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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

2015 marca os 100 anos da “Seca do 15”, uma das maiores estiagens do Nordeste, que assolou especialmente o estado do Ceará



A seca no Nordeste é um assunto por séculos lamentada, denunciada, comentada por agentes políticos, párocos, pastores, bispos, imprensa... Em 1953 Luiz Gonzaga e Zé Dantas compuseram “Vozes da Seca”, um clássico do rosário de sucessos gonzagueanos, onde os autores pediam que o Sul parasse de mandar esmolas do tipo “roupa velha, sapato velho, dinheiro...’ e resolvesse o problema com ações simples, apontadas na letra da música
O céu transparente de Quixadá narrado por Rachel de Queiroz se deixou encobrir por densas nuvens lá pelo mês de março. Pelos prognósticos da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), 2015 será um ano de seca no Sertão Central, a 169 quilômetros de Fortaleza. 

Apesar das previsões de poucas chuvas para o Ceará, o sertanejo mantém a esperança de que as nuvens que deixavam o céu bonito para chover são um sinal de que a estiagem não castigará o nordestino. E de que o cenário deste ano será diferente do de um século atrás quando a chamada 'Seca do 15' deixou milhares de nordestinos à mercê da fome e da miséria.


O livro O Quinze, o primeiro da carreira da escritora cearense Rachel de Queiroz, narra histórias fictícias baseadas no sofrimento real de quem perdeu tudo por causa da seca de 1915, uma das mais devastadoras da história. Mas assim como a personagem Dona Inácia, o sertanejo segue mantendo a fé e rezando para São José, padroeiro do Ceará. Entre os nordestinos há a crença de que se chover no dia 19 de março, dia do santo, o “inverno” será bom – e haverá chuva até maio.


“Você sabe por que, nós, do sertão, ficamos velhos cedo?”, indaga o aposentado Ribamar Lima, 66 anos. “É de fazer careta olhando para o sol para ver se vai chover. Aí engelha tudo”. Ribamar é um dos profetas da chuva, grupo de sertanejos cearenses que se reúne todos os anos em Quixadá e faz prognósticos do tempo baseados na observação de elementos da natureza. “Se as formigas caminham de uma área baixa para uma alta, é sinal de que ali vai alagar. Mas se os pássaros fazem ninho no chão, não vai chover”, ensina Ribamar, segundo o que aprendeu com o pai.

Apesar da seca que assola o Nordeste há três anos e da previsão da Funceme de manutenção desse cenário, lá estava ela: a chuva. Entre o fim de fevereiro e o início de março, havia chovido durante vários dias em quase todas as regiões do Ceará. E o agricultor, aproveitando a terra úmida, já começava a preparar o terreno ou plantava milho, feijão e a palma que servirá de alimento para o gado no “verão”. Às primeiras gotas de água, como que por milagre, a vegetação do semiárido, antes cinza, explode em tons exuberantes de verde.

Mesmo diante dessas chuvas, não há como prever como será o restante da quadra chuvosa, que começa em fevereiro e vai até maio. A Zona de Convergência Intertropical vem mudando a dinâmica do Oceano Atlântico e trazendo chuvas regulares para o estado. Esse movimento, no entanto, também pode sofrer alterações. “Ainda não temos indicações seguras de que as mudanças no Atlântico vão persistir. Desejamos que elas continuem como estão e tragam mais chuvas para recarregar nossos reservatórios”, explica o meteorologista Raul Fritz, da Funceme.


“Não confunda chuvas com inverno”, alerta o profeta Ribamar Lima. No encontro realizado em janeiro, a maioria dos profetas e profetizas disse que o inverno (termo usado pelo cearense para se referir à quadra chuvosa) não seria suficiente para encher os açudes.

Até o momento, eles estão certos. Os 149 açudes monitorados pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) tinham, juntos, até o dia 9 de março, apenas 19% da capacidade total. Alguns deles chegaram a zero. É o caso do Açude Carnaubal, que abastece o município de Crateús, a 355 quilômetros da capital, Fortaleza.

No Ceará, 70% da água dos reservatórios são usados pela agricultura. Para especialistas, trata-se de uma “injustiça hídrica” que só será revertida quando o governo priorizar a destinação da água à população – e não aos setores produtivos.

Apesar das dificuldades devido à escassez de água e do acesso desigual ao recurso, a segurança hídrica é apenas um dos pontos importantes para que o sertanejo crie raízes e permaneça no semiárido. A integrante da coordenação estadual da Articulação no Semiárido (ASA) Odaléa Severo acredita que é preciso garantir ainda o acesso à terra e formas de estocar alimentos para pessoas e animais. “Seca não se combate. É preciso criar mecanismos para viver bem no semiárido”, defende.

Mas antes de desenvolver formas de conviver com o semiárido, o sertanejo foi obrigado a migrar em busca de melhores condições de vida. A história das secas no Ceará é marcada pela figura do retirante que, no início do século 20, foi usado como mão de obra barata e foi alvo de ações higienistas e de isolamento em áreas que ficaram conhecidas como campos de concentração.


Na luta por uma convivência harmoniosa com os efeitos da seca, muitas obras já foram feitas com o intuito de levar água para a população. Desde o início do século passado, o Poder Público mantém órgãos para realização de grandes obras e açudes – que serviam mais a interesses públicos que ao sertanejo pobre. Hoje, 106 anos após a criação do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs), o órgão espera por uma reestruturação e pela renovação do quadro de pessoal – formado, em sua maioria, por servidores prestes a se aposentar.

Há meses os técnicos que mantinham uma estrutura de poços e bombas para a retirada de água do lençol freático decretaram o fim dos trabalhos. Eles retiravam os equipamentos e as tubulações que sugavam o pouco que havia restado do reservatório Carnaubal, em Crateús. Em anos anteriores, o local onde os canos estavam instalados estaria submerso a, pelo menos, 10 metros de profundidade.

Os técnicos mal tiveram tempo de finalizar a retirada dos equipamentos e a esperança do sertanejo veio de novo em forma de água: a chuva.

Referência: Revista Central

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