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domingo, 13 de setembro de 2015

O multifacetado Asa Filho e a sua visionária Ópera Negra do Portal do Sertão sobressai-se como um oásis no deserto cultural de Feira de Santana BA





Feira de Santana é a maior cidade do interior da Bahia e se destaca pela pujança da sua economia sedimentada pelo fato de ser o maior entroncamento rodoviário do Norte/Nordeste, mas também salta aos olhos a sua raríssima produção cultural


Em meio a esse vazio, alguns abnegados cidadãos tentam fazer algo pelas tradições de Feira de Santana, seja no campo musical, no teatro ou nas artes plásticas, resgatando os valores e as crenças da Princesa do Sertão, como é conhecida Feira de Santana.Sem apoio dos poderes institucionais, a cidade jamais se destacou pelo prisma cultural.

As raras referências nesta área vão sendo dilapidadas ano após ano, a exemplo do restaurante Carro de Boi e a sua outrora famosa boate Gerimum. E aí segue um rosário de espaços vilipendiados como o Mercado de Arte, - em reforma há dois anos e sem perspectivas de reabertura - e o Centro de Abastecimento que, relegado à própria sorte, agoniza em meio ao lixo e à crônica falta de estrutura, só para citar dois dos mais representativos equipamentos que mantêm vivos os valores e a cultura do povo feirense.

Dentre esses lutadores incansáveis, destaca-se Asa Filho, um feirense que, além de músico e agitador cultural montou o 'Cidade da Cultura', um empreendimento que é um misto de restaurante, casa de shows e uma espécie de museu do sertão com a sua decoração ímpar. Lá, ele abre espaço para novos cantores, recebe artistas já com anos de estrada e também mostra a sua arte ao interpretar as mais belas canções da nossa MPB.

Ópera Negra do Portal do Sertão

Asa Filho é o responsável pela manutenção de uma das mais representativas manifestações culturais do município, o Reisado de São Vicente, além de promover prosaicas ‘batas de feijão’, exatamente do jeito que se fazia no século passado. Não satisfeito, ele partiu para uma produção mais ousada que resultou no documentário 'Ópera Negra do Portal do Sertão'. A respeito desse trabalho, reproduzo abaixo uma visão de Clarissa Macedo, que resumiu com maestria a aventura cultural de Asa Filho.

Euriques Carneiro

                               
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A Ópera Negra do Portal do Sertão é título de um documentário cuja relevância do registro cultural talvez só seja plenamente percebida pelas próximas gerações. O Reisado de São Vicente, grupo situado na região de Tiquaruçu, no interior baiano, ainda é um dos polos de resistência à total aniquilação do sentido que uma festa tradicional possui e do valor histórico-social que uma manifestação como esta confere à localidade, ao seu povo e sua marca identitária. 

Para quem não conhece, O Reisado de São Vicente, grupo formado por trabalhadores rurais, é uma fusão artística, visceralmente popular, que exprime a partir da música – e da poesia que lhe fica inerente – hábitos e celebrações tradicionais intrínsecas à região. Essas informações, talvez repetitivas para alguns, já confeririam louvores à produção cinematográfica em pauta. Todavia, o olhar lírico impresso numa espécie de narrativa de viagem, conduzido na tela por um Asa Filho andarilho (Asa, além de músico e dono de um dos estabelecimentos mais charmosos da cidade de Feira de Santana, é Mestre em Cultura Popular), e dirigido por Ícaro de Oliveira, proporciona que integrantes do lugar expressem algumas inquietações sobre a etnia negra que os reveste, os cantos que povoam o trabalho no campo e, em suma, a vivência de tradições, dando, assim, voz àqueles que vivem de perto sua própria cultura, legitimando, ainda mais, a iniciativa do documentário.

A fala livre não deixa o espectador perdido. A costura fílmica é bem realizada e promove, também através de gravações musicais do próprio Reisado, um entrosamento genuíno entre público/película – o que me parece ser um dos objetivos de qualquer produção cultural. Um dos pontos altos é o depoimento de abertura, que imprime no telespectador um pensamento, singelo e eloquente, acerca da diferença de cor de pele; se não me falha a memória, a fala é arrematada da seguinte maneira: “a diferença de cor existe porque não dá pra ser tudo igual, tem que ser diferente” – direta, sem floreios, o depoimento faz refletir sobre o drama da etnia e o precário “argumento” que o preconceito étnico pretende sustentar. 

Para encerrar as linhas, vale mencionar que A Ópera Negra do Portal do Sertão registra tônicas que são, ou deveriam ser, caras a qualquer sociedade que se preocupa com a manutenção de si mesma, a exemplo da discriminação, da memória de um povo, e de todo um corpus sócio-afetivo que caracteriza o lugar. Em síntese, a composição dramática que recobre A Ópera Negra é de forte tecido poético e abre o Portal do Sertão para a entrada de novos interlocutores sociais e de uma atenção voltada para questões que devem ser refletidas pelo bem da preservação salutar de um povo.

Direção: Ícaro de Oliveira

Argumento: Asa Filho e Ícaro de Oliveira

Imagens: Augusto Bortolini, Cassius Borges, Ícaro de Oliveira, Poliana Costa e Thacle de Souza

Som Direto: Breno Tsokas, Lucas Pereira e Pedro Patrocínio

Mixagem e Edição: Pedro Patrocínio Produção:

Atelier Filmes Realização: Orcare e Atelier Filmes

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