quinta-feira, 7 de abril de 2016

Bahia |A língua falada é uma só mas as peculiaridades de cada micro região demonstram os hábitos e costumes de cada localidade



Nas minhas andanças pela Bahia, do Recôncavo ao extremo Nordeste, passando pela micro-região de Alagoinhas e a Grande Salvador, pude verificar várias expressões idiomáticas e vícios de linguagem que exprimem a diversidade cultural de cada região, suas particularidades e os seus significados surpreendentes

Vou começar pela minha terra Ipirá, onde algumas expressões de tão peculiares chegam a ser hilárias. Ouvi algumas delas ainda criança, há cerca de meio século mas que perduram até os dias atuais. Vejamos algumas delas:

Sem durda...” – seria uma corruptela de ‘sem dúvida’, mas quem a profere está com dúvidas. “João, tu viu, Zequinha pior aí?”. “Sem durda ele foi prá roça...” mas ele não tem certeza se Zequinha foi realmente para a roça.

Tô em vereme...” – o mesmo que ainda não sei, ‘veremos’. ‘Nô, tu vai prá Ipirá, amanha?’ “Tô em vereme...’

Infonado...’ – diz-se do cara marrento, ‘posudo’. Agora, se você estiver em Amélia Rodrigues, na Grande Feira de Santana, o ‘infonado’ já é o cara que se irrita com facilidade, ‘pega ar fácil’, como se fala em diversas regiões ao longo do Nordeste.

Já na cidade de Valente, dificilmente alguém fala ‘estou com azar’. Lá quase 100% da população, diz, “ô eu castigado...”.

Em grande parte da Bahia, a expressão ‘cumer água’, significa ingerir bebida alcoólica, mas não beber alguns copos e sim, tomar todas, encher a cara. Mas em Crisópolis, na região de Alagoinhas, “cumer água” é “morder a batatinha”. A região onde está situada a cidade de Crisópolis, sofre grande influência do vizinho estado de Sergipe e lá acontece algo sui generis. Vejam o seguinte diálogo: “Zé, tu é da minha idade...” “Qual é, Quim? Tu é bem mais velho do que eu, tu cansou de ‘me enrabar’ quando eu era garotinho e tu já era rapaz...” Em qualquer outra região, a expressão ‘me enrabar’, tem conotação altamente pejorativa, mas lá ela significa apenas ‘correr atrás’ e as pessoas falam com a maior naturalidade.

Chegamos então à tríplice fronteira onde as divisas de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia ficam a alguns quilômetros uma da outra, a belíssima cidade Paulo Afonso. Supomos que alguém fale: ‘eu fiz de carro de Feira a Paulo Afonso em 3 horas...’ Alguém que ouvir essa façanha e não acredite nela, decerto falará. “agora faça...”

Paulo Afonso, por ter uma íntima ligação com o estado de Pernambuco, - a CHESF que, durante décadas foi a mola propulsora do desenvolvimento da cidade, tem a sede em Recife, - quase não existem características que lembre a Bahia. Confiram alguns exemplos:

· Galinha caipira é galinha de capoeira

· Requeijão é queijo manteiga

· Aipim é macaxeira

· Tiara é diadema

· Badogue (bodoque) é atiradeira

Ainda existem os ditos populares:

Capar o gato: Fugir, dar no pé

Comer insosso e beber salgado: O mesmo que comer da banda podre, pegar a pior parte.

De caju em caju: Aqui e ali, uma vez ou outra

Pegar-o-boi: Levar vantagem, fazer um bom negócio.


Eu escreveria páginas e páginas para falar dessas discrepâncias que desembocam nesse vastíssimo caldeirão cultural que é esse Brasilsão de 8,5 milhões de km que, não se sabe como, fala um único idioma. Com essas dimensões continentais, nada mais comum que existam expressões locais que são quase dialetos inteligíveis, senão para os nativos. Mas isso já rende assunto para outra matéria.

Euriques Carneiro

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