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terça-feira, 22 de março de 2016

Os Dias com Ele |Maria Clara Escobar produz um grande documentário onde resgata a imagem do seu pai, Carlos Henrique Escobar, intelectual auto-exilado em Portugal



Segundo a máxima do cineasta Jean-Luc Godard, “todo grande documentário tende à ficção, e toda grande ficção tende ao documentário”. Para além do evidente jogo de palavras, marca notável dos aforismos de Godard, a assertiva relaciona dois sistemas, documentário e ficção 

"Os Dias com Ele" não traz uma premissa incomum no documentário, pelo contrário: o filme foca na relação entre a diretora Maria Clara Escobar e seu pai, o filósofo Carlos Henrique Escobar. Através dos traumas pessoais, a narrativa pretende espelhar os traumas da nação, principalmente relacionados ao sombrio período da ditadura militar. 

As relações família-pátria e público-privado têm constituído o eixo de dezenas de documentários nacionais, e este é mais um exemplar da boa qualidade deste grupo de obras.Maria Clara mergulha no passado quase desconhecido de seu pai, Carlos Henrique Escobar. As descobertas e frustrações de acessar a memória de um homem e de um período da história brasileira cheio de lacunas. Ele, um intelectual preso e torturado durante a ditadura militar, não fala sobre isso desde aquele tempo.

Amargura

O trunfo do filme é a personalidade muito específica de Escobar. Recluso em Portugal e voluntariamente afastado de amigos ou familiares, o entrevistado demonstra grande amargura em relação à história, à política (seja ela de esquerda ou direita) e às pessoas de maneira geral. A misantropia se reflete na relação com a própria filha, que Escobar trata com frieza e certa ironia – ele chega a afirmar que, embora tenha ficado feliz com o nascimento dos filhos, só se tenha realizado de fato com a compra de seus gatos. Esta personalidade improvável e involuntariamente cômica desperta atenção, assim como a conduta controladora (Escobar pretende compor as cenas e os enquadramentos no lugar da diretora) e a recusa de abordar diretamente temas como a tortura.

Por mais interessante que seja, "Os Dias com Ele" funciona menos para abordar a ditadura militar do que para retratar a dificuldade em representá-la. A metalinguagem serve bem para criar distanciamento em relação ao tema abordado, mas não para explicá-lo ou contextualizá-lo. De modo geral, seria interessante que alguém estudasse essa onda de documentários autobiográficos recentes, como Construção, Elena,Marighella, Sobral – O Homem que Não Tinha Preço,Mataram Meu Irmão, Francisco Brennand, Diário de uma Busca e outros. É compreensível que os diretores tenham interesse nas histórias de seus familiares, e que a proximidade com as pessoas retratadas facilite a produção. Também é verdade que a maioria destes filmes apresenta uma alta qualidade.

Mesmo assim, o universo narcisista destas produções demonstra uma tendência destes jovens diretores a não buscar compreender uma realidade muito distante de sua própria vivência. É um cinema belo, intimista, que também contribui a refletir sobre os problemas da sociedade, mas que toma poucos riscos estéticos e cinematográficos. Trata-se de uma produção rica na compreensão do indivíduo como parte de um todo, mas pobre na vontade de retratar a alteridade. Um delicado e prolífico cinema-umbigo.

Fonte: Adoro Cinema

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