quinta-feira, 2 de julho de 2015

COM O IMPAGÁVEL ‘CEM ANOS DE SOLIDÃO’, GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ CRIOU UMA GERAÇÃO DE LEITORES

A América Latina é uma região diferenciada do mundo — quanto à história da construção de sua identidade. As instabilidades políticas, aliadas à insuficiência de recursos, muito contribuiu para a eclosão de movimentos típicos da alma latino-americana: ditaduras, guerras, guerrilhas, repressões, exílios e exportação de refugiados são fatos próprios de nossa história. Uma história de solidão, como bem definiu um de seus maiores intérpretes

Uma das mais emblemáticas localidades fictícias da literatura moderna, Macondo ainda povoa a imaginação de quem leu a obra prima de Márquez, “Cem anos de solidão”. O que sabemos de Macondo é que ela é “uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos", incrustada entre montanhas, um pântano, uma selva ao norte e próxima a uma costa marítima.

Assim, podemos perceber que qualquer lugar da América Latina poderia se encaixar na utópica cidade, facilitando a identificação com a narrativa. A história de Macondo se funde com a história da família Buendía, narrada em ‘Cem anos de solidão’, livro o qual rendeu o Prêmio Nobel da Literatura para Gabriel García Marquez em 1982.

Em seu discurso na entrega do prêmio, Gabo fala claramente de sua preocupação com a América Latina e o nomeia de “A solidão da América Latina”. Nele, cita problemas em diversos países, questões históricas ligadas à colonização, mas, acima de tudo, expressa sua fé numa “nova e arrasadora utopia de vida, onde ninguém possa decidir pelos outros até mesmo a forma de morrer, onde de verdade seja certo o amor e seja possível a felicidade, e onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham, enfim e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.”.

García Márquez também teve o seu “Dom Quixote”



A exemplo de Cervantes, Márquez também teve o seu “Dom Quixote” e as suas proezas surreais: promoveu trinta e duas rebeliões armadas, não ganhando nenhuma delas; teve dezessete filhos com dezessete mulheres diferentes; escapou de quatorze atentados, de setenta e três emboscadas e do pelotão de fuzilamento; sobreviveu a uma tentativa de suicídio. Foi liberal até o fim, lutando contra os conservadores.

Depois dessa odisseia amalucada, morreu na mais absoluta solidão, na velhice. Velhice que, para o Dom Quixote de García Márquez, nada mais era do “que um pacto honrado com a solidão”. Morrer só, “enfiando a cabeça entre os ombros, como um franguinho, e ficou imóvel com a testa apoiada no tronco da castanheira. A família não ficou sabendo até o dia seguinte, às onze da manhã, quando Santa Sofia de la Piedad foi jogar o lixo baldio dos fundos e reparou que os urubus estavam baixando”.

Este é o perfil do coronel Aureliano Buendía, um herói de causas perdidas, que tanto se assemelha com o espírito de nossa América Latina, tão cheia de revoluções, golpes e contragolpes sem sentido. Por meio do espírito quixotesco do coronel Aureliano Buendía, García Márquez revela nossa identidade, ao conectar o micromundo mágico das histórias contadas pelos seus avós com o terreno mais nobre que a literatura proporciona aos leitores: o deleite da realidade interior com a exterior. Ou seja, a conexão do espírito de nosso ser com a realidade política e econômica de um continente solitário.

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