terça-feira, 7 de julho de 2015

Compositor profícuo, João Silva marcou a carreira de uma legião de forrozeiros, de Gonzagão a Quininho de Valente, de Dominguinhos ao Trio Nordestino





Não existe na MPB, quem tenha maior quantidade de músicas gravadas por diversos artistas (mais de duas mil), do que João Silva. Vejamos alguns: Gérson Filho, Joquinha Gonzaga, Ary Lobo, Marinês e Abdias, Dominguinhos, Quininho de Valente, Pinto do Acordeon, Elba Ramalho, Flávio José...
 

Estudando a vida a obra de Luiz Gonzaga há mais de duas décadas, sempre sou questionado sobre fatos e dados do Rei do Baião, como a paternidade de Gonzaguinha, se ele gostava de ‘tomar umas duas’, entre outras curiosidades. Em 2011, em uma entrevista de rádio, o locutor perguntou: “na sua opinião, quais os mais importantes compositores da carreira de Gonzagão?”

Respondi-lhe: “pela ordem, Humberto Teixeira, Zé Dantas e João Silva. Teixeira, apesar de ter deixado o Ceará ainda nas fraldas, foi capaz de descrever com maestria a vida e as agruras do povo nordestino, compondo as músicas mais representativas da carreira do Gonzaga.

O médico pernambucano Zé Dantas, também marcou presença no mundo gonzagueano e, entre vários sucessos como “A volta da Asa Branca, compôs “Vozes da Seca”, única música inscrita nos anais do Congresso Nacional.

O também pernambucano João Silva, do qual Gonzaga gravou mais de trinta músicas, teve o mérito de resgatar o “Rei do Sertão” do ostracismo que ele se encontrava até então, fazendo-o frequentar outra vez as paradas de sucesso e reerguer a sua bandeira no cenário musical brasileiro.”

O início da parceira vitoriosa iniciou-se no longínquo 1964, quando Luiz Gonzaga gravou no disco "A sanfona do povo" o baião "Não foi surpresa", de sua parceria com João do Vale. Em 1965, foi a vez da marcha junina "Piriri". Em 1966 gravou "Crepúsculo sertanejo", dele e Rangel. No mesmo disco, "Óia eu aqui de novo", aparece sua primeira parceria com Luiz Gonzaga, "Garota Todeschini". Em 1968, no LP "São João do Araripe", aparecem duas composições da parceria entre os dois, "Lenha verde" e "Meu Araripe", uma das mais belas músicas do cancioneiro de Gonzaga, que se tornou um enorme sucesso.

Em 1973, no LP "Nova Jerusalém", Luiz Gonzaga gravou "O vovô do baião", em 1978 compôs com Gonzaga "Umbuzeiro da saudade". Em 1979 "Adeus a Januário", em homenagem ao pai de Luiz Gonzaga. Em 1980, foi a vez da composição "Cego Aderaldo", e em 1983, no disco "70 anos de sanfona e simpatia", Luiz Gonzaga gravou três de suas parcerias, "Cidadão sertanejo", "Forró de Ouricuri" e "Sequei os olhos", esta uma pungente canção sobre a seca que assolou a região nordestina entre 1979 e 1983.

Resgatando Gonzagão

Em 1984 compôs com Luiz Gonzaga o forró "Pagode russo" e no LP "Luiz Gonzaga e Fagner", a composição de abertura do disco é "Sangue nordestino", outra parceria de suas parcerias com Gonzaga. Em 1985 no LP "Sanfoneiro macho", o Rei do Baião gravou seis composições de parceria com João Silva, entre as quais "A mulher do sanfoneiro", além de "Maria baiana" de sua parceria com Zé Mocó e "Amei à toa" com Joquinha Gonzaga, sobrinho do Rei do Baião.

Em 1986 compôs em parceria com Luiz Gonzaga "Forró de cabo a rabo", que deu nome ao disco de Gonzaga daquele ano e no qual aparecem mais duas parcerias entre os dois e ainda "Xote machucador", parceria com Dominguinhos, e "Passo fome mas não deixo".

Uma música em especial marcou o retorno de Gonzagão a ribalta: “Nem se despediu de mim”. O álbum no qual essa música está inserida vendeu mais 500 mil cópias e tocou nas rádios por mais de meia década. Ainda hoje, é uma das músicas mais executadas no período junino e uma das mais belas compostas por João Silva.

Em 1987, mais uma de suas composições, "De fia pavi", deu nome a um disco de Luiz Gonzaga, no qual aparecem ainda "Doutor do baião", "Pobre do sanfoneiro" e "Toca pai", três parcerias suas com o Rei do Baião.

Em 1989, o último ano da vida de Gonzagão, uma composição de sua parceria com Luiz Gonzaga, "Vou te matar de cheiro", deu título ao último disco do Rei do Baião, no qual João Silva participou da gravação de três faixas, "Um pra mim, um pra tu" e "Arcoverde meu", em parceria com Gonzaga, e "Ladrão de bode", com Rui Moraes e Silva. Ao todo compôs mais de 30 músicas com Luiz Gonzaga, todas gravadas pelo Rei do Baião.

Falando da parceria com Gonzagão

Sobre a vitoriosa parceria com Luiz Gonzaga, João Silva falou: “Na maioria das vezes, eu fazia a música e a letra. Às vezes, ele só começava a música e eu terminava. Ele não tinha tempo. Só teve quando adoeceu. O que acontecia é que eu entregava tudo para ele e ele arrumava alguma coisa da letra. Ele chegava e dizia ‘eu quero fazer uma música disso e disso’. Ele uma vez disse "a Bahia gosta muito de mim, vamos fazer uma música e cantarolou: "Maria Baiana pra onde você vai, Maria Baiana pra onde você vai…", perguntei: e o resto? "agora é contigo, nojento" (risos). E assim foi.”

Como compositor, foram mais de 200 músicas e, como produtor, formatou discos de Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Jackson do Pandeiro e Quininho de Valente, entre outros. A carreira de Quininho de Valente, forrozeiro baiano que por mais de uma década emprestou a sua voz ao Trio Nordestino após a partida de Lindú, é fortemente marcada pela presença de João Silva. Além de produzir vários discos, é de autoria dele músicas marcantes da carreira de Quininho, a exemplo de “Vem prá roda rodar” e “Imagina”, entre outras.

Um mestre

Este é o Mestre João Leocádio da Silva. O mais profícuo, fiel e leal parceiro de Luiz Gonzaga. Nos idos de 1988, Gonzaga ia fazer um show no Canecão. Um crítico "alma sebosa", do Rio de Janeiro, escreveu no jornal que aquela música de paraibas ia conspurcar o templo sagrado do samba. Gonzagão se "arretou": "João, vamos dar uma pisa nesse "fela". João retrucou: "Não, Gonzaga, vamos fazer isso com música"!. Seu Luiz não titubeou. Chamou o grande Geraldo Azevedo e, no LP "Ai Tem", ambos cantaram "Taqui Pá Tu", onde os dois craques "dixeram de um tudo" contra aquele beócio. No final da canção Gonzaga fala: "...Sabe, Geraldinho, o que esse cabra é, ele é um fela..."

Euriques F. Carneiro

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