segunda-feira, 27 de junho de 2016

Joquinha Gonzaga, sobrinho de Gonzagão, é apenas mais um artista expurgado do São João do Nordeste



Todo ano é a mesma coisa: as prefeituras afirmam não ter verba para contratar forrozeiros autênticos, mas pagam verdadeiras fábulas para sertanejos, axezeiros, pagodeiros e bandas que produzem um som inteligível onde a voz do cantor é abafada pelo som dos instrumentos e, a essa aberração, eles teimam em dar o nome de forró

Um dos nomes mais tradicionais do ritmo, o forrozeiro Joquinha Gonzaga é uma das vítimas dessa política que teima em massacrar a cultura nordestina em favor de nomes ditos ‘da moda’. Para se ter uma ideia da inversão de valores, no ano passado ele fez 12 apresentações no período junino. Este ano teve um único show, na Praça de Campo Grande, na programação da Prefeitura do Recife. João Januário Maciel, neto do sanfoneiro Januário, e sobrinho de Luiz Gonzaga (é filho de Raimunda Januária, ou Muniz, irmã do Rei do Baião), é o único parente próximo de Gonzagão que ainda mora no Exu e que teima em manter viva a tradição do seu tio.

Mais do que sobrinho, Joquinha tocou com o tio durante 40 anos, mas em 2016 não toca nem em Exu, a terra natal do forró. “Aqui, onde foi criado o São João de Luiz Gonzaga, a gente não tem oportunidade de tocar”, comenta o forrozeiro.

O sobrenome não ajuda

Pelo visto, o sobrenome que carrega não ajuda a abrir portas. Joquinha Gonzaga diz que fez uma peregrinação por várias cidades tentando ser contratado. Foi a Caruaru, Campina Grande e Petrolina ­ entre outras ­, e a desculpa sempre foi a mesma: ninguém tem dinheiro. “O pior é que eles pagam um absurdo a estes sertanejos da Globo e pra gente não tem dinheiro. O meu cachê é de R$ 15 a 25 mil, dependendo do lugar onde for. Porque a gente paga hospedagem, alimentação da banda e isso varia a cada lugar”. O sanfoneiro viajou o Sertão inteiro com Luiz Gonzaga. Era roadie, motorista e músico.

“Toquei sanfona com ele. No começo, ainda pequeno, era o triângulo, pra ganhar um cachezinho. No meio do show, tio Gonzaga me botava pra tocar umas duas músicas. Brincava dizendo pra pagar porque o pessoal estava gostando muito de mim e eu iria atrapalhar o show dele. Tio Gonzaga fortaleceu o São João, e hoje a gente está perdendo tudo isso. Ele foi embora, Dominguinhos foi embora, e agora é o que eles querem.”, lamenta o sobrinho de Lua.

A época em que Joquinha Gonzaga fez mais shows no São João foi quando viajava com o grupo de Luiz Gonzaga. Entre 20 a 30 apresentações por temporada junina.”No interior do Nordeste não se valoriza o forró autêntico. Contratam bregas, gente de fora. A nossa cidade vai fazer uma festa em setembro, aniversário do Exu. Já tem um tititi aqui que vão trazer Aviões do Forró e Leonardo, mas para o São João não tem dinheiro”, ironiza Joquinha.

Homenagens a Gonzagão

Antes do aniversário, Exu presta homenagem a Luiz Gonzaga, em mais um aniversário de sua morte (faleceu em 2 de agosto de 1989). Joquinha Gonzaga diz que até agora não há patrocínio para o evento e as autoridades lembram que falta dinheiro ao Estado: “A festa de Gonzagão está morrendo. Tem a de agosto e a dezembro, que é a principal, a do nascimento. Pra se ter bem uma ideia, para a festa de dezembro do ano passado, o governo deu R$ 120 mil pela Empetur, que até agora não pagou. Estamos devendo aos músicos até agora. Com o cachê de um Safadão daria para fazer duas festas de Gonzagão no Exu”, conclui Joquinha Gonzaga.

Cachês milionários

Essa é a realidade e mostra o quanto o Nordeste ainda mostra a suldependência em vários setores, em detrimento dos seus valores e suas tradições mais representativas. Durante o ano, sertanejos das antigas e até os new sertanejos fazem a festa em todo o Nordeste, embolsando gordos cachês, mas nas últimas edições do São João vem se verificando um verdadeiro “trem da alegria” desse segmento, até em cidades onde se mantinha a chama do autêntico forró como Caruaru PE e Campina Grande PB.

Em 2016, a cidade Irecê BA, extrapolou todos os limites e resolveu trazer para o São João nomes inusitados e que, há anos, estão em decadência, como Jerry Adriani, Agnaldo Timóteo, Julio Nascimento e, pasmem, Bartô Galeno. Uma verdadeira punhalada na cultura nordestina, bancada com dinheiro público.

Referência: JC online

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário será publicado após análise.
Obrigado!