafirmada pelos participantes do evento, que no dia 13 de maio de 1889, um africano de origem Malê conhecido por João Obá, saiu às ruas juntamente com seus filhos de santo para comemorar a Abolição. Neste ano foi armado no Largo do Xaréu um grande caramanchão, coberto com palha e por três dias foi realizado um grande candomblé que culminou com a entrega de um presente à mãe d’água.


O CANDOMBLÉ DA LIBERDADE
(Por Ubiratan Castro de Araújo)
"13/05/2003 - 'O Bembé do Mercado, em Santo Amaro, tem grande significado para a afirmação da cidadania negra no Brasil. Eliminados quaisquer traços de subserviência agradecida à princesa pela Abolição, emerge a evidência histórica da luta popular contra o cativeiro e da força da cultura afro-brasileira como propulsora da resistência do povo negro no Brasil.'Aos 14 de maio de 1888 começava uma nova luta para o povo negro de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo canavieiro da Bahia.
 Os ex-senhores de escravos, inconformados com a lei da abolição, proclamavam aos quatro ventos que nada havia mudado e pressionavam suas lideranças parlamentares para que a dita lei fosse revogada. Para mostrar que não estavam brincando, mobilizaram o aparelho policial da cidade para tolher os movimentos da população negra, de modo reter uma força de trabalho disponível para o trabalho, em regime de cativeiro. E assim teria sido sem a resistência negra para fazer valer a liberdade. O movimento social pela abolição foi reativado para tirar da cadeia os que foram encarcerados a pedido dos ex-senhores, e para assegurar o direito de ir e vir de todos os “treze de maio”, como eram pejorativamente chamados os libertos pela lei da abolição. Deles se dizia em verso popular:

Nasceu periquito,
Morreu papagaio,
Não quero conversa
Com “treze de maio”.
 


Passado um ano de luta contra a repressão e contra a discriminação, os negros de Santo Amaro resolveram festejar em praça pública o primeiro aniversário da lei da abolição. Os barões ameaçaram e a polícia proibiu o ajuntamento de negros. Apesar de tudo e de todos, no dia 13 de maio de 1889, milhares de pessoas afluíram ao Mercado de Santo Amaro. Não se viu nenhuma parada cívica, não se ouviu nenhum discurso de agradecimento à princesa. Amparados pela força dos seus Orixás, os negros “bateram Candomblé” no centro da cidade e no sábado seguinte jogaram um presente no mar em agradecimento aos Orixás. E mais, lançaram uma praga sobre a cidade: todo aquele que impedisse o Bembé (Candomblé) do Mercado sofreria um castigo exemplar.

Diz a tradição santamarense que, em todo esse tempo, até hoje, em apenas dois anos não se festejou o Bembé. Conta-se que, certa feita, um delegado valentão resolveu proibir o Bembé, até porque o Candomblé era perseguido em todo o Estado da Bahia. Pois bem, um mês depois a esposa dele foi vítima de um acidente automobilístico e ficou com um braço inutilizado. Na segunda ocasião em que não se fez o Bembé, uma grande enchente castigou o centro da cidade. E assim, ninguém mais ousou impedir que os negros exercessem sua liberdade de acordo com as suas tradições e sua cultura. Estava instituído o Candomblé da Liberdade. Cada ano que passa, o Bembé fica mais animado. Além do Candomblé do Treze de Maio, apresentam-se no Mercado de Santo Amaro as várias manifestações tradicionais: O Maculelê, a Capoeira, o Samba de roda, o Coça-coça, o Nego Fugido, na forma de um verdadeiro festival de cultura negra e popular.

O Bembé do Mercado, em Santo Amaro, tem grande significado pára a afirmação da cidadania negra no Brasil. Eliminados quaisquer traços de subserviência agradecida à princesa pela Abolição, emerge a evidência histórica da luta popular contra o cativeiro e da força da cultura afro-brasileira como propulsora da resistência do povo negro no Brasil. Longe de ser uma excentricidade baiana, o Bembé representa uma série de manifestações populares em todo o Brasil, especialmente nas áreas rurais do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, que evocam a luta contra a escravidão e afirmam valores importantes da cultura afro-brasileira, tais como reisados e congos. “Por tudo isso, o Treze de Maio não pode ser simplesmente apagado do calendário das lutas de libertação do povo negro brasileiro”.

Em 14 de setembro de 2012, o governador Jaques Wagner assinou o Decreto Nº 14.129 (Diário Oficial do Estado de 15 e 16 de setembro), acatando a proposta aprovada pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), autarquia da Secretaria de Cultura (Secult), e o Conselho Estadual de Cultura. Agora o Bembé do Mercado está inscrito no Livro do Registro Especial dos Eventos e Celebrações como Patrimônio Imaterial da Bahia.

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