sábado, 8 de novembro de 2014

O poeta piauiense Torquato Neto: o que ele tem a ver com a música “Cajuína”, de Caetano Veloso?


Torquato Neto e Caetano Veloso

Início dos anos 2000, em uma reunião de trabalho em Feira de Santana BA, contamos com a presença do poeta/bancário Luiz Oswaldo, à época, executivo do Banco do Brasil. Fazendo uma analogia com o cotidiano corporativo, ele falou da música “Cajuína”, composta por Caetano Veloso, tendo como mote o seu amigo e colega de tropicalismo, Torquato Neto

Jamais me esqueci da narrativa de Luiz Oswaldo, da riqueza de detalhes e da origem de cada verso de composição, inclusive do detalhe do refresco servido a Caetano e muito consumido no Piauí, à época: a cajuína. Foi assim que fiz várias pesquisas a respeito e disponibilizo para os aqueles que acompanham o Arctecultural, um breve histórico sobre a origem da famosa canção do baiano de Santo Amaro e maior letrista vivo da MPB, Caetano Veloso.

Euriques Carneiro
Cajuína: uma tradição do Piauí

É bastante curioso e interessante o contexto por trás da letra de “Cajuína”, de Caetano Veloso, música que ele gravou em 1979 e é uma das melhores do seu disco “Cinema Transcendental”.

É uma pequena canção (xote) que para muitos não tem sentido algum. Pois tem e muito! Tanto para o compositor quanto pra família do jornalista, escritor e poeta Torquato Neto. Ele era piauiense, filho do Dr. Heli da Rocha Nunes, que foi advogado de oficio e militante espírita em Teresina, tendo desencarnado em 2010, aos 97 anos de idade.

Torquato foi um dos grandes poetas da Tropicália e cometeu suicídio em 1972, abrindo o gás e fechando as janelas do seu apartamento no Rio de Janeiro. Era casado e tinha um filho. Essa tragédia foi que motivou Caetano à composição desta música. Ela é muito sugestiva porque questiona o problema ou mesmo o drama do existir, interrogando desta forma a quem souber responder: “existirmos – a que será que se destina?”, em um questionamento sobre o direito de dispor da própria vida e de abreviá-la utilizando do livre arbítrio.

O jornalista, poeta e escritor piauiense Paulo José Cunha, sobrinho do Dr. Heli Nunes, pai do poeta falecido (um dia após completar 28 anos), esclarece melhor:

“Caetano havia chegado a Teresina para um show, estava muito triste. Retornava pela primeira vez à cidade onde havia nascido um de seus principais parceiros na Tropicália e seu grande amigo, o poeta Torquato Neto, meu primo, que havia se suicidado em 1972. Caetano procurou Tio Heli, pai de Torquato. Já se conheciam do tempo em que Tio Heli ia a Salvador ver Torquato, que estudava na mesma escola de Caetano.

Levou Caetano pra casa, serviu-lhe uma cajuína, e procurou consolá-lo, pois Caetano chorava muito, convulsivamente. Em determinado instante, Tio Heli saiu da sala e foi ao jardim, onde colheu uma rosa-menina, que deu a Caetano. Ali mesmo os versos de Cajuína começaram a surgir, entre antigas fotos do menino Torquato, penduradas pelas paredes.”

Depois de alguns anos apareceram em disco esses versos monumentais de Caetano na música “Cajuína” de sua autoria:

“Existirmos - a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina.”

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