quinta-feira, 16 de abril de 2015

Islândia: o melhor país do mundo para as mulheres



Avanço em relação a assuntos como aborto e sexualidade, salários iguais aos deles, longa licença maternidade, divisão dos trabalhos domésticos. A Islândia ultrapassou a Noruega no ranking que define o melhor lugar do mundo para elas
Katrín Jakobsdóttir tem uma história que é um marco na luta das mulheres islandesas por direitos igualitários. Tida como uma mulher inteligente, bonita, familiar, calorosa e prestativa, a sua nomeação para o ministério da Educação, Ciência e Cultura, aos 33 anos, em 2009, elevou o número total de ministras da Islândia para exatamente a metade do gabinete. Além do ministério, no Parlamento 43% das cadeiras são ocupadas por elas.
Na mesma época em que Katrín virou ministra, Jóhanna Sigurdardóttir acabara de ser indicada como primeira-ministra da Islândia. Ela é a primeira mulher abertamente gay a ocupar esse cargo no mundo. Junte os três fatos e é fácil ver por que a Islândia superou a Noruega no topo do mais recente Índice de Diferença de Gêneros Global do Fórum Econômico Mundial (O Brasil fica em 85º lugar). 
Com base em fatores como probabilidade de chegar a altos cargos, igualdade de salários e licença maternidade, a Islândia é oficialmente o melhor lugar do mundo para ser mulher.

Situação econômica estável há 10 anos

Há dez anos o país vivia numa excelente situação. Já naquela época 82% dos islandeses tinham acesso a internet, 60% usava celular e o país ostentava o recorde mundial de pagamentos feitos com cartão de crédito. Hoje se sabe que era uma espécie de “síndrome de novo rico”. Colônia da Dinamarca até 1944, o país amargou cinco séculos de submissão e pobreza até a independência. 
No começo dos anos 2000, os islandeses não tinham, até então, registro de terem vivido de maneira tão rica. Só que essa sensação de festa não durou muito. Com a crise global de 2008, a Islândia sofreu mais que qualquer outro país do mundo, e só evitou a falência com a ajuda de bilhões do Fundo Monetário Internacional. Era necessário reinventar boa parte de seu modo de vida. E isso começou dando fim à chamada “era da testosterona” — os anos de sucesso econômico antes do estouro —, que foi posta de lado por Katrín e suas colegas. “Tudo aconteceu muito depressa”, diz ela. “Houve protestos, as pessoas queriam mudanças.” 
E conseguiram quando o governo renunciou em janeiro de 2009. Katrín e suas colegas estão agora transformando a Islândia no Estado mais feminista do mundo. Uma das primeiras metas é o fim da indústria sexual. Para isso aguardam a aprovação de uma lei que vai fechar todos os clubes de strip-tease do país. Assim, a Islândia tornou-se o primeiro país do mundo a proibir a nudez e a dança erótica não por religião ou moral, mas sim por feminismo.
Sem machismo

Chegar até aqui, no entanto, só foi possível porque as islandesas vivem num contexto no qual o machismo vem sendo limado há muito tempo. É comum que, enquanto elas trabalham, alguém esteja cuidando da casa e das crianças — e não é a babá. “Eu tenho um marido muito legal”, diz Katrín, rindo. “Ele ficou orgulhoso de mim quando consegui o cargo, mas também tivemos sentimentos dúbios. Um cargo como esse é uma pressão para qualquer relacionamento.” Gunnar, o marido, é professor e eles têm dois trabalhos de meio período e cuida das crianças. “Não temos nenhuma empregada. Simplesmente funciona”, diz Katrín.

E funciona, em parte, porque começa com uma premissa saudável. Na Islândia, a mãe e o pai têm direito à licença quando nasce o bebê. São nove meses de licença — três meses cada um e mais três para ser decidido entre eles. “Eu já tirei cinco meses e meu marido, quatro”, diz Katrín. Outro aspecto especial no cotidiano do país é a idade em que as mulheres costumam ter seu primeiro filho. 
Enquanto na maior parte do mundo moderno a maternidade é adiada, lá acontece por volta dos 25 anos. Mais do que isso: não ter um marido não causa estranheza. Há uma mentalidade aberta em relação às mães solteiras — a vida não acaba se você estiver sozinha e grávida. E em parte isso acontece por se tratar de uma sociedade avançada em seus princípios, mas também devido ao ótimo sistema de creches. Além disso, famílias e amigos se ajudam. Svala Georgsdóttir, 31 anos, que teve seu filho aos 19 e rompeu com o pai dele pouco depois, não sentiu preconceito por ser tão jovem na época da gravidez. Simplesmente porque é claro para todo mundo que ainda é possível se educar, realizar sonhos e ter uma profissão — com ou sem filho.

E, assim como cortar a grama ou lavar os pratos, a responsabilidade por tomar a iniciativa no sexo cabe igualmente aos dois. E, quando acontece uma gravidez indesejada, existe uma atitude igualmente pragmática: a Islândia foi o segundo país do mundo a legalizar o aborto, em 1935 — atrás somente da Rússia, que legalizou em 1920.

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