domingo, 4 de janeiro de 2015

Em mais uma derrapada da Globo, Roberto Carlos é apenas um detalhe na falsificação da biografia de Tim Maia exibida pela rede de TV

O filho do cantor usou sua conta no instagram para desabafar sobre a falta de veracidade que consta no filme

Em minissérie exibida nos dias 01 e 02 de janeiro, A Globo transformou um filme lançado no final de 2014 num docudrama — mistura de ficção e documentário — em dois capítulos. Desfigurou tudo. Incluiu depoimentos de artistas, cortou cenas, alterou a ordem de acontecimentos, entre outras falhas gritantes

Tim Maia era um gênio complexo e contraditório. “Preto, gordo e cafajeste”, como ele se definia. Mas o que estão fazendo com sua biografia é caso de polícia.

Aproveitou para limpar a barra de Roberto Carlos. No longa, que é inspirado no livro de Nelson Motta, Tim é esnobado por Roberto até conseguir uma reunião por insistência da mulher de RC, Nice, em que Roberto acaba topando gravar “Não Vou Ficar”.

Os dois eram amigos da Tijuca no fim dos anos 50 e fizeram parte de um grupo vocal chamado ‘Sputniks’. Quando a Jovem Guarda estourou, Tim havia voltado dos EUA quebrado. Procurou Roberto em busca de uma chance no programa. Foram meses de batalha, eventualmente humilhantes.

Nelson narra algumas dessas histórias no livro. Na biografia censurada de RC, Paulo César de Araújo ainda lembra uma ocasião em que Roberto, na saída do Teatro Record, manda seu empresário dar dinheiro para “Tião”. A grana foi amassada como uma bola e atirada em sua direção. “Eu tive um acesso de choro na hora”, afirmou Tim.

Essa luta está no cinema. Na TV, porém, Roberto surge dizendo que ajudou, sim, o cantor, e por vontade própria, não de Nice (nem a pobre Nice, morte em 1990, pode se defender). Na pele do ator Babu Santana, Tim Maia dá um depoimento: “Foi assim que Roberto Carlos lançou o gordo mais querido do Brasil”. Você consegue imaginar essa frase idiota na boca de Xuxa, mas não na de Tim Maia.

O diretor Mauro Lima criticou a adaptação no Instagram, sugerindo que ninguém assistisse o “subproduto”. A emissora declara ter realizado uma “recriação”. Precavido e algo omisso, Nelson Motta, não falou nada e não vai falar.

Há muitas pontas que não fecham. Como um diretor permite que seu trabalho seja mutilado em nome de ficar mais “didático”? Se autorizou, reclama do quê? Estava no pacote da Globofilmes uma versão televisiva tabajara? Quem está ganhando com toda essa falsificação? Se fosse o contrário — uma telebiografia de Roberto Carlos com um papel, digamos, controvertido de Tim Maia, Tim seria chamado para dar um tapa?

Agora, não é apenas a relação com Roberto que era complicada. Tim Maia vivia às turras com a Globo. Processou a emissora por direitos autorais algumas vezes. Deu uma longa e divertidíssima entrevista ao Jô sobre isso (no SBT, evidentemente).

Foram décadas de confusões legais. Não é nota de rodapé. Mesmo sendo muito cuidadoso, Nelson Motta incluiu diversas passagens a esse respeito em seu best seller. Em 1993, numa trégua jurídica, Tim deu um cano no Faustão. “Na segunda-feira, a vice-presidência de operações da Rede Globo enviou um memorando a todas as centrais vetando a participação de Tim Maia em programas da emissora”, escreve.

Tim era louco, mas não era burro. Descontente com a capa de um disco, quebrou a sala do diretor artístico da Philips, avisando a secretária que deixou uma “lembrancinha”. Montou sua gravadora, a Seroma, - as duas primeiras letras do seu nome, Sebastião Rodrigues Maia, - para ter o controle sobre sua obra.

Foi um dos primeiros artistas independentes do país, numa época em que isso simplesmente não existia. As composições eram registradas na editora, a distribuição dos discos terceirizada. Ganhou dinheiro — gastou muito dinheiro.

Nunca escondeu suas excentricidades em entrevistas antológicas. Mas não era um inocente útil, um trouxa, um junkie burro. Suas brigas com a Globo são parte fundamental de sua vida. Morto, a emissora faz o que ele nunca permitiu: apropriou-se de Tim Maia. Roberto Carlos é apenas mais um detalhe feio nesse vale tudo.



Desabafo do filho, Leo Maia

'Meu pai não merecia algo tão tendencioso' diz filho de Tim Maia sobre adaptação de filme, assim reagiu Leo Maia, filho do eterno soulman brasileiro, disparando críticas ao filme que retrata a história do artista.

Leo Maia, filho do cantor Tim Maia, fez um comentário negativo, em sua conta do Instagram, ao relatar sobre o resultado do filme que conta a história de vida do seu pai. O cantor demonstra claramente que ficou desapontado e insatisfeito com a obra e afirmou que muitas cenas não condizem com a realidade dos fatos.

"Vi o filme do meu pai... Nossa, ruim... Contei 18 coisas que não fazem parte com a realidade", disse o cantor.

Leo destacou uma das cenas que o deixou frustrado. "O cúmulo é minha vó branca e meu avô negão. Pena ver meu pai tão mal interpretado... Ele era muito mais que isso", lembrou o artista.

Para tentar amenizar sua insatisfação, Leo afirmou que irá fazer um documentário sobre a vida do pai.

Conselho do diretor

A versão do filme Tim Maia transformada na minissérie Tim Maia – “’Vale o que vier”, exibida na Globo na quinta e sexta-feira passada foi contestada pelo diretor do longa, Mauro Lima. No Instagram, ele pediu aos fãs que não assistissem à minissérie.

– Aos seguidores que não viram “Tim Maia” no cinema, sugiro que não assistam essa versão que vai ao ar hoje e amanhã na Globo. Trata-se de um subproduto que não escrevi daquele modo, nem dirigi e ou editei – compartilhou.

Referência: DCM

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