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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A Maracangalha de Caymmi sob a ótica de outro baiano: o escritor Marcelo Torres



"Brasília já possui um vocabulário para chamar de seu, ainda que seja um linguajar bastante influenciado pelas pessoas de fora, que representam a metade da população. Em Brasília, edifício é bloco; bicicleta é camelo ou magrela; e ônibus tem ao menos quatro “apelidos” – baú, Davi, caixão e GOL (grande ônibus lotado). Em Brasília, micro-ônibus é zebrinha, radar é pardal, retorno é tesourinha, térreo é pilotis, periquito é maritaca, tiara é diadema e meleca é um pequeno adesivo que se cola no peito" 

O texto acima é parte integrante do livro “O bê-á-bá de Brasília: dicionário de coisas e palavras da capital”, de autoria do baiano de Sátiro Dias, Marcelo Torres, escritor e cronista, por paixão e bancário por opção. A seguir uma bem humorada crônica de Torres , onde ele historia a Maracangalha de Dorival Caymmi, imortalizada em uma das suas mais conhecidas músicas.
Caymmi não foi pra Maracangalha

Quando seu Dorival começou a dizer que ia para Maracangalha – dizia e repetia mil vezes -, todo mundo perguntou se aquele lugar existia. Maracangalha talvez estivesse para o baiano Caymmi como Pasárgada estava para o pernambucano Bandeira. Tanto é que Drummond, amigo dos dois, mas um mineiro desconfiado, logo fez uma paródia:

'Já não vou a Maracangalha

Anália: para um pouco e lê-me

O melhor é ficar na praia

de Ipanema, Leblon e Leme.'

Mas Maracangalha existia, sim - assim como Pasárgada existiu-, só não estava no mapa. Era um povoado de boias-frias, escondido, isolado de estradas, perdido entre engenhos de cana de açúcar no recôncavo baiano. Os moradores rejeitavam o termo Maracangalha, preferiam que o vilarejo fosse chamado de Cinco Rios, mesmo não sendo banhado por rio algum – era o nome da fábrica, em torno da qual vivia a pequena comunidade.

De acordo com o Ipac -Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia - órgão da Secretaria Estadual de Cultura, “o engenho Maracangalha já existia desde 1757 localizado na Freguesia de Nossa Senhora do Monte Recôncavo, que depois passa à São Francisco do Conde até ser transformado em Usina Maracangalha, com produção de 80 toneladas, conforme registro de1898”.

Em meados do século XX houve a fusão de equipamentos das usinas da região, que passaram a ter o nome de Cinco Rios, hoje desativada e com seu prédio em ruínas. Seu apogeu e queda espelham a prosperidade e decadência dos engenhos, a própria história do ciclo açucareiro no país.

Maracangalha, o nome, nasceu da corruptela de “amarrar a cangalha”. Cangalha é uma espécie de canga colocada sobre o lombo de um burro ou jumento; na cangalha são pendurados dois cestos laterais que servem para o transporte de pequenas mercadorias, gêneros alimentícios e produtos de feira. Recusava-se o nome porque a expressão era associada a burro ou jumento, pois só se amarrava cangalha nesses animais de carga.

O sucesso estrondoso da música, que também era ouvida nos poucos aparelhos de rádio do lugarejo, acabou provocando a ‘ressurreição’ do nome. A palavra antes maldita, que ensejava piadas e anedotas, de repente virou motivo de orgulho, o maior orgulho da história do lugar, que agora virava música, uma música entoada por todos os brasileiros, que não se cansavam de cantar “eu vou pra Maracangalha, eu vou”.

Mas Caymmi, o mulato pescador, o pai de santo, o ‘pai da criança’, por incrível que pareça jamais botou os pés em Maracangalha, palavra que antes nunca tinha ouvido falar. Por trás da letra da canção há uma história, curiosa e pouco louvável, mas que é bom conhecer. Caymmi tinha um amigo, um certo Zezinho, que era casado mas pulava a cerca lá para as bandas de Itapagipe, no subúrbio ferroviário, onde mantinha uma segunda mulher e filhos.

Zezinho, para enganar a esposa, a cada mês inventava um telegrama para si mesmo, no qual registrava que a empresa o mandava comprar açúcar diretamente na Usina Cinco Rios. O malandro então, na maior cara de pau, dizia para a esposa: “Eu vou pra Maracangalha comprar açúcar”. A história nada nobre acabou inspirando Caymmi na composição da letra da canção.

Maracangalha existe - a chaminé sem chamas, as paredes em ruínas, a usina morta. O povoado sobrevive, com seu jardim em formato de violão, na pracinha cujo nome não poderia ser outro: Dorival Caymmi.

Cinquenta anos após a música, a única coisa que aconteceu por lá foi a queda de um avião. Era um bimotor que transportava malotes de banco. Continham cinco milhões e meio de reais. O dinheiro que caiu do céu fez muita gente ir para Maracangalha, sem Anália e sem Caymmi. Mas essa já é uma outra história.

(Marcelo Torres)

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