domingo, 28 de setembro de 2014

Músico praticamente desconhecido no Brasil, Moacir Santos tem uma sólida reputação no exterior





Maestro, arranjador, compositor e saxofonista, com uma sólida reputação no exterior, o pernambucano oriundo do vale do Pajeu, Moacir Santos é um dos maiores nomes da música brasileira em todos os tempos, mas é quase um desconhecido no Brasil


Foi assim que o sambista e escritor Nei Lopes abriu o texto de apresentação do grande Moacir Santos para o CD “Ouro Negro” gravado em 2001. Moacir é aquele, lembrado por Vinicius de Moraes no Samba da bênção: “A benção maestro Moacir Santos que não és um só, mas tantos, tantos como o meu Brasil de todos os santos, inclusive meu São Se­bas­tião”. 
Moacir é aquele que espanta os músicos, que leva João Bosco a dizer de sua indignação no DVD de um show histórico em homenagem ao maestro, gravado ao vivo no SESC Pi­nheiros, São Paulo, em 2005, por não tê-lo conhecido antes. É de Bos­co a interpretação da curiosa “Odu­duá”. Diz a letra de Nei Lopes (e de mais alguém não identificado): “Diz, Oduduá, quem sou eu? Pra onde vou? De onde vim? Diz, Oduduá, sou de quem? Sou do ar, sou do chão? Diz se é um mal ou um bem represar a emoção!”. Um psicólogo não poderia ficar mais contente com essa chamada “crise de identidade”. Mas o que faz Moacir? Música, volta por cima. E ainda comenta: “Por uma incrível coincidência os letristas (no plural) da primeira versão não sabiam da minha história quando escreveram a letra. 
Só fui descobrir meu nome completo e a minha idade exata na década de oitenta, nos registros da igreja de Flores. Acho que os anjos contaram a eles”.“Só mesmo o destino, com os vários no­mes que tem, para transformar um filho do interior de Pernambuco, nascido menos de quatro décadas após a abolição da escravatura e órfão aos 3 anos de idade, em um dos músicos brasileiros mais reconhecidos, nacional e internacionalmente, em todos os tempos. Pois este é o resumo da história do maestro Moacir Santos, que aos 14 anos nem sabia ao certo sua idade nem a grafia de seu nome. E que, impulsionado por uma força estranha, veio vindo, do interior de Pernambuco para o Recife, do Recife para João Pes­soa, de João Pessoa para o Rio de Ja­neiro, do Rio de Janeiro para Los An­geles e de Los Angeles para o mundo.”

Foi também em 2005 o lançamento do CD “Choros & Alegria”, que contou com a participação do trompetista americano Wynton Marsalis, assim, numa faixa só, sem alarde. Moacir é aquele que te espanta, quando você pensa que já ouviu tudo de música brasileira, e se dá conta de que foi roubado, de que perdeu alguma coisa muito valiosa e delicada, e criativa, e sofisticada na harmonia, na melodia, no ritmo. Crise de lesa-majestade musical, por nos manterem ignorantes e durante tanto tempo que ainda dura. 
Até quando? Não deveria haver algo como a lei de segurança nacional que protegesse nosso patrimônio imaterial e cultural? Nem tanto, não precisamos do entulho autoritário, basta-nos o esforço de guardiães como o violonista Mario Adnet, o guitarrista Ricardo Silveira, e a flautista Andrea Ernest Dias, que não só resgataram o som de partituras perdidas da obra do maestro, como também vêm conseguindo tirá-lo do inacreditável esquecimento e anonimato, por meio de produções musicais, shows, discos, festival e livro. Gil, Djavan, Milton, Ed Motta, João Donato, Joyce, Muyza Adnet, sem esquecer de Simonal, nos ajudam a cantá-lo.

Maestro, arranjador, compositor e saxofonista — lembra Nei Lopes — Moacir José dos Santos nasceu em Flores do Pajeú, interior de Pernambuco, em julho de 1926. — Chegada a revolução varguista — continua —, “o negrinho Moacir era entregue, em sua Pajeú, aos cuidados de uma família branca remediada, que lhe propiciou instrução ginasial e musical.

Aos 14 anos, já dominando vários instrumentos de banda, além de banjo, violão e bandolim, fugiu de casa, em busca de novos horizontes. Em 1942 muda-se para o Crato, terra do Padre Cícero, de onde vai para Timbaúba e depois retorna a Recife, para tornar-se, ao tempo em que a influência americana começava a entrar de rijo no Brasil, o ‘saxofonista negro’, tipo Ben Webster, Coleman Hawkins, Lester Young, pelas mãos mercadológicas dos radialistas Antonio Maria e Jose Renato”.

Um parêntese. Antonio Maria, citado por Nei Lopes, deve ser o com­positor, não é? O dos versos fa­mosos, gravados por Nora Ney e Nat King Cole: “Ninguém me ama, nin­guém me quer, ninguém me cha­ma de meu amor”. Sempre me lembro de Isabel Câmara parodiando: “Nin­guém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Beau­de­laire”. Voltando ao Nei: “Moacir San­tos muda-se para João Pessoa, onde chega a sargento-músico da Po­lícia Militar. Na PRI-4, Rádio Ta­bajara, é chamado a integrar o conjunto que vai substituir a legendária orquestra de Severino Araú­jo, de mudança para o Rio, em 1948, já casado com Cleonice. In­gre­ssando na Rádio Nacional co­mo saxofonista, frequenta ,também, a grande escola dos bailes, cum­prindo o trajeto ‘banda de música-baile-rádio’ feito pela es­magadora maioria dos instrumentistas, arranjadores, regentes e chefes de orquestra afrodescendentes, responsáveis pela linguagem que dominou a vida musical brasileira dos anos de 1930 aos de 1960, no disco, no rádio, no cinema, nos shows e na nascente televisão”.

Aqui, uma pausa para bendizer as bandas militares, que garantem o sustento da dura vida dos músicos, e da Rádio Nacional, “mater et magistral” da cultura popular brasileira. Depoimento de Baden Powell: “Moacir foi maestro, por concurso, da Rádio Nacional. Todos os músicos profissionais, naquela época, iam estudar música ‘superior’ com ele. Era um professor sensacional, meio metafísico, explicava a harmonia, os intervalos entre as notas, as dissonâncias, usando como exemplo as estrelas. Fui estudar com ele essas ‘sabedorias’, ficamos muito amigos e por causa dessa amizade ele começou a me mostrar as composições que fazia no piano e não mostrava a ninguém. Tocava para mim as músicas e dizia: ‘Olha essa coisa que eu fiz, escuta essa outra’”.

E Moacir se explicava: “Sempre tive o anseio em produzir músicas com a catalogação erudita, como por exemplo ‘Opus 3, nº 1’. Quando Baden Powell foi estudar comigo e me convidou para participar do disco com o baterista americano Jimmy Pratt, na antiga Phillips, o engenheiro de gravação perguntou o nome da música e eu respondi: ‘Isso é uma coisa’… Aí me ocorreu a ideia de numerá-las”.

Foram muitas. Talvez a mais conhecida seja a ‘Coisa nº 5-Nanã’, me lembro do balanço da gravação de Simonal, e que talvez esteja nos ouvidos dos não-surdos com mais de 30 anos, quem sabe 40, o que é o tempo, se a música é boa? “Na­nã” deixa a marca da riqueza rítmica, da “levada Moacir Santos”, lembra o saxofonista Zé Nogueira. Gra­vada originalmente instrumental no LP “Coisas” (Forma), de 1965, “Nanã” é tema do filme “Gan­ga Zumba”, de Cacá Diegues. A­gradecendo aos músicos que a tocaram no CD Ouro Negro, Moacir diz: “Fico muito feliz de vocês terem gravado a versão original porque foi assim que ouvi e assim que fiz. É uma grande procissão”.

Moacir acreditava em anjos, mas não parecia supersticioso quanto ao cultivo da crença de muitos que acham que o estudo seca o talento. Voltando ao Nei: “Ao contrário de muitos de seus pares, Moacir Santos nunca descurou dos estudos. Forma-se em regência, estuda com mestres como Claudio Santoro, Guerra-Peixe, H. J. Koellreutter, de quem mais tarde seria assistente, e Ernst Krenek, com quem navega pelos mares do dodecafonismo. E tudo isto ao mesmo tempo que trabalha duro, em teatro de revista, como diretor musical de gravadoras e como funcionário da maior emissora do rádio brasileiro de então”.

Aqui, Nei Lopes se lembra da grandeza da Rádio Nacional: “Na Rádio Nacional — das radionovelas e dos programas de auditório — em 1951 Moacir Santos é promovido a arranjador e regente, ao lado de nomes como Radamés Gnatalli, Leo Peracchi, Lyrio Pani­calli, quase todos de origem italiana. E o reconhecimento de seu tra­balho vem, efetivamente, na década seguinte, quando, no final de 1960, é eleito por seus colegas da Rádio, ‘o músico do ano’. Na­que­la oportunidade, no célebre programa ‘Gente que brilha’, o saudoso radialista Paulo Roberto, a ele se referia como ‘modesto me­nino pobre do estado de Per­nam­buco que, com esforço, dedicação e talento, tornou-se um dos mais bri­lhantes maestros da grande equipe de músicos da Rádio Nacional’”.

Não era só o rádio, cinema também, e não um qualquer, mas o Cinema Novo brasileiro. O ma­estro compôs trilhas sonoras para filmes como “Seara Ver­me­lha”, “Ganga Zumba”, “Os Fuzis” e “O Beijo”. Além do tema de Na­nã, o filme “Ganga Zumba” tam­bém traz a “Coisa nº 8 — Na­ve­ga­ção”. Feito em parceria com Nei Lopes e Regina Werneck. De­le diz Moacir: “A inspiração vem de uma música de Luiz Gonzaga, ‘Vem, morena’, e um tema de um filme a­mericano, estrelado por Kirk Douglas, que tinha se­melhança com a de Gonzaga. Apenas três notinhas foram suficientes para que construísse o meu tema. Se essas notas me impressionam é o bastante”.

A inspiração para “Coisa nº 2”, tema de “O Beijo”, veio do encontro com uma moça: “Uma moça deixou cair uns desenhos no chão e eu a ajudei a pegar. Ela estudava artes plásticas; começou então a me mostrar seus trabalhos e um deles era a pintura de uma rosa. Ela disse: ‘Isso é Villa-Lobos’, apontando para a rosa. Mais tarde, em São Paulo, tive uma sensação parecida ao tocar um exercício simples, em si bemol, do método de ‘Czerny’. Lembrei da história do quadro ‘Villa-Lobos’. A inspiração veio dessa sensação”.

Nei Lopes afirma que a Bossa Nova o reconhecia como uma espécie de patrono. — Mas para Moacir Santos, seu trabalho mais importante feito no Brasil foi a trilha sonora do filme “Amor no Pacífico” (Love in Pacific), em cuja gravação teve a seu dispor uma grande orquestra composta por 65 excelentes músicos. E foi esse trabalho que lhe abriu o mercado internacional e determinou sua transferência para os Estados Unidos, em 1967. Nesse país, gravou discos solo, um deles indicado para o Grammy, deu aulas e compôs trilhas para cinema, construindo uma sólida reputação como compositor, arranjador e docente, membro da Associação de Profes­so­res de Música da Califórnia.

Nei toma partido, num imaginário confronto da Bossa Nova com a música de Moacir: “Se­gundo a crítica mais abalizada, Moacir Santos produziu, nas décadas de 60 e 70, a música popular mais sofisticada e ao mesmo tempo mais enraizada nas tradições afro-brasileiras. E essa impressionante trajetória do músico e do homem, desmente um vaticínio que veio de alguém que lhe disse, aos nove anos de idade, que ‘quem já toca de ouvido nunca vai aprender a tocar por música’”.

Moacir Santos morreu em Pasadena, Estados Unidos, 2006. Lá foi descoberto por Horace Silver, um dos gigantes do jazz, autor da extraordinária “Song for my father”. Horace Silver disse que essa canção foi uma resposta ao impacto que sentiu ao visitar o Brasil e conhecer seus músicos, sobretudo os da Bossa Nova.

Oito anos depois de sua morte, admiradores se uniram e acabam de realizar o Festival Moacir San­tos, no Rio e em Brasília. A flautista Andrea Ernest Dias acaba de lançar a biografia do maestro: “Moacir Santos — Ou os Ca­mi­nhos de um Músico Brasileiro”, originalmente sua tese de doutorado. Lança também o CD “Muacy”, que repete a grafia do seu primeiro nome registrado no ser­tão pernambucano. Nesse disco, há muita coisa inédita do maestro.

Muitas homenagens já foram feitas a Moacir Santos, entre elas a condecoração pelo presidente Fernando Henrique Cardoso com a comenda da Ordem do Rio Branco, em 1996, no mesmo ano em que foi homenageado no Brazilian Summer Festival em Los Angeles. Mas sua música não toca no rádio, para o grande público. Uma vez, o maestro e querido amigo José Eduardo de Morais me disse que está para ser feito um estudo que mostre a influência exercida por Pixinguinha, que Zé Eduardo considera superior a Duke Ellington. Explicou: como muitos músicos populares não sabiam ler, nem escrever partitura, recorriam a Pixinguinha, que corrigia aqui e acolá a criação dos intuitivos, fazendo arranjos e melhorando as composições, exercendo uma influência subterrânea, não assinada. 
Nei Lopes, por sua vez, lembra a imensa influência de Moacir Santos, na transmissão de conhecimentos a músicos da estatura de Paulo Moura, Sérgio Mendes, João Donato, Raul de Souza, Dom Um Romão, Bola Sete, Roberto Menescal, Geraldo Vespar, Chiquito Braga, Dori Caymmi, e tantos outros. Penso que a influência de Moacir na música brasileira ainda está por ser apontada. Com a morte de Moacir Santos (morte, só se for no coração dos ingratos), seu nome chega até a lenda. Uma vez, o violonista Mario Adnet perguntou-lhe se era verdade que ele dera uma ajudazinha na composição do tema de “Missão Impossível”, do argentino Lalo Schifrin. O maestro não respondeu, só olhou pra cima, naquele jeito de ver anjo, num sorriso maroto.

Fonte: Jornal Opção

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