terça-feira, 3 de maio de 2016

Se você tivesse que escolher entre voltar ao passado ou viver o presente, o que você escolheria?


É comum ouvirmos dos saudosistas que os tempos antigos é que eram bons, sem violência, sem estresse, sem trânsito louco... Eles têm razão. Em parte. Hoje temos todas essas mazelas citadas e mais algumas, mas o progresso nos trouxe também uma série de facilitadores impensáveis há meio século

Quando temporizei o ‘meio século’ é porque foi nesse horizonte temporal que ‘passei a me entender por gente’, como diria meus antepassados. Morar na zona rural era de um marasmo sem fim: acordava-se, trabalhava-se o dia inteiro e, ao cair da noite, após o trivial jantar a opção era... dormir. Na nossa casa, tinha um rádio Franklin movido a seis pilhas 6 TR que, dado o seu altíssimo custo, só era ligado aos sábados, para ouvir o programa de Jota Luna, na Rádio Sociedade da Bahia.

Primeira mudança. Em 1970, fomos morar em Ipirá para dar início aos estudos iniciados na Fazenda Flor do Dia, com a professora Waldir que teve a coragem de sair de Feira de Santana para se enfurnar na roça e ensinar cerca de 20 adolescentes, - e ninguém sabia o que era isso? - a ler, escrever e contar. Para nós, um deslumbramento só: água do chafariz (quando tinha) e luz elétrica das 18 às 22 horas, quando o motor a diesel era desligado. Mas já não havia necessidade da luz do candeeiro para estudar e tinha uma lâmpada na meia parede que dividia os dois quartos. Para que o luxo de uma lâmpada para cada quarto? Eu ainda andava nas cercanias da cidade para apanhar lenha, já que fogão a gás era para os endinheirados locais.

Menos de dois anos depois, fomos para a segunda maior cidade do estado, a ‘metrópole’ Feira de Santana. Foram intermináveis cinco horas de viagem em estrada de terra, sacolejando na carroceria de um caminhão Mercedes 1113. E haja mudanças nas nossas vidas: a luz era intermitente, a água era encanada, - embora faltasse dia sim, outro também, - tinha chuveiro (frio) e vaso sanitário, que era um item impensável na nossa casa anterior. E até podemos comprar uma geladeira usada com puxador envolto em uma flanela, para evitar os constantes choques elétricos na hora de abrir para vender os geladinhos e abafabancas de coco, manga, goiaba...

No início dos anos 70, televisor ainda era para poucos e só conseguimos comprar uma quando uma prima adquiriu uma a cores, - supremo luxo, - e nos vendeu a Philips P&B usada, parcelando em suaves prestações. Para sobreviver, meus pais abriram uma venda, - versão anterior da mercearia, - e é nessa atividade que podemos ver como o mundo evoluiu nesses últimos 50 anos. Alguém se imagina nos dias atuais comprando 100 ml de água sanitária? E 250 gramas de açúcar? E 50 ml de azeite de dendê? Esse fracionamento inconcebível na contemporaneidade era comum e usual naquela época. Feijão, açúcar, arroz, farinha e outros cereais empacotados e de várias marcas, nem pensar. Era tudo a granel e pesado quilo a quilo em frágeis embalagens de papel.

Xampu? Ninguém sabia sequer o que era. Para lavar cabelo era sabão de coco mesmo, enxaguando com sabonete das marcas Gessy, Lux e Palmolive. Só por volta de 1975 é que começaram a surgir uns sachês de xampu, como o indefectível Colorama de Ovo. Se caíssemos na besteira de preencher toda a extensão das cerdas da escova com o creme dental (Kolynos ou Colgate), ouvia de pronto: “para que esse exagero? Use só na metade, pois custa caro...” E custava mesmo, porque os recursos eram parcos. Quando ia ao Cine Íris ver os filmes de “Santo – El mascarado de prata”, tinha que escolher: o ingresso ou o refrigerante Laranja Turva, pois a grana não dava para os dois itens.


Maravilhas da modernidade

Nos dias atuais, temos uma lista incalculável de facilitadores e grande parte deles está ao alcance de extensa parcela da população. Itens como telefone celular, TV por assinatura, acesso a redes sociais já se tornaram corriqueiros e ninguém abre mão deles. 

Nos supermercados, o portfólio é incalculável e as pessoas podem escolher de acordo com a sua preferência ou a disponibilidade de recursos. E aí poderíamos relacionar inúmeros itens inimagináveis em meados do século passado mas que estão ao alcance de um bom percentual da nossa população.

O que fica patenteado? O progresso trouxe a reboque uma gama de problemas que devem ser encarados por toda a sociedade, mas em compensação, disponibilizou produtos, serviços e soluções que contribuíram muito para a qualidade de vida dos que habitam o planeta terra nos dias atuais.

Euriques Carneiro

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