quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O retorno dos discos de vinil leva-nos à atualíssima expressão de Antoine Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”

Em meados da década de 90 foi decretada a morte dos discos de vinil, os chamados ‘bolachões’, que reinaram absolutos desde os anos 20 do século passado. Os recém chegados CDs não arranhavam com facilidade, ocupavam pouco espaço, tinham maior capacidade de armazenar músicas e o toca discos era muito menor que o pick up com suas agulhas que quebravam com frequência

Após ter seu fim decretado pela indústria, os discos der vinil voltam a ganhar espaço nas prateleiras das já escassas lojas de discos e catálogos de venda online. No Brasil, artistas de uma nova geração - em sua grande maioria, da música independente - afinam seus repertórios na mídia que é a aposta para suceder os já obsoletos Compact Disc (CD): o vinil. Quem diria!

Exagero talvez. Mais preciso é dizer que, diante da popularização do mp3, transmitido massivamente pela internet e conduzidos facilmente em pen drives, o CD começa a entrar em desuso comercialmente, sendo relegados, em muitos casos, ao patamar de ferramenta promocional dos novos lançamentos. Nesse caso, os discos de vinil ressurgem como uma mescla de opção vendável, produzidos em séries limitadas para os fãs mais aguerridos; ideal de qualidade, reproduzindo um som orgânico, sem as perdas das digitalizações e compressões; e como realizador de sonhos, dando aos artistas da nova geração o gosto de ter suas obras impressas na mais clássica e cultuada das mídias.

Lançamentos

"Quando pensei em gravar o disco, a primeira vontade era fazer em vinil. A ideia da capa, projeto gráfico, foi todo pensado para vinil. Sempre gostei muito, especialmente da arte", comenta a cantora e desenhista Tulipa Ruiz, que em 2011 debutou em vinil com seu disco Efêmera (2010). Lançado cerca de um ano depois do CD, o vinil veio em edição limitada de 500 unidades, prensadas em Londres pelo selo Vinyl Land e vendido em shows e pela internet.

"Gosto muito do ritual que é ouvir o disco. Você vai e escolhe, depois tem que virar o disco. Parece que a audição vem em outra velocidade. Me encanta esse ritual todo, esse tempo de escuta", diz Tulipa, revelando-se apaixonada pelo formato. No hall de lançamentos de 2011 estão ainda Criolo, Planta e Raiz, B Negão, Karina Buhr, Lucas Santanna, Autoramas, Nina Becker, DJ Tudo, China, Bixiga 70, Anelise Assumpção e ainda nomes vinculados a grandes gravadoras como Nação Zumbi, com "Fome de tudo"; Pitty, com "Chiaroscuro"; e, em 2010, "África Brasil" e "A Tábua de Esmeralda", de Jorge Bem; "Nós vamos invadir sua praia", do Ultraje a Rigor; e "Onde Brilhem os Olhos Seus", de Fernanda Takai.

"Essa volta é interessante porque as pessoas voltam a ouvir o disco inteiro. Isso pega um lado conceitual do projeto, que se perde um pouco com o CD, com o mp3", argumenta Beto Bruno, vocalista da banda Cachorro Grande, que relançou em 2010 em vinil o seu álbum "Cinema" pela Polysom, única fábrica em atividade no Brasil.

Apesar de estar em início de carreira, formada em 2010, a banda independente Bixiga 70 investe no vinil como formato ideal para suas produções. Eles estrearam em disco pelo vinil, com o compacto "Di Malaika", lançado em 2011 e, ainda no mesmo ano, o LP "Bixiga 70".

"A nossa ideia sempre foi lançar vinil. Além de metade da banda ter começado a vida musical com vinil, nós também sabemos que a nossa área de atuação é bastante ocupada por Djs", argumenta o guitarrista da banda, Maurício Fleury, destacando, além da questão afetiva, o lado comercial do disco vinil. Por fazerem uma música bastante apreciada por Djs que utilizam vinil, explica, o lançamento no formato veio como uma forma de ampliar a divulgação do som do grupo.

A obra, destaca, é pensada primeiramente, no entanto, para o formato vinil, trazendo faixas bônus complementares no CD e mp3. "Pensamos lado A e lado B, a ordem das músicas. É uma opção estética que é anterior ao disco estar pronto. Tudo foi pensado para termos um ´discão´ como os que a gente sempre admirou", reforça Fleury.

Para o público, defende o músico, ao contrário do que acontece com o CD, ainda que possuam as músicas em mp3, o vinil é ainda um objeto de desejo, com valor, arte e qualidade sonora diferenciada. "Esse fenômeno mundial da volta do vinil é sintomático de uma exigência do publico. É um objeto que traduz um pouco a relação que o fã tem com o som", argumenta. Em pouco mais de um ano, os discos do grupo já registraram cerca de 20 mil downloads e a banda vendeu mais da metade do material gravado em vinil, entre 500 Lps e 500 compactos.

O resgate da produção é feito no exterior

A nova onda de difusão do vinil, esbarra, no entanto, em um problema estrutural: a produção. Todas as fábricas brasileiras em escala industrial foram fechadas após 1997, quando foi decretada a morte comercial do formato. Encarando o desafio de produzir os discos fora do Brasil e importar para venda no País, o representante da fábrica tcheca GZ Media, Clênio Lemos, já lançou discos de 60 artistas.

Cearense, natural de Jaguaretama, ele reside na República Tcheca desde 2009, quando começou efetivamente a produzir os discos. Proprietário de lojas de disco na Inglaterra, ele teve que fechar as portas após a queda na venda de Cds. Trabalhando com a GZ desde 2008, ele custou a convencer artistas brasileiros da viabilidade e atualidade de se lançar em vinil. "Quando cheguei, o pessoal falou, ´isso acabou, volta para Europa´", conta. "Mas eu insisti, voltava, mostrava para um, para outro, ia nas gravadoras. O primeiro pedido foi do DJ Tudo (Alfredo Belo)", completa.

Aos poucos as encomendas deslancharam e hoje ele já contabiliza no currículo nomes como a Orquestra Contemporânea de Olinda, Sepultura, Bixiga 70, China, BID, Planta & Raiz e até Wanessa (ex-Camargo). Ele avalia 2011 como o ano de maior aumento na procura por lançar discos em vinil. O custo de produção, aponta, é ainda uma das grandes barreiras. A fábrica trabalha com uma prensagem mínima de 250. Somando os custos com a fabricação, transporte para o Brasil e taxas de importação, ele revela que nesta tiragem mínima o preço dos discos sai por R$27 a unidade, no formato LP (12 polegadas), incluindo capa.

Referência: diário do nordeste

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