domingo, 10 de maio de 2015

Documentário “Esse Viver Ninguém me Tira” traça um perfil de Aracy Guimarães Rosa, o Anjo de Hamburgo





A trajetória de Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa tem destaques que vão muito além do que ser simplesmente a esposa do escritor Guimarães Rosa
Aracy, que faleceu em 2011 aos 102 anos, é a única brasileira inscrita na Avenida dos Justos entre as Nações, que fica dentro do Museu do Holocausto em Jerusalém. Isto porque quando viveu em Hamburgo, na Alemanha, Aracy trabalhou no consulado brasileiro, e emitiu secretamente vistos e passaportes para muitos judeus, ajudando-os a fugir da Alemanha nazista. 

Ela passou a ser conhecida como Anjo de Hamburgo. Quantos ela emitiu? Talvez uma centena deles. A conta é incerta. A própria Aracy, que morreu em 2011, aos 102 anos, evitava comentar. Mas os detalhes vão surgindo. Alguns revelam ironias históricas: na Alemanha, seu único filho, Eduardo Tess, entrou em uma fila com outras crianças para cumprimentar Adolf Hitler.

“Esse Viver Ninguém me Tira”

Destaque nos Festivais de Gramado e do Rio em 2014, o documentário “Esse Viver Ninguém Me Tira” busca compreender as razões que levaram Aracy a preservar corajosamente vidas desconhecidas. Através de entrevistas com famílias salvas por ela, amigos e admiradores, o diretor estreante Caco Ciocler e a co-realizadora Alessandra Paiva costuram um retrato de Aracy que não resvala em detalhes de sua vida pessoal, para que a história da personagem não ficasse à sombra do famoso marido.

A revelação é feita por Plínio de Arruda Sampaio – que morou na mesma rua e era colega de Eduardo – no documentário Esse Viver Ninguém me Tira, longa de estreia do ator Caco Ciocler. “O Edu me contou uma vez que ele cumprimentou Hitler”, diz Plínio no filme. Hoje com 85 anos, o filho de Aracy confirma. Diz que ficou indeciso, até que resolveu se enfileirar para cumprimentar o líder alemão. “Ele perguntou de onde eu era”, recorda Eduardo. Outra coincidência histórica entre personagens tão distantes: Aracy (1908) e Hitler (1889) nasceram no mesmo dia, 20 de abril, com 19 anos de diferença. “Em meio ao horror inventado por ele, Aracy descobriu quem era ela”, escreveu a jornalista e escritora Eliane Brum em 2008, quando Aracy completou 100 anos e há muito tempo era conhecida como “anjo de Hamburgo”.

Paranaense de origem, Aracy foi cedo para São Paulo, onde teve uma criação de classe média alta. Em 1934, aos 26 anos, separada e com um filho de 5, deixou o Brasil e foi morar na Europa (sua mãe era alemã), na casa de uma tia. Depois de algum tempo, foi trabalhar no consulado em Hamburgo, onde conheceria João Guimarães Rosa, o cônsul adjunto, que tinha duas filhas (Vilma e Agnes) do primeiro casamento (com Lygia Cabral Penna). Já estavam juntos, mas casaram-se por procuração, no México, em 1942 – ainda não havia o divórcio. E ficariam juntos até a morte dele, em 1967. O livro Grande Sertão: Veredas, de 1956, começa com esta dedicatória: “A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro”. Ela era Ara. Ele era Joãozinho.

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