segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Mais de três décadas depois de comandar um dos melhores programas da TV brasileira, Roberto D’Ávila agrega valor ao jornalismo com programa no canal fechado Globo News





No início do dos anos 80, quando a TV Manchete tinha uma programação diferenciada no tocante a arte e cultura, o jornalista Roberto D’Ávila ancorava um excelente programa de entrevistas que trazia convidados da estirpe de Evandro Lins e Silva, Celso Furtado e Darcy Ribeiro, três grandes intelectuais que deixaram um importante legado para o país
 

A televisão por assinatura brasileira fez um up grade de qualidade de programação depois que o programa “Conexão Roberto D’Ávila” passou a ser exibido na Globo News. Com pouquíssimas opções para o assinante, além das notícias requentadas que são levadas ao ar de hora em hora, o canal fechado da holding Globopar, que tem como raras boas opções além do Via Brasil e do Sarau, a incorporação do “Conexão Roberto D’Ávila”, é digna de aplausos.

O âncora está revivendo o belo trabalho desenvolvido desde 1983, quando lançou na extinta TV Manchete o “Conexão Internacional” que, na época era, de longe o melhor e mais representativo programa de entrevistas da TV brasileira. Anos depois deu continuidade na TV Bandeirantes e depois na TV Brasil a mesma fórmula com o nome que leva hoje “Conexão Roberto D’Ávila”.

Considerado como o melhor entrevistador de TV brasileira de todos os tempos, Roberto D’Ávila tem como grande característica a discrição, nunca tentar aparecer mais que o entrevistado e principalmente: deixar o seu convidado falar, ao invés de interrompê-los a todo o momento, como fazem muitos dos nomes que hoje povoam a TV brasileira.

Com Roberto D’Ávila a entrevista entra em clima de conversa amigável, aonde o entrevistado consegue desenvolver seu pensamento e suas teses, sem ter um contra plano com uma boca nervosa pronta para interrompê-lo. Seu intuito não é colocar o entrevistado contra a parede, mas faz isso sem ser chapa branca. Seu interesse está na maneira como pensa seu entrevistado e é isso que tenta arrancar. Dono de uma vasta cultura, refinado, viajado, com grande trânsito nos meio intelectuais, seus programas mantém há décadas um grande charme que nenhum outro tem.

Numa época mais distante, aonde o mundo lá fora era muito mais distante do que é hoje e os jornalistas brasileiros não tinham o acesso as grandes estrelas internacionais, Roberto D’Ávila, principalmente nos seus grandes tempos de TV Manchete, conduziu entrevistas históricas na televisão brasileira, num programa que tinha como diretor nada mais nada menos que Walter Salles. Que outro jornalista brasileiro daquele período entrevistou nomes como Borges, García Marquez, François Mitterrand, Chagall, Woody Allen, Fellini, Catherine Deneuve Marcello Mastroianni? Não eram essas entrevistas protocolares que vemos hoje em qualquer canal a cabo para promover algum filme. Eram entrevistas longas, com conteúdo, reflexão, sem respostas prontas do entrevistados, aonde Roberto os obrigava a aprofundar seus pensamento.

Além da relevância dos nomes citados, algumas das mais importantes personalidades do mundo dos anos 80, recordo-me de dois entrevistas suas que considero históricas e absolutamente inesquecíveis: Yves Montand e Fidel Castro.



A entrevista com Fidel Castro foi altamente relevante. Estamos falando do início da década de 80, quando o Brasil ainda saía da ditadura e Cuba ainda representava um sonho utópico na nossa pureza, antes do Regime apodrecer. Fidel pôde com sua verve e capacidade de hipnotizar falar seus pensamentos, que naquela época ainda parecia ser um discurso viável, embora utópico. Como a entrevista foi feita em Havana, Fidel saiu às ruas da capital com Roberto e mais tarde encontrou o jornalista no alto a Sierra Maestra, ponto inicial da revolução cubana. Roberto D’Ávila subindo a Sierra Maestro em lombo de burro é uma cena antológica.


Outro momento ímpar foi a entrevista com Luiz Gonzaga, no avarandado da Fazenda Caiçara, aos pés da Serra do Araripe, em pleno agreste pernambucano, quando Exu ainda convivia com as mortes insanas oriundas da briga histórica entre os Alencar e os Sampaio. Ali, no seu habitat natural, Gonzagão falou livremente, sem ser interrompido, sobre a sua infância sofrida, sobre a sua luta para pacificar o Exu, além de discorrer sobre a sua vitoriosa carreira. Impagável, esse momento do programa de D’Ávila.

Infelizmente, depois da decadência e falência da TV Manchete, Roberto D’Ávila perdeu visibilidade dentro da grande mídia. Continuou pela TV Bandeirantes e TV Brasil, mas injustamente não despertava a atenção que merecia, apesar da relevância dos seus entrevistados, como presidentes da República,pensadores, escritores, atores nacionais e estrangeiros. O que o telespectador espera é que na sua nova empreitada ele volte a alcançar a representatividade que seu enorme talento merece, mesmo que seja numa TV a cabo, até para conferir um “carimbo de qualidade” à programação da TV brasileira, tão carente de opções inteligentes.

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