domingo, 14 de junho de 2015

Luiz Gonzaga: mais que “O Nordestino do Século XX”, o herói nordestino o os últimos dias da sua vida





Os últimos dias de vida de Gonzagão foram de muito sofrimento físico. Cabra macho que era, um matuto fiel às suas raízes, o “Rei do Sertão” não era de ir a hospital. Preferia ir dando um jeito com remédios ou tomando chás. Mas as pernas doíam e os shows, em meados dos anos 1980, eram feitos sentados e quase sem pegar nos 10 quilos de uma sanfona de 120 baixos


Como não havia mais chás ou remédios que aliviassem a dor de Luiz, ele foi para um hospital no Recife e já nos primeiros exames os médicos decidiram que ele teria de ficar internado. Dona Helena chegou a visitá-lo, mas quem cuidava dele era mesmo Edelzuíta. Foi uma internação longa, daquelas que aperreava o rei do baião. Tanto que, durante o período de internamento, ninguém o demoveu da decisão de ir a um show, no Teatro Guararapes, quando se apresentou com Gonzaguinha, Alceu Valença e Dominguinhos. Era um 6 de junho. Tudo contra a vontade e opinião dos médicos. Luiz foi na cadeira de rodas e não pegou na sanfona, mas não podia faltar ao que foi seu último show. Um privilégio para quem conseguiu ver a apresentação.Em 1989, o rei do baião estava com 77 anos e o câncer na próstata já tinha avançado sobre o tecido ósseo. Os anos de osteoporose também não ajudavam. Em maio daquele ano, ele passou mal logo depois de uma apresentação em São Lourenço da Mata, a cerca de 40 quilômetros da capital pernambucana. Ele precisava ser internado.

No auge do sucesso
Nos anos 50, famoso e ganhando muito bem para os padrões artísticos da época, sua casa recebia muitos artistas, políticos e empresários. Passou a levar cantores, sanfoneiros e compositores nordestinos para tentar a vida no Rio, onde cedia a casa, bancava tudo, só para ver se o cara era desenrolado.Fátima Marcolino, filha do compositor Zé Marcolino, autor de clássicos como “Numa Sala de Reboco” e “Cacimba Nova”, entre mais de uma dezena de composições gravadas por Gonzaga, lembra quando ela e toda a família saíram de Serra Talhada (PE) e foram, em 1961, morar na casa de seo Luiz. “Ficamos nove meses lá, entre as várias casas que o seo Luiz tinha. Toda a família dele morava lá, mas aí meu pai não gostou e decidiu voltar.” A aventura em terras cariocas teve um início difícil, mas também uma rápida ascensão, seu momento de glória, de rei, e enfim, o declínio. Até que depois de 43 anos longe de casa, ele decidiu voltar para Exu, seu Araripe, seu relicário.

Em uma entrevista à jornalista Leda Nagle, dois anos antes de morrer, o seu Luiz disse que a melhor coisa do mundo é conseguir alguma coisinha na cidade grande e poder voltar para sua terra. Como um sertanejo pé de serra, tentava justificar porque tinha voltado a morar em Exu, sertão do Pernambuco. Mas nem o povoado do Araripe, nem o próprio sanfoneiro eram os mesmos. Nasceu como um pobre sem futuro, morreu como um rei. Tinha uma vaidade de artista, daquela que se revela mesmo longe do palco. Nos sete anos que ficou por lá, até morrer em 1989, Gonzagão era como uma segundo prefeito da cidade, ou melhor, como um homem santo, que operava milagres como o posto telefônico de Exu, item de luxo que só os grandes municípios dispunham.

O Parque Aza Branca foi um sonho antigo de Luiz. Ao voltar para Exu construiu uma casa bem na porta da cidade, com apartamentos separados, lugar para ensaiar e receber visitas. E, claro, um lugar amplo para fazer festança. Além da propriedade, também comprou mais cinco fazendas, terrenos pela cidade, construiu um posto muderno, segundo ele, e vários outros pequenos empreendimentos. Mas logo teve que vender as fazendas e ficou meio apertado de grana. “Ele era desorganizado. Por isso mesmo que casou com Dona Helena, que era contadora, organizadinha”, acrescenta Reginaldo Silva, que foi o empresário e o homem que resolvia os shows, a divulgação e as turnês de Gonzaga desde 1977.

Ao cantar o Nordeste, Luiz deu um novo significado ao universo do sertão, da vida nas fazendas. A fome, a seca, os sonhos e a migração, tudo isso revelava uma visão política e social de um pedaço de terra que era pouco conhecido no restante do Brasil. A jornalista francesa Dominique Dreyfus, que fez a mais importante biografia sobre o rei do baião explica esse desconhecimento. “Na década de 40, as pessoas do norte não sabiam o que acontecia no sul, só ouviam falar, só ouviam histórias de que era uma terra de oportunidades. E quem era do sul, achava que o Nordeste era uma terra sem lei, de cangaceiros, que não existia ordem. A música de Gonzaga começou a mostrar um novo aspecto deste Nordeste”, explica a jornalista, que também é doutora em música brasileira.

Fim da linha

Apesar de voltar a fazer sucesso nos anos 1980, o rei já estava cansado. Já tinha pensando em parar de cantar em 1967, quando os cabeludos estavam em alta na TV e nos jornais, quando ninguém queria mais saber de baião, só de rock e Jovem Guarda. Luiz Gonzaga não aparecia na imprensa e o rei se sentia acuado. “Ele chegou pra mim e disse que queria uma música para parar de cantar. Eu disse: que conversa é essa?, Luiz”, lembra Onildo. “É que esse pessoal da imprensa do Rio de Janeiro não quer mais saber de mim, quer saber das novidades, então vou parar de cantar e voltar pra onde eu vim”, afirmou Luiz. Onildo, em um primeiro momento, disse que não ia fazer a música, porque não concordava com a ideia. Mas depois de um encontro com seu parceiro, o também caruaruense Janduhy Finizola, surgia a canção “Hora do Adeus”, que fez o sanfoneiro cantar aos quatro pulmões “Vou juntar tudo dar de presente ao museu/ é a hora do Adeus/ De Luiz rei do baião”.

A história, contudo, não terminaria nesse ponto. Não demorou para que o rei do baião percebesse que os novos cabeludos, na verdade, tinham a sua música no DNA e não se envergonhavam em dizer para a imprensa que a grande inspiração, da Tropicália, por exemplo, vinha também do Nordeste cantado por Luiz Gonzaga. E não só, mas também a indumentária, o estilo, a forma de pensar a música. “Até para a bossa nova ele era um pilar, a própria ‘Bim Bom’, de João Gilberto, era um baião”, explica Reginaldo Silva. “Aí foi quando os cabeludos começaram a ir atrás de Luiz, Gilberto Gil, Caetano,Tom Zé. E ele ficou todo taludo, orgulhoso, falava pros amigos que era o pai musical de todos esses.” Era um reencontro com o rei. Mais que isso, era a própria música de Luiz Gonzaga ganhando novos aspectos, se evoluindo, com um legado que até hoje, 23 anos após sua morte, mostra sua vitalidade.

Mas o homem Luiz Gonzaga do Nascimento tinha de partir. Ele morreu depois de ficar 42 dias internado no hospital. Teve uma parada cardiorrespiratória em 2 de agosto e – segundo os médicos – foi tocar sanfona para o “padim” Cícero, ao lado do pai Sei Januário.

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