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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Catalão sem ser um catalão, Joan Miró, é a própria história de um artista realmente surreal





Intimista, reservado e rigoroso – ou seja, o oposto da mitologia do surrealismo – fazem deste catalão um caso à parte entretanto, os seus 85 quadros nas mãos do Estado português continuam pendentes


Da Europa a Nova IorqueJoan Miró nasceu a 20 de Abril de 1893 em Barcelona, casou em Maiorca num dia 12 de Outubro com Pilar Juncosa, teve uma filha que nasceu em Junho de 1931 e se chamou Dolores, e morreu em Palma de Maiorca no dia de Natal de 1983. E é tudo.

Ao contrário de quase todos os outros artistas que com ele construíram não apenas o dadaísmo e o surrealismo, mas toda uma forma diferente de observar o planeta - uma coisa inédita e integral como o mundo nunca antes vira (talvez com a exceção alucinada de Hieronymus Bosch) - Miró morreu sem deixar uma mitologia.

Deixou apenas a sua obra, surrealista, mas profundamente trabalhada, aprimorada e rigorosa - muito distante da desordem alucinógena, alcoólica, amorosa e outras com que os seus contemporâneos enchiam numa raiva telas, páginas em branco, películas de filmar e outros objetos indiferenciados, entre os quais lixo industrial.

Joan Miró era antes de tudo um catalão sem ser um catalão. "Jamais voltarei a Barcelona! Paris e o campo até que morra. Não sei por que razão todos os que perdem o contato com o cérebro do mundo adormecem e se mumificam. Na Catalunha nenhum pintor conseguiu alcançar a sua evolução completa...! Têm de se converter em catalães universais!", escreveu ao seu amigo e pintor E. C. Riçar (cujo retrato, de 1917, é uma das suas obras mais conhecidas), antes de regressar repetidas vezes. Mas esse regresso - tal como o de Dali, também catalão sem verdadeiramente o ser (pelo menos até decidir perdoar ao governante Francisco Franco) - não importava nada: Miró e os surrealistas desconstruíram e reconstruíram Paris de uma ponta à outra antes de irem à procura dos outros mundos, mais dóceis, mais endinheirados e sedentos da mitologia da capital de França.

Introvertido e simples, Miró correu com os seus companheiros todos os recantos da arte, sem contudo se confundir com a cosmologia iconoclasta dos outros. Em certo sentido, acabou por construir um universo pessoal que o distingue logo ao primeiro traço dos que com ele correram as mesmas ruas e discutiram os mesmos pressupostos: um Miró é definitivamente um Miró, por muito que Paul Kleber gostasse de por vezes ser confundido com o catalão.

Mas achava-se pouco democrático, vamos dizer assim: a sua obra não era para apreciadores de paisagens mortas, por muito vivas que estivessem. Foi por isso que tentou outras disciplinas: a escultura - onde amiúdes vezes usou sucata para início de conversa - e a cerâmica, que se abriram às suas mãos em 1944 e das quais saíram objetos que pareciam a transformação dos seus quadros na equivalência das três dimensões. Não é fácil descobrir maior democracia nestas outras disciplinas, mas o certo é que há uma evidência tão grande nestas outras artes como na pintura.

Desse ponto de vista, é profundamente catalão: por uma razão qualquer, os artistas que atravessaram aquela pálida fronteira nesses anos de início de século (Dali, Tàpies, Ponç, Buñuel) construíram obras que não deixam margem para qualquer dúvida: são definitivamente deles.

Miró fez como quase todos os outros: internacionalizou-se, como hoje é hábito dizer. Mandou primeiro uns trabalhos como se fossem em prospecção (ainda na década de 30 do século XX), a coisa correu bem, e lá se resolveu a atravessar o Atlântico em 1947 - estava a Europa a lamber as feridas que infligira a si própria, numa devastação que o pintor catalão tivera oportunidade de repudiar em tela (O Ceifeiro) já desde a fase de treino bélico (a guerra civil espanhola, 1936-39).

A viagem valeu a pena: o reconhecimento além-mar permitiu-lhe regressar em 1958 para concluir (em parceria com José Llorens Artigas), os extraordinários murais do Sol e da Lua para o novo edifício da UNESCO, em Paris, o que acabaria por catapultar o catalão para, nesse mesmo ano, vencer o prémio da Fundação Guggenheim.

E contudo regressava sempre, não à cidade de Barcelona, mas a Mont-roig (o tal campo) - uma espécie de refúgio bucólico e ajardinado que era da sua família fazia muito tempo, família essa que, confessou por diversas vezes, em pouco ou nada influenciaram a sua veia artística. Era aí - porque às vezes o dinheiro não chegava para pagar o aluguer dos ‘ateliers' na capital francesa - que engendrava a sua obra.

Nada é um acaso, mas está em saldo

Traços e cores e pretos e brancos em frente uns aos outros ou então de lado ou por baixo e em cima. Mas nada é por acaso no surrealismo do catalão, nenhum ponto, nenhum traço, nenhuma cor. "Miró tem uma obra distinta de todos os outros surrealistas, nas suas formas e cores de regresso à infância. Utiliza símbolos e signos diversos, como astrais, animais, vegetais, que constituem uma espécie de estranha passagem do mundo do sonho e da imaginação", explica uma ‘marchand' que já teve uma pintura de Miró nas mãos e a viu seguir para o Norte do país, pelas mãos de um investidor particular.


"Não conheço em Portugal muitos quadros de Miró", adianta. "Há vários desenhos, mas não quadros, pelo menos no que diz respeito aos particulares". Obras por isso menores - ou, dito de outra forma, não passíveis de atingir os preços que os quadros do catalão atingem nos mercados internacionais. O mais destacado é ‘Estrela Azul', uma obra de 1927 pertencente à série ‘Quadros de sonho' com que Miró iniciou, dois anos antes, uma nova fase da sua mestria, mais intimista e menos prolífera na profusão de iconografias abstratas.

Em Junho de 2012 essa obra foi vendida pela leiloeira Sotheby's por pouco menos de 26,5 milhões de euros - três vezes mais que o preço proposto aos endinheirados e quase sempre anónimos interessados. 26,5 milhões: 73,6% do preço que o Estado português entende ser o necessário e suficiente para se ver livre de 85 obras do catalão, entretanto colocadas na praça por 36 milhões, apesar de haver uma avaliação que lhes atribui um valor entre 80 e 150 milhões de euros.

O problema (mais um) é que a extravagância do processo de venda por parte do Estado português faz com que nem sequer os 36 milhões sejam expectáveis: "Os quadros estão ‘queimados', como se diz na gíria. Os investidores internacionais não costumam querer ter em mãos obras que passaram por semelhante trapalhada". Eo cancelamento decidido pela Christie's tentou igualmente evitá-las. E é isto: tinha de vir de Portugal um desassossego que o rigoroso e surrealista pintor catalão nunca quis sentir enquanto vivo.

Fonte: Sapo Econômico

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