domingo, 19 de junho de 2016

Em “Vida Selvagem”, Cédric Kahn imprime no filme um tom bastante pessoal e questiona o convencional


A história real que serve de inspiração a este drama poderia de fato se prestar a um filme da dupla belga, onde um casal aberto à natureza e contrário aos valores do capitalismo criam os filhos em liberdade, mas quando o casal se rompe o pai sequestra os dois filhos mais novos e vive durante onze anos escondido com os dois dentro da floresta

Até que ponto ir contra o já pré-estabelecido, o convencional, ou seja, aquilo que é normal apenas porque todos assim o fazem, muitas vezes sem nem mesmo terem o cuidado de se questionarem por que, é também um ato de rebeldia? Afinal, não somos todos livres para agirmos como bem entendermos? Ou essa liberdade só existe dentro de padrões determinados?

Tais questionamentos, se podem consumir toda a existência de um homem adulto, encontram ainda maior ressonância ao se depararem entre as dúvidas de um pai e de uma mãe – ou, pior, de um pai contra uma mãe. Pois esse embate, que na teoria pode até parecer retórico, teve efeitos transformadores em cada um dos membros da família Fortin, como bem registrado em Vida Selvagem, drama de Cédric Kahn inspirado em fatos reais.

Direção crua

Kahn emprega ao filme um tom muito pessoal. Contrário ao distanciamento crítico, ele pretende imergir o espectador no estilo de vida dos personagens, com direção crua e tom urgente. Na prática, isso significa usar cortes rápidos e muitas câmeras na mão, bem próximas do rosto dos personagens, especialmente nos momentos em que gritam uns com os outros. O terço inicial e o terço final da história, quando surgem as maiores brigas, tornam-se tão naturalistas quanto histriônicos. Interessa ao diretor menos a compreensão de cada personagem do que a sensação de caos.

A decisão de aproximar a câmera nos momentos de catarse, e de se afastar nos trechos de calmaria faz de Vida Selvagem uma obra de opostos. Existe espaço para a saturação dos sentidos (a câmera tremendo freneticamente durante a fuga de Paco com as crianças) e também para a monotonia, quando Paco espera o tempo passar com os garotos, atrás de arbustos ou sobre as montanhas. A narrativa funciona como uma montanha russa, com altos e baixos emocionais.

Os primeiros anos de fuga, quando a narrativa se concentra nos adultos, fornecem as melhores cenas. Os estilos distintos do contido Kassovitz e da expansiva Sallette equilibram bem as cenas, enquanto a produção capricha em cenários, figurinos e no uso da luz natural. Quando as crianças se tornam protagonistas da história, a trajetória perde sua força, pois Romain Depret é um ator particularmente limitado em cena. Ao mesmo tempo, os saltos no tempo são ilustrados do modo mais simples possível, com imagens de datas em jornais e inclusão de citações aos dias e meses nos diálogos.

Talvez Vida Selvagem não forneça a grande catarse emocional que os filmes dos irmãos Dardenne costumam proporcionar, por exteriorizar demais a carga emocional. Em sua implacável transparência, os protagonistas não permitem surpresas no caminho rumo à conclusão. Mesmo assim, o filme cativa pelas atuações dedicadas pela dupla adulta central. Seus personagens poderiam se tornar caricatos sem o devido cuidado, mas Kahn apresenta um olhar humanista na condução dos personagens.

Referências:
  • Adoro Cinema
  • Papo de Cinema


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