sábado, 7 de fevereiro de 2015

Alfabetização na Flor do Dia: uma iniciativa vitoriosa na área da educação, em plena década de 60

Na segunda metade da década de 60, escola nas cidades já era artigo de luxo, na zona rural então, era um enorme exercício de futurismo e foi nesse cenário que um casal se destacou pelo ineditismo ao levar uma professora para morar na fazenda e oferecer uma inédita oportunidade de alfabetização para crianças e adolescentes, na Fazenda Flor do Dia, no município de Ipirá BA

Hoje, 06 de fevereiro, é dia de lembrar de Seo Tininho que, se vivo fosse, estaria comemorando 88 anos de idade. Já falamos aqui no Artecultural, da figura ímpar e impagável, grande na generosidade, que marcou o cotidiano do bairro da Cidade Nova, em Feira de Santana, nos anos 70 e 80, sendo o precursor do comércio daquele bairro ao montar a Mercearia Carneiro, hoje o Mercadinho Seo Tininho, que completa em 2015, 44 anos de ininterrupta atividade.

Mas nesta data especial, falaremos da visão de futuro do casal Tininho & Terezinha e da decisão inusitada da Professora Valdir que deixou o conforto da já cidade grande que era Feira de Santana, para ir morar em uma fazenda, distante 120 km da sua residência e sem qualquer item de conforto.

Quando meus pais decidiram fazer o convite à Professora Waldir, sabiam que a probabilidade dela aceitar era pequena, mas para surpresa de ambos, ela resolveu encarar o desafio. E lá se foi a professora arregimentar os seus futuros alunos. Começamos com apenas cinco crianças das redondezas, mas logo foram chegando outros filhos de vizinhos. Pessoas que moravam distante 5, 7 quilômetros, mas que vinham a pé ou em lombo de jegue para não perder uma chance única de aprender as primeiras letras.

Decorridos poucos meses, já éramos 16 crianças e adolescentes, todos se espremendo em volta de uma enorme mesa, em busca do aprendizado. Claro que, naquele tempo, a preocupação se limitava a aprender a ler, escrever e fazer as contas básicas. Waldir, severa e disciplinadora, não tolerava atitudes de insubordinação e, quem andava fora dessa linha, cumpria o castigo em uma mesinha separada, bem juntinho dela. Era o terror e todos nós temíamos a dita mesinha.

Naquele grupo tinha apenas um canhoto: o Elias! E como o colega sofria para escrever no lado oposto aos demais, levando-se em conta que não havia espaço entre um aluno e outro em volta da mesa. O coitado ouvia poucas e boas, tomava leves cotoveladas e beliscões e, claro, ninguém queria sentar ao seu lado. Em várias ocasiões, a intervenção de Valdir se fazia necessária para acalmar os ânimos.

E o salário da professora? Se na contemporaneidade a função não é reconhecida em termos de remuneração, imaginem há 45 anos! Alguns pais, quando podiam, pagavam um valor que não era previamente estipulado e dependia das condições financeiras e da boa vontade de cada um. E tinham os presentes. Como Valdir era fumante, ganhava muitos maços de Continental sem filtro, - era o top da época e o seu predileto, - aquele indefectível conjunto com três sabonetes Alma de Flores, além de outros mimos disponíveis na ‘venda’ que Seo Tininho mantinha na Fazenda Flor do Dia.

Nesse 06 de fevereiro, data de aniversário do meu pai, Altino Carneiro da Silva ou simplesmente Seo Tininho, venho prestar essa homenagem a esse visionário que deu condições para que cerca de duas dezenas de pessoas pudessem ter acesso à alfabetização, entre eles esse escriba.

A bênção, meu pai! Que Deus mantenha o seu caminho iluminado por toda a sua existência, na dimensão que se encontra há 24 anos.

Euriques Carneiro

Um comentário:

  1. Sensacional mano, parabéns mais uma vez. Sei que a ideia era uma homenagem pela data, mas o tema que explorou foi sem dúvida o melhor de tudo, até mesmo para mim que, apesar de conhecer a história, fico orgulhoso e emocionado pela iniciativa dos nossos pais há quase meio século, e por fim seus textos que é no mínimo um aprendizado sempre.
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