quinta-feira, 9 de junho de 2016

85 anos de João Gilberto | O baiano de Juazeiro que ganhou a justa fama de recluso, ainda alimenta a aura de mito


João caricatura

O cantor e compositor João Gilberto completa 85 anos amanhã, sexta (10/6) e é detentor de um estilo de execução que ilude o ouvinte: ela parece simples, mas é muito complexa. A voz nem sempre se deixa guiar pelo instrumento que a acompanha. Ora está adiantada, ora atrasada, às vezes os dois se encontram e é absolutamente necessário entender este diálogo para que não se incorra no erro de diminuir o artista

Sem lançar discos desde 2004 — o último foi “João Gilberto in Tokyo”, ao vivo — e completamente avesso à mídia e à vida social, o inventor da bossa nova vive recluso em seu apartamento no Rio de Janeiro, reforçando ainda mais o mito criado em torno de sua figura e de sua música.

Mas nem mesmo o retraído João escapa das redes sociais nestes tempos de internet. No ano passado, foram postados no YouTube dois vídeos curtos em que ele aparece em casa, vestindo pijama, dedilhando o violão ao lado da filha mais nova, Luisa Carolina, 9 anos.Desde então, são as mais recentes imagens do artista tornadas públicas.

Os vídeos foram gravados por Claudia Faissol, empresária do cantor e mãe de Luisa. À época, Claudia contou ao jornal Folha de S. Paulo que o material faz parte de um acervo que ela vem montando há anos para futuramente transformar em um curta, um longa e um documentário.

Estilo próprio


A essência da invenção de João Gilberto está nos três discos que gravou na velha Odeon entre o final da década de 1950 e o início da de 1960. A releitura dos sambas anteriores à bossa, um pouco de Dorival Caymmi, algo de Ary Barroso e muito dos seus contemporâneos, sobretudo Antônio Carlos Jobim.

A batida que João criou é a síntese do samba e a sua reinvenção. A utilização dos baixos desaparece para dar lugar a uma mão direita que percute o ritmo, enquanto a esquerda oferece acordes dissonantes num refinado desenho harmônico. A execução ilude o ouvinte: ela parece simples, mas é muito complexa. A voz nem sempre se deixa guiar pelo instrumento que a acompanha. Ora está adiantada, ora atrasada, às vezes os dois se encontram. É misterioso, preciso, perfeito. É necessário entender este diálogo para que não se incorra no erro de diminuir o artista.

Os três primeiros discos na Odeon, o encontro com o saxofonista Stan Getz (em “Getz/Gilberto”), o LP de capa branca e “Amoroso” são os melhores registros da sua arte sofisticada, retratos de um país sonhado e não do Brasil real. Por isso, muitos ainda não compreendem o som e o silêncio produzidos por João Gilberto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário será publicado após análise.
Obrigado!