sexta-feira, 29 de abril de 2016

28 de abril: Dia Nacional da Caatinga, esse sofrido pedaço do Brasil que dá guarida a um povo de fé, fibra e resiliência



Por Decreto Federal de 20 de agosto de 2003, o Dia Nacional da Caatinga passou, a ser comemorado no dia 28 de abril de cada ano, em uma homenagem ao professor João Vasconcelos Sobrinho (1908-1989), pioneiro na área de estudos ambientais no Brasil



O Dia Nacional da Caatinga foi celebrado oficialmente pela primeira vez no Seminário “A Sustentabilidade do Bioma Caatinga“, ocorrido nos dias 28 e 29 de abril de 2004 em Juazeiro, na Bahia

Tupi Guarani

Caatinga é um termo de origem Tupi-Guarani e significa’ floresta branca’ e a razão para esta denominação reside na aparência que a floresta revela durante a estação seca, quando a quase totalidade das plantas estão sem folhas e os troncos brancos e brilhosos, extraordinárias estratégias da natureza para diminuir as perdas de água nesta estação. Outro fenômeno destacável são as folhas modificadas na forma de espinhos. 


Com esse conjunto mínimo de adaptações à deficiência hídrica, a Caatinga se mostra como uma vegetação xerófila, espinhosa e caducifólia, de certo, seus aspectos mais nítidos. Verdadeiramente, parece não existir beleza e alegria em algo seco e branco, no entanto, quando as primeiras chuvas caem sobre a caatinga uma extraordinária explosão de cor e vida emerge, numa mudança repentina de paisagem das mais espetaculares do mundo.
Essa cobertura vegetal exclusivamente brasileira é singular, ou seja, não é encontrada em nenhum outro lugar do mundo além do Nordeste do Brasil. Ocupa uma área de aproximadamente 900 mil quilômetros quadrados englobando de forma contínua parte dos estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e Minas Gerais. Durante muito tempo a Caatinga foi descrita como ecossistema pobre em espécies e endemismo. 

No entanto, estudos recentes apontam o contrário. A flora já levantada registra aproximadamente mil espécies, das quais um terço são espécies endêmicas (exclusivas). Estima-se que o total de espécies vegetais alcance 2 mil a 3 mil. Ademais, mamíferos, peixes, aves, répteis e anfíbios superam mil espécies com um nível de endemismo bastante variado. É desse patrimônio biológico que o sertanejo obtém madeira, carvão, carnes, frutas, plantas medicinais, fibras, mel e forragem para os rebanhos.


Direta ou indiretamente, todo o Brasil convive com a Caatinga. Seja por meio dos cordéis e dos repentes, eternizados por milhares de poetas populares, com destaque para Patativa do Assaré, e revistas do Cordel do Fogo Encantado, seja ainda através da literatura de Graciliano Ramos, de Rachel de Queiroz, de José Lins do Rego, de Guimarães Rosa e de Ariano Suassuna, que em 2007 teve uma obra prima, A Pedra do Reino, adaptação para a televisão em forma de microssérie.

Seja ainda por meio da mundialmente aclamada xilogravura de J. Borges, na qual são inseridos os elementos do imaginário sertanejo: Lampião, vaqueiros, festa de São João, entre outros. Seja por meio do cinema, desde O cangaceiro, de Lima Barreto, de 1953, passando pela estética da fome de Glauber Rocha em Deus e o Diabo na Terra do Sol e Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos, às produções mais recentes, Abril Despedaçado, de Walter Salles, Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, e Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, produção que disseca o lado negro da indústria da cana no sertão de Pernambuco em tempos de louvação ao etanol.

A caatinga por Luiz Gonzaga


Nenhum nordestino cantou e decantou a caatinga como Luiz Gonzaga. É sabido que a seca é a maior característica da Caatinga, e é também o aspecto que tem maior força na construção da identidade do nordestino. Dentro desse histórico da caatinga de quase perecer durante uma seca causticante e, tal como uma fênix, reviver das cinzas ‘depois da primeira chuvada’, Luiz Gonzaga, juntamente com Humberto Teixeira e Zé Dantas, construíram dois dos maiores sucessos da carreira do Velho Lua: as músicas “Asa Branca” e “A volta da Asa Branca”. A primeira, narra a saga de um nordestino que migra para o sudeste fugindo da fome e da seca.

“Quando oiei a terra ardendo como a fogueira de São João. Eu perguntei, a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação.” (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira)


Como “o nordestino antes de tudo é um forte” (Euclides da Cunha), o sudeste é apenas uma moradia temporária, e bastam os primeiros pingos irrigarem seu torrão natal para ele estar de volta para plantar, colher e ser feliz. Esse retorno é celebrado em, A Volta da Asa Branca, onde se dá o relato do retorno do retirante que saiu do nordeste apenas por causa da seca e, com a volta da chuva, ele empreende o caminho de volta, em um itinerário semelhante ao que é feito pela Asa Branca, ave típica da Caatinga.

“Rios correndo
As cachoeira tão zoando
Terra moiada
Mato verde, que riqueza
E a asa branca
Tarde canta, que beleza
Ai, ai, o povo alegre
Mais alegre a natureza” 

(Luiz Gonzaga & Zé Dantas)


Este sentimento de pertencimento, talvez seja o traço mais marcante da identidade do nordestino. Essa nordestinidade não é abandonada, mesmo longe da sua caatinga.

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