domingo, 3 de agosto de 2014

Vladimir Sorokin: “a Rússia está grávida da Ucrânia. O nome da menina, escreve, será belo: Adeus ao império”




As obras de Vladimir Sorokin são exemplos brilhantes e marcantes da cultura underground, que foram proibidos em grande parte do regime soviético, sendo que sua primeira publicação na URSS apareceu em novembro de 1989, quando a Riga com base em revista letã Rodnik (Primavera) apresentou um conjunto de histórias do escritor
 

Sorokin é um escritor ainda pouco conhecido no Brasil mas bastante respeito entre os russos. O artigo abaixo mostra um pouco da mordacidade e do humor ácido, características estas que podem ser identificadas nas suas obras que foram publicados em idiomas como Inglês, Francês, Alemão, Holandês, Finlandês, Sueco, Norueguês, Dinamarquês, Italiano, Polonês, japonês, sérvio, coreano, romeno, estoniano, eslovaco, checo, húngaro e croata. Vejam a explanação de Sorokin sobre a guerra na qual o seu país está diretamente envolvido.

Artecultural

A guerra que podemos parar

A Europa pode punir a Rússia e apoiar a Ucrânia para que obtenha o acordo interno mais generoso possível. Se deixarmos que as batalhas locais se prolonguem, acabaremos sendo abatidos enquanto voamos no MH17

Há guerra na Europa. Não, não estou utilizando o presente histórico para falar de agosto de 1914. Refiro-me a agosto de 2014. O que acontece no leste da Ucrânia é uma guerra, uma “guerra ambígua”, como é denominada por uma comissão do Parlamento britânico, em vez de um enfrentamento aberto e declarado entre dois Estados soberanos, mas uma guerra. E há outras guerras nos limites da Europa: na Síria, no Iraque e em Gaza.

Não estou dizendo que “a Europa está em guerra”. Deixo essa hipérbole para Bernard Henri-Lévy. Os países europeus, na imensa maioria, não estão envolvidos em um conflito armado. Mas não nos façamos ilusões. Vivemos durante decênios protegidos pela tranquilidade que nos dava pensar que a “Europa está em paz desde 1945”, mas isso sempre foi um exagero. Em várias regiões do leste europeu continuaram havendo pequenos conflitos armados até os primeiros anos da década de cinquenta, e depois chegaram as invasões soviéticas da Hungria, em 1956, e da Tchecoslováquia, em 1968. Nos anos noventa, a antiga Iugoslávia foi destroçada por uma série de guerras, como acaba de nos lembrar um relatório do grupo de trabalho e pesquisa especial da União Europeia, que acusa com bastante credibilidade os chefes do Exército de Libertação do Kosovo de haver cometido “crimes de guerra”.

O Kosovo foi o primeiro lugar em que vi cadáveres que saíam de sacos de plástico improvisados e sangue sobre a neve. Com aquele sangue ainda fresco, falei com um comandante do Exército kosovar, Ramush Haradinaj, que me disse uma frase inesquecível: “Eu não poderia ser a madre Teresa”. (Mais tarde chegou a ser primeiro-ministro do Kosovo, até pedir demissão quando foi julgado por crimes de guerra em Haia; foi absolvido em duas ocasiões). Dali voltei à Europa ocidental para encontrar-me com os que se dedicavam a discutir quais siglas eram as que haviam “preservado a paz” na Europa. A UE, a OTAN, ou talvez a OCDE (pela interdependência econômica), a OSCE (ou seja, as estruturas de segurança pan-europeias), ou talvez a ONU? Estavam debatendo uma premissa que então era falsa e hoje o é ainda mais. Ainda há guerra na Europa e em torno de suas fronteiras.

Tendo em conta as diferenças, as pequenas guerras sujas de 2014 têm um importante elemento em comum com a terrível Grande Guerra de 1914. Em muitos casos incluem uma luta para definir e controlar os territórios procedentes da fragmentação dos impérios multiétnicos que se enfrentaram há 100 anos e os Estados que os sucederam. Por exemplo, na batalha pelo leste da Ucrânia, o problema são as fronteiras do império russo. Alguns voluntários russos que dirigem o movimento armado no leste da Ucrânia se auto-qualificam de “nacionalistas imperiais”. (Do ponto de vista deles, não são separatistas, mas unionistas).

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