sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Blogueiro paulista e compositor de raper tentam denegrir a imaculada imagem de Ariano Sussasuna





Garimpando notícias sobre arte e cultura na web, deparei-me com o artigo abaixo, de autoria de Bruno Albertim e publicado no dia 03 p.p., no Jornal do Comércio, de Recife. O articulista cita a forma desrespeitosa com a qual um obscuro blogueiro paulista tece comentários pouco elogiosos a Suassuna, um dos maiores nomes da arte e da cultura do Brasil, laureado e respeitado em todo o território nacional. É citado ainda como crítico do poeta paraibano, Fred 04, compositor do movimento manguebeat e que fora aluno do autor de “O auto da compadecida”, na década de 80. Para contrapor o posicionamento dos pouco conhecidos críticos, Albertim brinda-nos com o último parágrafo, onde cita o maior compositor vivo da música brasileira, Caetano Veloso, que fala da grande admiração pelo obra de Ariano, mesmo sendo este um ácido crítico do tropicalismo.

A íntegra da escrita de Bruno Albertim, segue abaixo para deleite daqueles que nos acompanham aqui no Artecultural.

Euriques Carneiro


Ariano, o contestado


Ao longo da vida, o escritor colecionou oposições em série


Criador de uma das mais importantes e populares obras do século 20 brasileiro, Ariano Suassuna parece ter atingido a unanimidade com a morte. Semana passada, um blogueiro paulistano, contudo, mal a alma do escritor encontrou a Caetana, virou alvo de críticos ainda órfãos por ter detratado a obra – e a figura de Ariano

Além de relembrar, com várias imprecisões, o desdém do escritor pela cultura pop, o jornalista Alex Antunes chamou, de maneira nada elegante, Suassuna de “velho burro”. Intenso e volumoso como foi, Ariano Suassuna pode ter sido qualquer coisa na vida – menos unânime e burro.
“Nos últimos anos, Ariano tinha uma relação cordata, civilizada, mas morreu acreditando nas mesmas convicções”, diz o compositor Fred 04, nome de primeira hora do manguebeat, que criticou seu antigo professor de Estética na UFPE dos anos 1980 com a letra Ariano e o africano, do disco Carnaval na obra. Quando viu a música de Fred e Chico Science, que ele insistia em chamar de “ciência”, Ariano decretou, militantemente, que o maracatu jamais deveria ser misturado ao rock. E que se houve algum beneficiamento, este foi do rock ao melhorar com o maracatu, que só empobreceria com o rock. “Fiz a letra por causa dessa postura dele, de deixar de reconhecer no rock a vertente africana. O rock tem tanta raiz africana quanto o maracatu, o berço é americano, mas bebeu diretamente no blues e do rhythm and blues”, diz Fred 04, sobre a música de 1997.

Com a morte de Ariano, o Brasil parece ter perdido não apenas um ideólogo e opositor de calibre, mas um dos últimos intelectuais a se preocupar em construir um grande projeto estético. Totalizador, o Ariano que insurgiu com o Movimento Armorial dos anos 1970 propunha a criação de uma “arte erudita a partir das raízes populares brasileiras”. Mais que uma obra, construiu um projeto identitário para o Nordeste a partir da miscigenação de reminiscências culturais indígenas e africanas com o medievo ibérico. 

Não há, no horizonte, alguém que possa substituí-lo na gula de um projeto tão grandioso. “Até por conta da crise do marxismo e das grandes ideologias, das grandes narrativas, fica difícil. Estamos numa época histórica pouco propícia a projetos grandes como esse”, diz o jornalista Renato Lins, o mesmo que, sob a alcunha de Renato L, foi um dos ideólogos do Manifesto Mangue que apresentou e justificou a música de Fred 04 com a Mundo Livre S/A, Chico Science & Nação Zumbi e companhia tão inicialmente criticada por Ariano nos anos 1990.
“O manguebeat é um projeto mais aberto do que o armorial, é difícil determinar um código estrito dentro do manguebeat, ele já é um projeto de flexibilização do que seja pop ou cultura popular”, pondera Renato. “As divergências que ele tinha com o manguebeat vinham dessa visão purista da cultura popular, de algo fixo, imóvel. Sempre teve essa tensão armorial/mangebeat”, diz.

Mas tensões foi matéria também dilatada por Ariano ao longo da vida. “Ele tomou posições e decisões profissionais que devem ter surpreendido quem conviveu com ele antes. Na sala de aula, ele dizia que se havia uma personificação do demônio no Brasil, essa era a Rede Globo. Depois, se tornou extremamente pop com a versão de O auto da compadecida”, lembra Fred.

Crítico da República responsável por separar Estado e Religião, Ariano se disse, várias vezes, uma espécie de monarquista socialista, um atento ao sertanejo severino. Não deixou de atuar diretamente na esfera política.
Secretário de cultura do biônico Antônio Farias durante a ditadura militar, Ariano ocupou o mesmo cargo no governo democrático de Miguel Arraes (1994-1998). Sem contradições expressas: Arraes havia sido o primeiro governador deposto pelas botas que pisaram o Brasil no 1º de abril de 1964. Anos depois, foi também secretário de Cultura do neto de Arraes, Eduardo Campos. Deixou, na era eduardista, de ser secretário para ser nomeado assessor especial. Morreu como uma espécie de secretário sem pasta, dedicando-se ao projeto das aulas-espetáculos que encantavam o público por onde passava.

“Eduardo fez dele um verdadeiro vendedor da gestão. Estava como a Rainha da Inglaterra, mas era importante como uma marca ligada à gestão. Para o governador, era importante ter o selo”, diz o cientista político Michel Zaidan Filho, antigo colega de Ariano em alguns departamentos da Universidade Federal de Pernambuco.
Na análise de Zaidan, Ariano foi instrumentalizado politicamente até no funeral. “Até Dilma veio tirar uma casquinha. Eduardo era contraparente de Ariano, mas sabia da importância de estar ali”, diz Zaidan, aludindo ao fato do ex-governador ser casado com Renata, sobrinha da viúva Zélia (da tradicional família Andrade Lima). No sepultamento, Eduardo carregou uma das alças do caixão. Caminhava à frente dos filhos do escritor que, na opinião do cientista, não tinha consciência de sua instrumentalização. “Acho que ele acreditava piamente no governo Eduardo como um governo do povo. Mentir não era o jeito de Ariano, nunca foi. Os políticos se aproximam dos artistas, porque sabem que vão ganhar. Quem sempre sai perdendo é a arte”.

A utilidade “política” de Ariano começa, contudo, antes. Ainda no Brasil verde-oliva. “A obra dele foi aproveitada pela Ditadura para se criar o sentimento de unidade, foi muito incensada porque a obra é de fundo conservador. Muito estimulada por criar uma mitologia em torno do caráter nacional brasileiro, quase apolítico”, diz o professor Zaidan, que tratou das ideologias na obra de Ariano no livro O fim do Nordeste e outros mitos (Ed. Cortez). 

Como fez tantas vezes, Ariano defendeu o caráter de seu mais popular personagem em sua última aula-espetáculo, na abertura do último Festival de Inverno de Garanhuns. “João Grilo foi tudo, menos um herói sem caráter, venceu a aristocracia rural, a pequena burguesia, o clero corrupto (...)” disse. “Mas era um herói sem consciência de classe. Usava a lábia em proveito próprio”, contrapõe Zaidan.

Ariano, o homem público, foi mais controverso que o escritor. “Ariano é um escritor muito mais interessante, um dos melhores do século 20, do que o homem da gestão pública que foi”, diz o Renato L, que, como Ariano, atuou nos dois lados do balcão: foi secretário de Cultura do Recife, na gestão petista de João da Costa. “Ele trabalhou basicamente com os grupos ou os artistas que mais se identificavam com suas propostas, num período em que houve uma explosão de diversidade enorme”, lembra Lins, sobre os anos embrionários do manguebeat.

Na época, Ariano deu uma entrevista à Folha de S.Paulo afirmando que faria, na arte, o mesmo que Arraes fez na política. Apenas a mais pura, e portanto ameaçada, arte popular de Pernambuco, mereceria atenção. “Dava para entender que ele faria uma política cultural assistencialista, deixando de lado artistas mais modernos”, diz Michel Zaidan, autor de críticas ao Ariano desse período no contundente artigo O último mandarim da cultura do Nordeste. “Ariano, contudo, sempre foi muito cortês comigo. Sabia conviver com as críticas”, conta.

A tolerância aos opostos, contudo, parece ter sido um presente do tempo para Ariano. O membro fundador do Conselho Federal de Cultura, de 1967, e secretário do biônico Antônio Farias não recebeu com bom humor os ataques à primeira adaptação de O auto da compadecida para o cinema. Enquanto a classe cinematográfica chorava falta de apoio, a obra de Suassuna teve financiamento do então Banco do Estado de Pernambuco (Bandepe) sob intervenção militar.

O cineasta Celso Marconi foi uma das vozes mais vorazes. O contra-argumento de Ariano foi visceral: episódio já folclórico da cena cultural pernambucana, Celso Marconi foi recebido por um soco armorial quando chegou, ao lado do amigo Jomard Muniz de Britto, a uma festa na casa do autor de O auto da compadecida. “Anos depois, ele deu uma entrevista se dizendo arrependido do gesto e me chamou, inclusive, para trabalhar no Museu da Imagem e do Som”, diz Celso Marconi, creditando às temperaturas exaltadas do período a reação violenta de Suassuna. “Ele achou que eu estava prejudicando financeiramente seu filme. Mas tudo que eu queria era que o filme fosse dirigido por um cineasta do Cinema Novo”, diz Celso.

Cordialidade cultivada por ambos até os últimos dias, Celso seguiu discordando intelectualmente de Ariano. “Quando ele fala em fazer uma arte erudita a partir da arte popular, a minha posição, inclusive tropicalista, é de não ter arte nem erudita, nem popular”, diz Marconi que, agora, faz algo que boa parte do Brasil leitor faz: “Estou relendo o Romance d’A Pedra do Reino”, obra-prima do escritor.
Ariano foi, não poucas vezes, amado por quem detratou. “A antipatia de Ariano Suassuna pelo tropicalismo é notória, mas, talvez porque nunca tivesse sido correspondida, nunca me levou a querer ou precisar reagir publicamente. Sempre pensei nele com respeito e carinho. Sou grato ao homem que escreveu O auto da Compadecida, e quando li, de volta do exílio, O Romance da Pedra do Reino, lancei um sorriso cúmplice ao autor que, como eu, via no mito de d. Sebastião uma força oculta do Brasil fundando-se e não uma outra prova do nosso ridículo”, escreveu, num artigo antológico, o baiano Caetano Veloso.

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