domingo, 1 de maio de 2016

O sotaque carregado do interior de São Paulo pode se tornar patrimônio imaterial em Piracicaba



Já abordamos aqui no Artecultural a diversidade de sotaques e expressões idiomáticas ao redor do mais de 8,5 milhões de quilômetros desse Brasilsão

Não existe um só jeito de falar, de tão vasto, o Brasil carrega um pedaço de muitas culturas espalhadas pelo mundo Cerca de 20 sotaques oficiais foram identificados em terras brasileiras, fora a língua indígena. Entre cearense, sertanejo, sulista, carioca, gaúcho e tantos outros, o caipira é comumente falado no interior paulista. 

E dele, surgiu um ainda mais específico, o “caipiracicabano”, exclusivo de Piracicaba. De tão famoso país (e mundo) afora, agora o estilo de falar pode se tornar oficial. Quem não lembra o auge da carreira da jogadora de basquete Hortência Marcari que, a despeito de ser natural de Potirendaba, é uma das vozes mais marcantes e encabeça a lista dos que falam o “caipiracicabano. Devido às fortes raízes da habitação de pessoas simples, a maneira de falar em Piracicaba tomou forma e o dialeto é conhecido atualmente. Para os nascidos e criados na “Terra da Pamonha”, não se importa de ser visto como estranho por turistas de outras regiões. 

Por receber muitas visitas de outros Estados, é comum na Rua do Porto, perceber comentários na hora do atendimento. Os visitantes notam alguma coisa diferente e sempre perguntam ‘e esse erre do seu sotaque?’ Além do “r” retroflexo, que causa maior distinção do vocabulário caipiracicabano quando a língua se dobra para trás durante a pronúncia, as gírias fazem parte dos momentos de atendimento no bar. “Tem pessoas que chegam pedindo um ‘taio’ de pinga,que seria uma dose. São coisas passadas de geração para geração e isso é do caipira mesmo. 

Entre as conversas dos passantes e da própria população ribeirinha, criada às margens do Piracicaba, é na Rua do Porto em que o falar puxado pode se apresentar mais forte. Que tal, durante um bate bola na praia, alguém gritar: ‘Ei! Ocê não toca a bola para mim!’. O piracicabano tem orgulho do seu linguajar próprio e acha legal o fato do sotaque ter ficado famoso, inclusive com muita coisa criada na televisão inspirada nele. 

PATRIMÔNIO IMATERIAL

Um grupo de associações da cidade entrou com um pedido para que o Codepac (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Piracicaba) registre o sotaque caipiracicabano e o transforme em patrimônio imaterial do município. E esse pode ser apenas o primeiro passo para o reconhecimento de nossa linguagem tradicional. 

A ideia de se registrar o sotaque caipiracicabano como patrimônio imaterial partiu de quatro instituições: IHGP (Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba), Apap (Associação Piracicabana e Artistas Plásticos), APL (Academia Piracicabana de Letras) e Icen (Instituto Cecílio Elias Netto). Representantes de todas elas encaminharam ao Codepac a solicitação para que o específico dialeto fosse reconhecido e registrado como único. 

Na justificativa, narra-se o fato de que o surgimento do sotaque no Estado vem do século 18, na mistura entre o linguajar da população portuguesa com a língua dos índios. Segundo o professor e pesquisador da USP (Universidade de São Paulo), Manoel Mourival de Almeida, o Estado recebeu imigrantes que falavam a língua nhengatu, baseado no tupi, que simplificava a comunicação entre os jesuítas e os índios. 

A língua, no entanto, foi proibida, mas o português acabou sendo carregado pelo sotaque indígena e, devido à influência do nhengatu com o português arcaico, nasceu o “r” retroflexo. Desde então, falar “porrrta”, “amorrr” entre outras palavras com o “r”, a língua dobra para trás durante a pronúncia. O dialeto se espalhou pelo Estado, principalmente na região do Médio Tietê. No entanto, Piracicaba ganhou destaque pela identificação com o sotaque caipira. 

Dicionário Caipiracicabano

A própria palavra “caipira” vem do indígena: caá (mato), i (água) e pira (peixe). Ou seja, não é difícil entender porque a cidade tem essa identificação, já que o rio Piracicaba atravessa a cidade, que é o “lugar onde o peixe para”. Dicionário Caipiracicabano Objeto de estudo, o dialeto caipiracicabano virou um livro. 

A primeira edição do Dicionário Caipiracicabano, do jornalista Cecílio Elias Netto, foi lançada em 2001 e trazia consigo frases e expressões publicadas desde 1987 na coluna Arco, Tarco, Verva, do jornal impresso A Província, de autoria dos Netto e Gustavo Jacques Dias Alvim, jornalista e hoje reitor da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba). 

Com cerca de seis edições lançadas, o dicionário é composto por mais de 600 verbetes explicativos e auxiliares, para ajudar entender que “lonjura” é uma distância muito grande, “tóra” é pedaço, “nus nervo” é quando algo proporciona fúria, dez só existe se for “déi” e os leitores que “botem reparo”, ou prestem atenção, porque todo e qualquer erre tem que ser muito bem pronunciado para quem está à procura, ou “campeá”, de um piracicabano nato.

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