terça-feira, 24 de novembro de 2015

A dor e a glória do samba-canção sob a ótica de Ruy Castro no livro “A Noite do Meu Bem”



Obsessivo, atento aos menores detalhes e disposto a desvendar qualquer história mais cabeluda, ele já escreveu sobre a bossa nova, a vida de Nelson Rodrigues, de Garrincha e de Carmen Miranda
Diferentemente do que muitos pensam, ele não nasceu no Rio de Janeiro. Ruy Castro é de Caratinga, Minas Gerais. Mas isto é só um detalhe. “Sou um carioca que nasceu longe de casa”, diz ele, fazendo graça das linhas tortas do destino. “Como vim ao mundo em fevereiro de 1948, imagino que alguma coisa aconteceu ali naquele sobradinho, na Rua da Lapa, onde meus pais moravam antes de seguirem para Minas”

Mas Ruy Castro não demorou a voltar para a cidade maravilhosa. A partir de 1967, já como repórter, trabalhou nos principais veículos de comunicação do Rio e de São Paulo. Pouco depois, tornou-se um dos maiores biógrafos do país. E adivinhe onde moravam todos os seus biografados?

Um novo ciclo

Em 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra baixou decreto proibindo os jogos de azar no Brasil e uma grande ressaca coletiva se abateu sobre centenas de músicos, cantores, dançarinas, coristas, barmen, crupiês e todo um staff que sobrevivia dessa atividade, atirados à rua da amargura.

Havia, porém, outro ciclo se formando. Desterradas, a música e a boemia souberam migrar para um novo habitat: as boates de Copacabana. E nesses espaços pequenos à meia-luz, precisaram baixar o tom.

Picadinho

O samba-canção contribuiu também para a culinária nacional, graças a Max Stuckart, austríaco que foi cozinheiro do Copacabana Palace e, depois, dono do Vogue. Ele introduziu o estrogonofe, a feijoada e o picadinho no cardápio dos grã-finos brasileiros.

Nas bandas, havia menos instrumentistas tocando em andamento médio, próprio para se dançar de “rosto colado”. Foi-se também o “dó de peito” dos cantores do rádio.

Esse novo gênero – um samba suavizado, de harmonia e melodias complexas e letras falando de amores possíveis ou não – era cantado de forma quase sussurrada.

Essa música, o samba-canção, e o rico contexto social e histórico que a envolve são matérias de “A Noite do Meu Bem”, novo livro de Ruy Castro. “Sentia falta de um livro que tratasse extensiva e intensivamente dessa época. Como não encontrei, só me restava escrevê-lo”, explica o autor.

O livro


Castro retrata um período de pouco menos de 20 anos (1946 a 1965), que pode ser dividido em três forças que se entrelaçam.

Há o cenário formado pelas boates de Copacabana – Vogue e Sacha’s entre elas – e seus ambientes sofisticados que se comunicavam com núcleos do poder na época, como o Palácio do Catete, os escritórios dos grandes industriais e as redações dos jornais.

Havia também as pessoas que as frequentavam, que tanto podiam ser os grã-finos de sobrenomes como Guinle e Matarazzo, políticos, diplomatas os artistas, os intelectuais e boêmios.

E havia a música riquíssima que fazia sucesso no rádio e servia de trilha sonora para as noites longas.

Ela era composta por Dorival Caymmi, Ary Barroso, Antônio Maria, Luiz Bonfá, Adelino Moreira, Ewaldo Ruy. E cantada por Dick Farney, Miltinho, Jamelão, Nelson Gonçalves, Dóris Monteiro, Nora Ney, Elizeth Cardoso e Dolores Duran. Para citar apenas alguns nomes.

Ainda que muitas das letras dessas canções sejam lembradas pela temática triste (ou de fossa), Ruy Castro mostra que a coisa não era bem assim. “As músicas todas falam do amor. E o amor compreende tanto a conquista como a perda. É por isso que o samba-canção resiste, pois fala de um sentimento pelo qual vamos passar: a dor e a glória de um grande amor”, diz o escritor.

Serviço:

O que? Livro “A Noite do Meu Bem”

Autor: Ruy Castro

Editora: Companhia das Letras, 544 páginas

Valor: R$ 60,00

Gênero: Biografia

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