terça-feira, 14 de outubro de 2014

Cineclubes superam desafios tecnológicos se mantêm na luta pela tradição





A tecnologia permite que uma pessoa tenha em seu smarthphone, computador ou tablet, aplicativos e acesso a sites que possibilitem assistir a filmes online a qualquer hora e em qualquer lugar. Mas seria a tecnologia uma ameaça a um movimento que tenta manter a tradição do debate e do encontro entre pessoas como os cineclubes? O tema divide opiniões


Pedro Lacerda, diretor da Associação das Produtoras Brasileiras de Audiovisual, acredita que a tecnologia tenha tirado público dos cineclubes. "A magia da película, do celuloide, foi acabando, e hoje foi substituída por uma projeção tecnológica. As pessoas não se interessam por ir ao cineclube. Hoje elas podem baixar [um filme], assistir no aplicativo, parar o filme quando quiser, analisar uma cena."

A pesquisadora de cinema Berê Bahia conta que o cineclubismo é uma atividade antiga no Brasil. "O primeiro cineclube foi criado em 1928, no Rio de Janeiro. O pessoal da minha geração, acho que 90%, tem formação cineclubista". Segundo ela, ao longo da história, esses espaços enfrentaram momentos difíceis, como na ditadura, por exemplo, e foram locais de formação para nomes importantes do cinema nacional como Glauber Rocha. 

Mas o que são esses lugares? O presidente do Conselho Nacional de Cineclubes (CNC), Jorge Conceição, explica: "É um espaço aberto para programar filmes que tenham relação com a realidade da comunidade e, após a exibição, abre-se um debate. Os movimentos cineclubistas são ações de psicopedagogia crítica". Outra característica é a entrada gratuita. Um fator importante para atrair aqueles que muitas vezes não têm acesso a uma sala de cinema.

Contudo, há quem veja na tecnologia uma oportunidade para aprimorar o trabalho na área. Vitor Sarno é um dos organizadores do Jiló na Guela, cineclube que funciona na capital federal há pouco mais de dois anos. Para Vitor, a internet provocou mudanças no cinema: salas menores e em menor quantidade, concentradas geralmente em shoppings. Mas ainda assim, para ele, a maneira tradicional de assistir aos filmes não morreu e é possível ver vantagens na tecnologia. "A internet facilita que o cineclube tenha acesso a materiais que antes não tinha. Já passamos documentários que não foram lançados aqui”. E mesmo com as mudanças, ele acredita que o cineclube ainda consiga se diferenciar. "Na internet tem muita opção e muitas vezes você não consegue filtrar. No cineclube, o que a gente tenta é garantir uma curadoria: selecionamos filmes bons para passar".

Berê Bahia acredita que os cineclubes continuam servindo como "fator de agregação em torno do cinema". Para os cineclubistas, o ponto forte são os debates ao final das exibições. Esse momento é importante para a formação de público, pois muitos dos espaços exibem filmes que não estão no circuito comercial. Seja com um especialista ou até mesmo com a equipe realizadora dos filmes, para o presidente do CNC, as conversas devem provocar os espectadores. "No debate tem que ter sempre alguém de visão mais crítica para gerar uma educação reflexiva". Outro papel destacado pelos cineclubistas é a divulgação do audiovisual.

Mas os espaços também enfrentam desafios. Eduardo Ricci, do Lanterna Verde, destaca a falta de reconhecimento do trabalho. Para ele, falta engajamento de instituições, principalmente no que se refere à inclusão. O presidente do CNC levanta dois pontos: a falta de incentivo e a dificuldade de ter uma metodologia adequada para atuar dentro de certas comunidades. "Tem todo um cuidado para não piorar os conflitos que já existem ali. Além dos desafios materiais, tem esse desafio metodológico."

Para que a atividade cresça, algumas medidas governamentais visam ao fomento da atividade. Durante o 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, este ano, um projeto foi lançado pelas secretarias de Educação e Cultura do Distrito Federal. O objetivo é incentivar a montagem de cineclubes dentro das escolas públicas do Distrito Federal. Atualmente, segundo a Secretaria de Educação, 77 escolas têm equipamentos e quase 50 delas já passam projeções para a comunidade. Agora, o projeto pretende investir em outras instituições e na formação de alunos e professores.

Fonte: EBC


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