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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O Prefeito e a carona: "Resgatando o pão dele de cada dia"



"Resgatando o pão dele de cada dia", um belo texto de Tonho do Paiaiá, o filho de Nova Soure BA, onde ele narra com humor e simplicidade a história de um prefeito e uma carona oferecida a um eleitor.

A primeira investidura de Zé Ramos (José Ramos de Souza 1921-2002), no cargo de Prefeito do Município de Nova Soure, ocorrera em 1959, após Eleições ocorridas em 3 de Outubro de 1958, sucedendo ao Dr Manelito (Emmanoel Ferreira da Silva, cirurgião dentista de profissão e político por opção, com quem tive a honra de privar de uma amizade sincera).

Naqueles tempos a municipalidade não tinha condições de adquirir um veículo automotor para prestação de serviços públicos, tampouco para o deslocamento do seu alcaide. Afinal os recursos arrecadados eram ínfimos e só davam mesmo para manutenir os próprios do município e prestar os serviços públicos obrigatórios e necessários, mesmo assim, com muita dificuldade e talvez com ineficiência.

De veículo mesmo a Prefeitura dispunha somente de uma carroça de madeira, com duas rodas e utilizada, principalmente, para o recolhimento do lixo urbano, puxada por uma burra (mula) fornida, bem cuidada e bastante velha. O cocheiro era um homem afrodescendente, de pequena estatura, compleição física alargada e com certa dificuldade de locomoção, radicado em Nova Soure há muito tempo, vindo lá das bandas dos Catorze — povoado do Município do Inhambupe — conhecido como Chico Lixeiro.

Zé Ramos era proprietário de um veículo Jeep, fabricado pela Willys Overland do Brasil, que o utilizava na idas e vindas às suas fazendas e nos deslocamentos para a Capital da Bahia, em busca de verbas para ajudar na sua administração e contatos com políticos de então, principalmente o deputado representante do município na Assembleia Legislativa o Dr Acioly Vieira de Andrade, filiado à antiga UDN – União Democrática Nacional, nascido no Município de Cícero Dantas — governara, como Prefeito nomeado, os municípios de Feira de Santana e Cipó.

Estrada asfaltada só a partir de Alagoinhas e olhe lá. Portanto, dá pra imaginar o tempo de viagem entre Nova Soure e Salvador; no mínimo um dia, sem contar com percalços de atoleiros ou pequenos defeitos no veículo, se viessem a acontecer.

Certo dia, Zé Ramos fora chamado à Bahia – assim chamávamos a nossa Capital, provavelmente em referência à Baia de Todos os Santos – para encontros com políticos com vistas a garantia de emendas orçamentárias que beneficiassem a administração municipal. Saíra do Soure na terça-feira pela manhã, só retornando na sexta-feira da mesma semana, no seu Jeep Willys, velocidade empreendida na casa dos 60 km por hora, no máximo.

Chegando em Olindina, parou na cidade para tomar água e conversar com alguns amigos e logo em seguida retornara o curso da viagem ao Soure, no seu veículo.

Na saída pro Soure, na altura do pontilhão, um jovem dera com a mão – um pedido de parada do veículo – pretendendo obter uma carona até sua residência. Naquele tempo podia-se dar carona, sem risco da violência a que hoje assistimos todos os dias.

De pronto Zé Ramos reconhecera o passageiro, parara o veículo e cumprimentara o viajante. Era um rapaz trabalhador, jovem pai de família e que morava na Bandinha – era como chamavam o Paiaiá naquele tempo.

Vai pra onde, lhe pergunta Zé Ramos?

E o jovem rapaz, todo acanhado, lhe responde: vou pra Bandinha; o senhor pode me levar até lá? E Zé Ramos: claro que sim; pode montar, abrindo a porta do carona para acesso do passageiro. O jovem bandinhense (ou paiaiaense mesmo) que já vinha caminhando em direção à sua casa, ficara extremamente alegre além de agradecido.

Primeiro por ter sido reconhecido pelo Prefeito do seu Município; segundo porque viajaria de carro e pouparia suas energias para a lida na roça no dia seguinte. O jovem trazia na mão um saco de papel com alguns pães, decerto para sua família. Era um produto raro; somente em cidades se tinha acesso a padarias, em povoados não existiam esta espécie de indústria, a panificadora.

Viagem empreendida, conversa daqui conversa dacolá – de quando em vez o jovem enfiava a mão no saco, rasgava um pedaço de pão e levava à boca, não sem antes oferecer: ―.... o sinhô é 'seuvido' seu Zé ? e Zé Ramos sempre dispensando a oferta.

A prosa fora muito boa e gratificante a ambos. Pra Zé Ramos que conseguira uma companhia, afinal viera sozinho de Salvador até ali. Pro jovem que descansaria as pernas na caminhada de 11 km até sua casa.

Pronto. Chegado à Bandinha ou Paiaiá, o jovem pedira a Zé Ramos que o deixasse em frente à Igreja de São José do Paiaiá – além de ser ponto referencial, ele desejava fazer uma oração agradecendo aquela carona e encomendando pedidos a São José em favor do proprietário do veículo.

O jovem agradecera o préstimo de Zé Ramos e este seguira viagem. Ainda ia passar na Fazenda Brejo Grande, para bater um papo ligeiro com Zé Pequeno de Sinhá (José Moreira de Carvalho), chefe político daquele povoado e seu amigo, como o fizera.

Chegando ao Soure, já quando o sol começara a se esconder, providenciara colocar o Jeep Willys na garagem. Quando já estava fechando uma das bandas da porta da garagem ouve aquele chamado em voz alta: ―seu Zé Ramo, peraê, num feche não, esqueci uma encomenda no seu carro.

E Zé Ramos, que não tinha percebido o saco de papel com os pães do jovem no seu carro, lhe perguntara: esqueceu o que? E o jovem: meus pães seu Zé Ramo. Entrei na igreja, rezei dois ―padre nosso‖ e duas ―avimaria‖ pra mim e pro sinhô. Quando cheguei em casa a muié perguntou: ―trove‖ os pão? Batí a mão na testa e disse: ô mizera meu Deus, deixei no Jeep de seu Zé Ramo, vou lá buscar e tome lhe perna pro Soure.

Parou somente na braúna de Manezinho Galo pra ajeitar a alpercata de tope que estava incomodando seus pés, ainda era nova e não estava amaciada. Subiu a curva do Si dum fôlego só; cumprimentou Alonso de Glória na porta do seu buteco lá nos Paus-brancos e desceu em procura da estrada dos índios e já avistou a cidade. Quealegria! Tava chegando ao Soure, iria resgatar o pão dele de cada dia, iria presentear muié e filhos com o alimento pouco visto no povoado.

Consta que no retorno a penitência junto a São José foi bem maior, o jovem já encontrara a igreja fechada, passava das 8 horas da noite. Chamou na casa de Dona Das Neves – Maria das Neves Prado, que tomava conta da igreja e hoje nomina a Biblioteca do Paiaiá e lhe implorara ― Dona Das Neves, pelo amor que a senhora tem a Nosso Senhor Jesus Cristo, me abra a igreja que quero pagar uma penitência‖ e tascou 5 ― padre nosso‖ e 5 ―avimaria‖ agradecendo ter ainda encontrado e resgatado #opãodeledecadadia#.

O jovem empreendera uma viagem, a pés, de 22 km - ida e volta - entre a Bandinha ou Paiaiá e o Soure ou a Natuba como também o chamavam, para resgatar o pão dele de cada dia.

Concluído nesta madrugada do último dia de Janeiro de 2016, nos meus aposentos do Soure, antes da viagem de retorno a Salvador.

Autoria: Tonho do Paiaiá (Antonio Mário Bastos)

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