quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Sealand, o menor país do mundo mede apenas 550 m2



No livro Utopia, publicado em 1516, o inglês Thomas Morus elaborou uma crítica ao sistema feudal e às injustiças sociais inerentes a ele e cunhou o termo utopia (do grego ohí= não; topos = lugar) para celebrar um território perfeito, sem defeitos, longe dos soberanos e da política. Possivelmente inspirado em Morus, o também inglês Paddy Roy Bates criou sua própria utopia, não um livro, mas um território. Ele fundou um país, o Principado de Sealand, o menor país do mundo
 
Sealand, como o nome sugere, não tem nenhum grão de terra firme. O país nada mais é do que uma antiga plataforma de concreto e aço erguida em águas internacionais (a 10 km de distância de Suff olk, no sudeste da Inglaterra) e abandonada logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. A superfície de Sealand tem apenas 550 m2, pouco maior do que a sétima parte de um campo de futebol oficial – que pelas normas da Fifa deve ter, no mínimo, 4.050 m2 – e só pode ser alcançado de helicóptero, já que a violência das águas torna desaconselhável a aproximação de embarcações.

Bates teve a ideia de fundar seu próprio país num rompante revolucionário. De acordo com o site oficial do principado (www.sealandgov.org), ele sempre gostou de uma boa briga. Antes de a Segunda Guerra eclodir, ele trabalhava como açougueiro em um mercado de Londres. Alistou-se no exército, onde alcançou o posto de major de infantaria, e serviu a seu país (ainda a Inglaterra...) no norte da África, no Oriente Médio e na Itália. Terminado o conflito, Bates viveu como pôde: exportou carne para a Irlanda, desrespeitando a lei de racionamento do pós-guerra, era proprietário de um barco pesqueiro equipado com frigorífico. Ainda arrumava tempo para sua rádio pirata, a Rádio Essex, que transmitia uma programação bem diferente (e mais agradável ao público) da BBC, emissora estatal. O Estado passou a perseguir os sinais piratas e foi aí que Bates e sua família partiram mar adentro. Para poder continuar com seu sinal de rádio, ele ocupou em 1966 a base militar abandonada de Knock John, que fi cava em águas internacionais. O Parlamento inglês, numa manobra esperta, decidiu ampliar a faixa geográfica da Grã-Bretanha no oceano, e Bates foi despejado. Mas não desistiu. Pegou seu barco e tomou como residência outra base militar abandonada, a Rough Towers. Mas dessa vez foi diferente.

Instalado devidamente na plataforma, Bates resolveu fundar seu próprio país depois de ter tomado conhecimento de que uma corte londrina não autorizou seu despejo do local, já que fi cava em águas internacionais, portanto, fora do alcance da legislação britânica. Bates consultou advogados e amigos próximos e pintou, em uma placa de zinco ao lado da plataforma, o nome de seu país: Sealand (terra do mar). O novo país conta apenas com três quartos e pode abrigar apenas cinco pessoas de uma só vez. Mas ainda faltava algo. Em 2 de setembro de 1967, ele resolveu dar uma festa em sua nova casa para poucos amigos, vindos todos de helicóptero, é claro. Bates surpreendeu a todos quando se autoproclamou príncipe de Sealand e nomeou sua mulher Joan, princesa; seus filhos, Michael e Penelope, pequenos príncipes; e ainda apresentou a bandeira e o brasão oficiais de Sealand, com o seguinte lema: “E mare, libertas” (“do mar, a liberdade”).

Em 1975, Bates escreveu a Constituição de Sealand, mandou cunhar moedas, emitir selos e passaportes, o que, segundo ele mesmo, era a garantia de que seu território fosse, enfim, reconhecido como uma legítima nação. Em 2005, o príncipe de Sealand encomendou um hino nacional à Rádio da Orquestra Sinfônica da Eslováquia e foi de pronto atendido. Curiosamente, a soberania de Sealand só passou a ser amplamente debatida depois de um curioso incidente diplomático.

Em agosto de 1978, aproveitando-se do fato de Bates estar na Inglaterra com a mulher, um grupo de mercenários alemães e holandeses, usando barcos e helicópteros, tomou de assalto a plataforma de Sealand e fez Michael, filho de Bates, refém. O líder do bando era o alemão Alexander Achenbach, que comprara de Bates um passaporte de Sealand pelo correio e se auto-declarava primeiro-ministro daquela micronação. Bates voltou ao seu país, desarmou o bando – esse fato não é sequer esclarecido na página oficial de Sealand na internet – e declarou Achenbach, um advogado de ideias estapafúrdias, culpado de traição à pátria e condenado a pagar uma multa de 35 mil dólares. Os governos da Holanda e da Alemanha pediram à Inglaterra a libe-ração dos sequestradores, mas os ingleses voltaram a citar a decisão da corte londrina de 1968, segundo a qual a Grã-Bretanha não tinha poder sobre Sealand.

A Alemanha, então, enviou um diplomata a Londres ,e este foi mandado a Sealand para negociar a soltura de todos, o que acabou acontecendo. Para lucrar ainda mais com a história (muita gente até hoje fala em uma armação descarada, mas nada foi provado), Bates declarou Sealand como pátria reconhecida tanto pela Inglaterra quanto pela Alemanha, que envolveram diplomatas no incidente. Os dois países, no entanto, deram de ombros para a questão e até hoje não tratam a plataforma de concreto e aço como uma nação. A história ainda teve um final insólito. Achenbach e Gernot Pütz, que participaram da invasão, voltaram à Alemanha como exilados, líderes do SRG (Governo Rebelde de Sealand, na sigla em português). Johannes Seiger, apontado por Achenbach como seu sucessor no movimento, luta até hoje – pela internet – pelo reconhecimento do grupo como legítimo mandatário do menor país do mundo.

Nas últimas décadas, Sealand viveu como um reino em declínio por causa das idiossincrasias do seu soberano. Em 1997, ele anulou todos os passaportes emitidos por seu país (aproximadamente 150 mil), já que não eram utilizados. Em 2006, a plataforma pegou fogo, por causa de um curto-circuito no velho gerador de energia, movido a óleo diesel. Uma pessoa, sem ferimentos, foi resgatada de helicóptero e a Guarda Costeira inglesa apagou o fogo em poucas horas. A construção foi reformada, mas os problemas, essencialmente os financeiros, continuam a assolar Sealand. Depois que Bates teve de retornar à Inglaterra para se tratar do mal de Alzheimer, seu filho Michael assumiu o principado. Em 2007, um site que abrigava arquivos piratas de mídia foi banido da Suécia e tentou comprar Sealand para abrir seus computadores, mas a ideia não deu certo. Atualmente, está em curso uma negociação para que o local vire a sede de um cassino, já que o jogo é ilegal na Grã-Bretanha.

Com a morte de seu fundador, aos 91 anos, em 10 de outubro deste ano, o futuro de Sealand é incerto. Michael, o herdeiro do trono, passa a maior parte do tempo em terra firme e não demonstra a mesma empolgação do pai pelo país. Sua principal preocupação é lucrar com a ideia bizarra que nasceu no meio do mar.

Fonte: Historia Viva

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