segunda-feira, 15 de junho de 2015

Apesar de um canal estatal que, obviamente, tentar maquiar a imagem de ditador de Pútin, o RT tem programas bem produzidos e com conteúdo interessante


Para quem tem o canal fechado Russia Today (RT) vale a penas ver o documentário “Chechênia: república de contrastes”. Profeticamente, o programa mostrou o lado bom de uma terra devastada inúmeras vezes ao longo da história poucos dias antes de mais um capítulo negro para a pequena república caucasiana: os atentados na maratona de Bostom

Antes de falar do programa, um esclarecimento. O Russia Today é um canal de notícias no melhor estilo CNN, totalmente em inglês (embora tenha versões em russo, espanhol e árabe) e com estrutura de dar inveja. Começou a transmitir em 2005, para ajudar a mudar a imagem que os ocidentais têm da Rússia: neve, comunismo e pobreza. E, por se tratar de um canal estatal, (chapa branca), ajudar a dar um levante na imagem combalida do polêmico presidente e dublê de primeiro-ministro Vladimir Pútin.

Bom, agora, vamos ao documentário sobre a Chechênia. Com 25 minutos, o especial não foi a fundo nas grandes questões do país. Apenas mostrou que, após duas sangrentas e longas guerras, sob o falso pretexto da “independência”, que deixaram cerca de 300 mil mortos, o país, enfim, consolida seu reerguimento. Pelo menos na capital, Grozny, única parte mostrada no programa.

O início já é um prelúdio do que virá. Diz o narrador: “Antes, eles explodiam bombas, agora, constroem casas. Onde havia ruínas, agora há arranha-céus e hotéis cinco estrelas”. A capital Grozny é mostrada como uma cidade islâmica, na periferia da Rússia, onde o luxo convive com a tradição muçulmana, onde o consumismo disputa espaço com a sharia e a milenar herança do povo local, os orgulhosos chechenos.

De fato, a Chechênia pode ser considerada uma república islâmica, já que cerca de 96% de sua população 1.3 milhão professa a fé. Uma minoria, que beira os 4%, segue o catolicismo ortodoxo ou armênio. Uma pequena polêmica – que, aliás, é a grande propaganda turística da república caucasiana – é sobre aquela que seria a ‘maior mesquita da Europa’, a Ahmad Kadyrov. Em primeiro lugar, os europeus tremem de receio ao incluir a Chechênia na Europa (embora seja, geograficamente, correto). Em segundo lugar, a Mesquita de Roma ainda é maior que o templo checheno.

Ainda seguindo os passos do islã na república, o documentário mostra um menino de sete anos como representante de um sistema educacional rígido, no qual aspirantes religiosos devem decorar o Corão em árabe – mesmo sem entender a língua árabe. Para o menino, a definição paraíso e inferno é simples. O primeiro é o lugar dos que seguem a fé muçulmana, enquanto o segundo é o lar dos infiéis.

Além da religião, os estudantes têm aulas de esporte, para mostrar que a vida é uma luta. Mas uma inconsistência me chamou atenção: de acordo com a Sharia, a lei islâmica, não se pode atingir a cabeça. As imagens nos levam imediatamente à lembrança de Muhammed Ali, um dos maiores boxeadores de todos os tempos e o Mal de Parkinson que ele adquiriu fruto dos inúmeros golpes na cabeça, ao longo da sua carreira.

Outra inconsistência é sobre o Mawlid (aniversário do profeta Maomé). O documentário mostrou os fogos, a festa, a celebração, mas, para quem não conhece os princípios, fica com a imagem que sempre foi condenado pelos sunitas, que, teoricamente, só festejam Eidul Fitr (final do Ramadã) e o Eidul Adha que vem antes do Hajj (a peregrinação de Meca à Medina). Uma conhecedora esclareceu: “Todas as outras comemorações são consideradas invenções e inovações, pois não constam nas tradições islâmicas e nos exemplos deixados pelo Profeta Muhammad. Alguns países que celebram o Mawlid são muito mal vistos pelo mundo islâmico.”

Uma coisa interessante que pode-se notar é sobre a dança. No caso, tanto a Lezginka, típica dança cossaca, quanto os movimentos típicos locais, sobre mulheres erguerem os braços sobre os homens, são justificados pela religião muçulmana. Porém, tanto na Armênia, quanto na Geórgia, e até mesmo na vizinha Ossétia do Norte, pode-se ver as mesmas danças, com pequenas variações. O que no sleva a pensar que, dificilmente, isso tenha mesmo a ver com o Islã.

Além dos aspectos religiosos, o programa se esforçou para mostrar uma Chechênia que tenta superar os traumas da guerra, com arranha-céus, hotéis como o Grozny City, o único cinco estrelas no Cáucaso, concursos de modelo (adaptados para o estilo muçulmano), grifes caríssimas de moda, como a Firdaws, que vende roupas típicas, cravejadas de diamantes Swarovski…

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