domingo, 1 de março de 2015

Igreja de Nossa Senhora do Carmo: séculos de história agora aberta ao público após restauração


Neste 1º de março, quando a cidade do Rio de Janeiro completa 450 anos, cariocas e visitantes poderão visitar a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, totalmente restaurada após quase uma década em obras

Restauro artístico

A igreja foi fechada para obras desde o dia 18 de setembro de 2006, e só foi reaberta em 08 de março de 2008, totalmente restaurada. Equipes interdisciplinares de arqueólogos, restauradores, arquitetos, historiadores, educadores, engenheiros, etc, trabalharam nas diversas frentes do trabalho de restauração e nas pesquisas realizadas.

A talha dourada da igreja – um trabalho do mestre Inácio Ferreira Pinto, executado por volta de 1785 – estava coberta por várias camadas de sujeira, chamadas crostas negras, formadas pela fuligem dos veículos que passam diariamente na movimentada Rua Primeiro de Março. O processo de restauro, que envolveu uma equipe de 40 pessoas, seguiu o seguinte roteiro: 

Higienização –aspiração da poeira e de camadas de sujeira, como, por exemplo, excrementos de animais.
Limpeza mais detalhada – que utiliza uma combinação de detergente alcalino e sal EDTA. Essa etapa já começou a destacar a beleza do douramento original. Também revelou as muitas áreas que precisavam ser recuperadas.
Fixação da camada de ouro que estava solta da madeira.
Consolidação das partes ocas e afetadas por cupins – a equipe encontrou diversos pontos em que foi constatada uma perda significativa ou total do ornato. Nesses casos, foi utilizada resina para recuperação da forma original da peça. 

Aplicação do bolo armênio – argila especial que serve de base para o douramento. Essa é apenas uma das muitas técnicas tradicionais utilizadas na restauração de um patrimônio histórico. Ao longo de todo o processo, os restauradores procuraram preservar não apenas essas técnicas, mas também utilizaram, sempre que possível, os mesmos materiais empregados na época. É o caso da cola de coelho, que serve para fixar as folhas de ouro, e dos brunidores (polidores), que têm pontas de ágata em diversos formatos para alcançarem todas as reentrâncias da talha rococó. 

Aplicação das finíssimas folhas de ouro de 22 quilates (foram usadas, ao todo 22.500 folhas), que é a etapa mais delicada. De tão finas, as folhas podem se desfazer até mesmo com um sopro.
Por fim, foi feito o polimento de alguns detalhes dos ornatos – num efeito que, ao contrastar com as áreas mais foscas da peça, dão um brilho sutil à talha – e a aplicação de verniz.

As paredes receberam tinta esmalte a base de água na cor bege claro. A tonalidade foi escolhida depois de mais de cem prospecções estratigráficas – camadas de tinta são retiradas em diversos locais da igreja para se descobrir quais eram as cores que ficavam por baixo das muitas repinturas que o local recebeu. Com esse tipo de teste, foi possível encontrar até mesmo técnicas de pintura diferentes, como o estêncil (pintura com moldes vazados) e pinturas imitativas de mármore, utilizados durante algum tempo no interior da igreja.

Também foram restauradas as 12 telas com pinturas a óleo que decoram o interior da Antiga Sé, além da pintura em madeira no teto da Capela Mor e a tela retrátil do altar-mor.

A pintura do forro da capela-mor é um trabalho do pintor brasileiro José de Oliveira Rosa – nascido no século XVIII, foi o chefe da Escola Fluminense de Pintura – e mostra Nossa Senhora do Carmo (padroeira da igreja e da ordem que leva seu nome) entregando o escapulário a São Simão Stock. A recuperação dessa obra durou cerca de cinco meses, nos quais, cinco restauradores se revezavam em andaimes que mais se pareciam com camas, montados a cerca de 15 metros de altura. 

Os 12 quadros ovais, representando os 12 apóstolos, são os únicos que puderam ser restaurados no ateliê, fora da igreja. As pinturas são de José Leandro de Carvalho – que foi retratista oficial da corte.
Foi encontrada na igreja uma tela retrátil, de 7m por 2,5m – espécie de painel que protege a imagem de Nossa Senhora do Carmo no altar-mor. A pintura é de autoria desconhecida, mas os restauradores descobriram, na borda da tela, uma inscrição em latim: Roma anno jubilae MCM (Roma, ano do jubileu 1900).

Restauro das fachadas


Do lado de fora, um outro grupo de restauradores se dedicou a recuperar as fachadas. Como são de épocas diferentes, foram construídas com técnicas distintas. Na fachada principal (datada do início do século XX), que já tinha sido restaurada em 2004 com recursos municipais, optou-se pela aplicação de velatura – isto é, várias demãos de pigmento e adesivo que deixam transparecer (velar) o fundo, de cimento e pó de pedra.

Já a fachada lateral (voltada para a Rua Sete de Setembro) e a posterior (para Rua do Carmo), datadas do final do século XIX, tiveram que passar por prospecções estratigráficas para se descobrir a técnica original empregada, uma pintura que imitava granito e que foi totalmente refeita.

Também foi preciso refazer vários ornatos e detalhes dessas duas fachadas. Em um ateliê no próprio canteiro de obras foi possível reproduzir fielmente cada peça que faltava. Moldados em formas de silicone, os novos ornatos receberam o mesmo tipo de pintura dos originais.

Na fachada que dá para a servidão – mais se parece com um corredor de serviço que atende (ou serve, como o nome diz) às duas igrejas vizinhas – o trabalho foi mais fácil. Feita no século XVIII, essa é uma construção tipicamente colonial, com arquitetura simples e paredes caiadas.

Tecnologia moderna


As obras incluíram ainda toda a estrutura para o funcionamento do som e luz. E a tarefa não foi fácil. Especialmente porque nenhuma fiação ou outro equipamento moderno pode descaracterizar o interior do templo. Sendo assim, o novo sistema elétrico foi todo camuflado, e o mesmo foi feito com os equipamentos de prevenção a incêndio e intrusão.

Já nas outras áreas da construção, foi possível até reformar cômodos inteiros. É o caso dos banheiros, que ganharam instalações modernas e mais adequadas ao fluxo maior de visitantes. Sacristia e secretaria também ganharam espaços mais adequados. A pia batismal, feita em mármore e prata, foi para o batistério criado ao lado da torre.

Além disso, também foi preciso recuperar os corredores de acesso (que tiveram, na maioria das vezes, o ladrilho hidráulico original preservado) e criar as áreas destinadas ao museu de sítio arqueológico. Nesses locais, em contraste com a rusticidade de muitos materiais descobertos abaixo do nível atual da igreja, foram instaladas passarelas de metal, para garantir a acessibilidade plena em todo o térreo da edificação, com várias exposições abertas ao público, enquanto vidro e aço foram usados nas exposições educativas.

A Antiga Sé também ganhou iluminação monumental externa. O projeto permite, do lado de fora, destacar a fachada e, do lado de dentro, fazer várias composições diferentes, que vão do espetáculo do som e luz a ambientações especiais para missas e casamentos.

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