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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Fernando Pessoa e os seus heterônimos revelam a genialidade de um dos maiores poetas portugueses



O mundo fantástico de Fernando Pessoa, - ou Álvaro de Campos, - sempre esteve entre as grandes preferências dos aficionados pelos poemas densos e complexos e Álvaro de Campos surge quando Fernando Pessoa sente “um impulso para escrever”, já que o próprio Pessoa considera que Campos se encontra no «extremo oposto, inteiramente oposto, a Ricardo Reis”, apesar de ser como este, um discípulo de Caeiro

Para falar da extensa e laureada obra de Fernando Pessoa, o Artecultural traz o ponto de vista bastante arguto de Kyldes Batista Vicente, Doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA. Vejam que belíssimo texto da Drª Kyldes!

"A obra de Fernando Pessoa é construída por duas partes distintas e complementares: a ortônima, assinada pelo próprio Fernando Pessoa (Fernando Pessoa “Ele Mesmo”) e a heterônima, máscaras por meio das quais ele realiza a parte considerada mais instigante de sua obra.
Em primeiro lugar, cumpre que se diferencie heterônimo de pseudônimo: o primeiro é constituído de máscaras ou personalidades, com biografia, cultura, filosofia e olhares diferenciados sobre o homem e a vida. É justamente por causa da heteronímia que a obra de Fernando Pessoa é plural.
O pseudônimo, como o próprio prefixo pseudo sugere, é um falso nome, dado a determinada pessoa. A biografia, a cultura, a filosofia e o olhar diferenciado sobre o homem e a vida são da pessoa que recebe o pseudônimo, o que significa dizer que ele, o pseudônimo, não cria personalidades, apenas nomeia uma que já existe.
Cada um dos heterônimos criados por Pessoa é um poeta diferente dos outros, por isso precisamos nos reportar ao conceito de realidade como complexidade: se a realidade é complexa, compreendê-la exige um determinado esforço e uma multiplicidade de olhares, uma vez que nenhum olhar consegue abarcá-la em sua totalidade. Partindo desse princípio, Fernando Pessoa cria arquétipos, sintetização de diferentes perfis espirituais sob uma única personalidade, com o objetivo de observar, analisar e tentar compreender a realidade. Nascem daí os heterônimos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
Álvaro de Campos nasceu em 15 de outubro de 1890, em Tavira, extremo sul de Portugal. Era engenheiro naval formado na Escócia, mas viveu na ociosidade, mais por não sujeitar-se à rotina de um emprego do que por falta de oportunidades para consegui-lo: bater ponto, ficar confinado no escritório, debruçar-se sobre uma prancheta e manipular instrumentos de cálculo eram atividades que não o entusiasmavam.
Poeta futurista, homem do século XX, das fábricas, da energia elétrica, das máquinas, da velocidade, Álvaro de Campos é um inadaptado, vive à margem de qualquer conduta social. Por isso, é considerado o poeta do “não”. Isso, no entanto, não implica que fosse só emoção, sistema nervoso, febre. Álvaro de Campos é, sobretudo, lucidez, razão."

Abaixo, um dos mais célebres escritos de Fernando Pessoa:

LISBOA REVISITADA

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ¬
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul o mesmo da minha infância¬,

Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!

Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo …
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio, quero estar sozinho!

E ESTÁ TUDO DITO

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